Ainda na era Paleozóica deste blog, o Fernando me perguntou sobre como era o sistema educacional na Coréia do Sul. Isto porque ele havia lido uma reportagem no Washington Post sobre a pressão que os estudantes coreanos sofrem para serem os melhores. Foi mais ou menos na mesma época em que saiu uma reportagem de capa da Veja no Brasil sobre a educação coreana (na edição de 16/fevereiro/2005). Prometi escrever sobre o assunto assim que tivesse essa Veja em mãos, pois leria a reportagem e poderia comparar com as opiniões que angario por aqui. Pois bem, a Veja chegou pelo correio semana passada, depois de longo e nada tenebroso inverno. Eis, portanto, minha opinião geral, 100% passível de discussão.
Há alguns anos não pegava uma revista Veja de papel. Confesso que me incomodou um pouco no início. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a (falta de) qualidade do papel e da impressão, comparada às revistas que leio por aqui.
O segundo fato foi na seção “Carta ao Leitor”. Era uma foto da repórter responsável pela matéria da capa no castelo de Gyeongbokgung em Seul – infelizmente não tenho como mostrar a foto aqui. Mas, ou a foto foi tirada às pressas e não passou por um crivo técnico (entenda-se Adobagem ou Photoshopada) ou era uma montagem bem-feita – e aí teve uma adobagem feita nas coxas. Porque a repórter está mais desbotada que todo o resto da foto, as tonalidades de preto não batem, a iluminação não condiz, e a sombra dela contradiz a sombra do palácio. A explicação surreal pro fenômeno seria que dois sóis levemente separados estivessem no céu no momento do clique. Mas ainda vivemos na Terra, não no planeta de Luke Skywalker, certo?
O terceiro fato que me incomodou foi uma tabela vista ao folhear rapidamente no Guia de Saúde sobre tipos de colesterol: a tabela está completa e biologicamente ERRADA. Como isso é publicado? Será que não houve revisão? (Diga-se, aliás, tabela nunca foi o forte da Veja.)
Passado o impacto inicial, pus-me a ler a reportagem sobre as “lições que o Brasil deveria aprender com a educação coreana”. Gostei muito de saber os números e estatísticas sobre a Coréia, principalmente em comparação com o Brasil, informação que eu não compilaria sozinha por divertimento. A reportagem inteira é um grande elogio ao sistema coreano, ao investimento maciço em educação básica que foi feito pelo país há mais de 20 anos, e que hoje recolhe excelentes frutos, através de desenvolvimento tecnológico. Até o ponto negativo colocado do sistema é visto com olhos brandos: a alta taxa de suicídio juvenil rivaliza com o Japão, mas não é maior que o do vizinho, assim como o fato de ainda existirem castigos físicos caso os alunos falhem. Esses problemas não merecem mais de um parágrafo para a Veja, afinal a matéria é sobre as benesses do sistema. Jornalismo “imparcial” é isso aí.
É fato que a Coréia soube sair do buraco do subdesenvolvimento com um planejamento e força de vontades titânicas. Aplicar uma parte substancial do capital em educação básica foi crucial para o sucesso da economia e da sociedade como um todo. Além disso, investir em ensino profissionalizante, erradicar o analfabetismo, e principalmente pagar bem os professores primários, sem dúvida, foram medidas acertadas que trouxeram (e trazem) benefícios múltiplos. Isso o Brasil deve realmente copiar.
Entretanto, ao terminar de ler a reportagem, fiquei mais curiosa sobre a educação coreana e comecei a perguntar às pessoas com quem convivemos o que achavam. Existe uma unanimidade em se dizer que o ensino público aqui é ruim, fraco. “Ahn??? Como é que é???” Depois do que havia lido, essa informação parecia vinda de um outro planeta Coréia.
Logo comecei a me situar. A educação coreana festejada, modelo para o mundo, é extremamente tecnológica, voltada para o afunilamento do conhecimento. Desde cedo, tenta-se descobrir qual a melhor aptidão da criança e incentivá-la a desenvolver ao máximo essa aptidão. Assim, temos profissionais excelentes, porque foram treinados desde sempre. Especialistas, principalmente em qualquer área ligada à tecnologia.
