Um dos grandes prazeres de uma viagem para mim vem do inesperado. Aquilo que você não planejou, mas que de repente vira uma experiência inusitada. Quando estivemos na Nova Caledônia em dezembro passado, sem dúvida fazer um roteiro rodoviário pela costa sudeste do país – que nós apelidamos de “Costa do Níquel” – foi um caso desses.
A Nova Caledônia está entre os 5 países com os maiores depósitos de níquel no mundo – os outros quatro são Canadá, Indonésia, Austrália e Rússia, cujas áreas territoriais são gigantescas comparadas com os minúsculos ~18,000 km2 da Nova Caledônia. Mais: a qualidade do minério de níquel extraído na Nova Caledônia é superior a maior parte do níquel encontrado em outras regiões. Isto torna a indústria mineradora de lá ainda mais cobiçada. Cerca de 10% do níquel utilizado no planeta vem da Nova Caledônia, e a exploração do mineral e produtos derivados dele são responsáveis por 97% das exportações. Noventa-e-sete-porcento.
Ou seja, o país vive do níquel, primordialmente. Turismo é outra indústria forte, vale lembrar.
E foi turistando sem intenção que nós chegamos no níquel. Ou melhor, nas minas.
O fato é que o mapa rodoviário da Nova Caledônia indica que há apenas 4 estradas asfaltadas que cruzam a ilha principal no sentido leste-oeste. Sendo ainda que a mais ao sul funciona em sentido único em certos horários do dia, por conta do tráfego de caminhões com níquel neste roteiro. Ou seja, descartada imediatamente dos nossos planos. (A 5a estrada mais ao sul, saindo de Thio, é praticamente toda dedicada ao tráfego de caminhões, e em estado precário de sinalização e conservação, de acordo com nossa amiga que mora em Noumea.) Como o país é bastante montanhoso no centro, obrigatoriamente há de se cruzar a serra para chegar do outro lado.
Na ida, decidimos ir de Noumea (sudoeste) para Poindimié e Hienghène (nordeste), cerca de 200km, via Koné pela RT1. De lá cruzamos na considerada melhor rodovia, a RPN2, para chegar até Poindimié. Só que na volta, decidimos vir por outra estrada, a RPN6. Queríamos conhecer novos caminhos. Afinal, a gente sempre faz isso quando possível. E foi aí que a aventura do nosso roteiro começou.
Nossa idéia era cruzarmos de volta à costa oeste pela estrada em Houailou. Acontece que, com exceção de Noumea e das cidades principais da costa oeste, a Nova Caledônia tem sinalização super-deficitária. Sob chuva persistente, enquanto dirigíamos pela RPN3, perdemos a entrada da RPN6 em Houailou e continuamos dirigindo até Kouaoua.
A mineração de níquel começa logo depois de Houailou, e se estende até o extremo sul da ilha de Grand Terre, a principal do país. Nos demos conta do engano quando a transformação da paisagem ficou evidente. Passou de verde montanhosa contínua para uma enorme mina avermelhada intercalada com poucas araucárias.
Morro atrás de morro completamente escavado, erodido. A sensação era de se estar numa Serra Pelada à beira-mar, uma mistura bizarra, onde ainda víamos o azul lindo característico do Pacífico Sul à nossa esquerda. Nos meus olhos de curiosa, foi muito válido ver um pouco do país além das praias paradisíacas. Os poucos vilarejos por onde passávamos tinham uma camada permanente de pó avermelhado nas construções. O cenário não deixou de ser interessante, apesar de ambientalmente perturbador e impactante.
Por horas até Noumea, após passarmos aquele trecho impressionante do roteiro, ficamos refletindo sobre a paisagem completamente alterada pela erosão. Sobre os problemas ambientais gerados para a biodiversidade e de saúde para a população. Sobre as minas abandonadas e a importância econômica do níquel pro país e pro mundo. Principalmente, o quanto nem lembramos daqueles vilarejos cobertos de níquel quando vamos à loja comprar pilhas recarregáveis ou produtos de aço inoxidável. Bastante food for thought on the road.
A estrada sobe e desce os morros, em curvas bem fechadas à beira de precipícios, sem acostamento ou asfalto – boa parte do trajeto é cascalho (mesmo no mapa estando indicada como asfalto…). Ou seja, extremamente perigosa. Gastamos horas para atravessar. Mas valeu a pena a serendipidade do roteiro, que nos forçou a entrar em contato com uma parte do país que durante o planejamento da viagem já me aguçava a curiosidade, visto que é parte fundamental da economia do país. Um pequeno erro que se tornou um grande acerto. Porque viajar também é se incomodar, fazer pensar – e muitas vezes, repensar.
Tudo de bom sempre.
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Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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Hahahahaha! Natalie, pior que eu uso como expressão idiomática, mas agora que vc falou, me deu uma vontade danada também de comer mariola! Sou do time do Fred, adoro mariola! :D
Bjs!
Lu,
Não deixe o Fred ver o seu comentário falando sobre a mariola. Ele vai fazer tudo para ganhar a charada =D Ele adora mariola hahaha
Bjs