Entretanto, é a base do ensino geral, aquela que ensina os fundamentos de uma célula por exemplo, ou os meandros da história crítica, que é lamentável no ensino coreano. Aliás, razão principal pela qual a maior parte dos coreanos sonha em mandar os filhos estudarem nos EUA a qualquer custo. (Pra aprender inglês também, outra deficiência que será amenizada com o tempo.)
Para aprender um pouco mais e melhorar seu afunilamento, a maior parte das crianças são colocadas em escolas de reforço privadas, os Hagwons. Neles, aulas específicas de matérias como matemática, ciências, inglês e artes são incorporadas ao considerado “falho” sistema público de ensino.
Vale ressaltar que os hagwons são um grande negócio em termos financeiros, além de responsáveis por trazer hordas de estrangeiros de língua inglesa para cá – o melhor professor de inglês é aquele que fala inglês desde sempre, essa é a idéia. Entretanto, conversando com alguns professores, percebemos que o hagwon nada mais é que a extensão da escola, no sentido de memorização. Aperfeiçoar-se, nesse caso, significa decorar ainda mais, adquirir destreza e agilidade de raciocínio tecnológico.
O estudante coreano da escola básica portanto não aprende a pensar, raciocinar de maneira confrontativa, crítica, nem mesmo no hagwon. O ensino é todo baseado em memorização, decoreba, do prezinho à pós-graduação. Eles sabem desmontar e montar de novo qualquer iPod, dão de lavada em qualquer estudante de outro país em Olimpíadas de Matemática. Mas se você pergunta uma opinião sobre aquecimento global, por exemplo, não vai ouvir mais que meia dúzia de palavras-chavões relembradas fracamente de algum parágrafo memorizado, se muito. Nada se discute, tudo se ouve de um mais velho. Ou lê-se num livro, onde está a “verdade absoluta”. A realidade, entretanto, é que essa visão não podia estar mais distorcida do mundo que vivemos.
Devido ao passado político de corrupção e subdesenvolvimento, o coreano é paradoxalmente muito politizado em assuntos internos. Os diversos conflitos que às vezes pipocam em Seul entre estudantes e polícia são reflexo dessa politização desatrelada de ensino crítico. Ou ainda do anti-americanismo que vem crescendo de uns tempos pra cá. Não me perguntem como alguém sabe política sem discutir suas bases ideológicas a fundo. Mas parece ser o que existe na Coréia.
De forma alguma quero desmerecer a educação coreana. Afinal, o projeto educacional como um todo é vencedor. Aliás, só facilitou o incrível desenvolvimento que vemos aqui, digno de muitas palmas. A filosofia oriental de valorização do trabalho e do saber também não podem ser rejeitadas na discussão de por quê o sistema funcionou. Mas, se esse modelo deve ser seguido pelo Brasil, é preciso que os pequenos erros que eles próprios vêem sejam analisados e levados em consideração, para que se tenha uma educação de qualidade no nosso país, já tão castigado pela falta da educação básica de qualidade.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Gostaria de usar parte de seu texto para um projeto de pesquisa que estou realizando junto à Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Poderia me enviar por e- mail seu nome e cargo para a devida citação no trabalho?
Muito obrigado
Marcelo Castelo Ferraresi
Gostaria de Obter materiais didáticos, sobre a história da Coréia. Você poderia me indicar livros ou autores?
Estou fazendo uma pesquisa enão tenho encontrado materiais.
Muito Obrigada.
Puxa, Adriana, não sei, não. Eu aprendi muito sobre história coreana nos museus e palácios de Seul... mas nada totalmente formal e unificado, como um livro. :(
Muito bom o texto, e às críticas à Veja, também. Tenho um bordão que é: "se a Veja é a favor eu sou contra". Brincadeiras à parte que parabenizar pela matéria que é de muito interesse para quem se preocupa com a educação no Brasil. Principalmente nesse momento em que nosso país passa por uma transformação nesse campo. Gostei da manuntenção do ministro, pois creio que ele seja comprometido com as transformações necessárias.
Tinha dúvidas em relação ao "superensino" da Coréia e seu texto ajudou a entender melhor, principalmente em relação a falta de uma pedagogia crítica. Tenho alguma curiosidade em relação aos custos desse ensino, mas farei uma busca maior sobre isso. Parabéns.
Obrigada, Robson!