Sustentabilidade é a palavra de ordem da minha vida atual. Eis, portanto, o relato de algo bem interessante: um tour da sustentabilidade, que fiz neste último outono durante a viagem a Bonito, Mato Grosso do Sul.

Já há algum tempo, nós temos pensado em ter uma hortinha em casa, para pelo menos algumas verduras básicas. Em São Paulo, conseguimos manter em vasos manjericão, alecrim, orégano e hortelã. Há ainda no quintal uns pés de cebolinha, alguns de café, um pé de limão e um de amora, que garante boa geléia. Tentamos plantar tomate e rúcula, mas não foram pra frente. Provavelmente erramos em algum passo. A idéia geral, entretanto, é no futuro ter uma horta decente, assim que tivermos assentado em algum lugar do mundo.

Turismo e hortas orgânicas

Eis então que em Bonito (Mato Grosso do Sul) tive uma ótima surpresa ao me deparar em algumas das fazendas de ecoturismo com hortas próprias. As fazendas estão abraçando a sustentabilidade cada vez mais e isso é bom. Entusiasta de hortinhas, fui xeretar na horta alheia para aprender um pouco mais.

Olha essa beringela! Ao ver a qualidade das verduras, André queria um tonel de azeite de oliva para despejar ali mesmo nas alfaces e começar a salada… 😀

Das fazendas em que estivemos para passeios em Bonito, visitamos duas hortas: a da Rio da Prata e da Estância Mimosa. Na horta da fazenda Rio da Prata, passamos mais tempo mallificando perguntando curiosidades ao biólogo Samuel, que nos guiou pelo que chamei secretamente de “tour da sustentabilidade”. Uma modalidade que deveria, aliás, ser incorporada ao dia-a-dia do turismo em geral.

O tour da sustentabilidade

Compostagem

Em primeiro lugar, visitamos os montes de compostagem, onde o lixo orgânico gerado pelos turistas que frequentam a fazenda é colocado para decomposição natural. Cada monte de compostagem pode chegar a 70ºC em seu interior, indicação de alta atividade metabólica de bactérias e outros seres degradadores. Depois de um tempo, quando a temperatura abaixa, o produto da compostagem é levado ao minhocário.

No minhocário, o material orgânico é misturado ao solo e as minhocas fazem seu trabalho de aeração e adubação, tornando a terra mais fértil, fofa e preparada para o plantio.

A horta orgânica

Depois que as minhocas atuaram, o solo aerado e adubado é peneirado para facilitar o manuseio e levado para a horta. É nesse solo que são plantados todas as verduras consumidas na fazenda pelos turistas e funcionários. São várias fileiras de alface, rúcula, manjericão, espinafre, beringela, tomatinho, saião, cebolinha, coentro, endro, quiabo, beterraba… E é tudo tão verde-intenso-natural, que dá vontade de comer salada imediatamente.

A horta é toda orgânica, sem nenhum uso de agrotóxicos ou defensivos químicos. Perguntei como eles evitam pragas sem usar pesticidas. A resposta foi simples. Plantam em locais estratégicos vegetais que “espantam” as pragas comuns, como a citronela, o tabaco, a arruda e a pimenta (só o sabiá come a pimenta). Além disso, plantam lado a lado vegetais que se ajudam no combate às pragas. Um sistema muito interessante e facilmente aplicável em pequena escala como ali.

As verduras da horta vão depois de crescidas para a refeição das pessoas que visitam a fazenda. E eu preciso dizer que nunca comi alface com gosto tão bom como aquela. Era alface com gosto de alface fresca de verdade, não de folha de papel como as que compramos em mercados por aí. Fora as beterrabas, super-doces e suculentas.



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Viveiro de mudas

Mas nem só da horta orgânica vive um tour da sustentabilidade numa fazenda sustentável. O Samuel cuida também do viveiro de mudas de espécies nativas, que são enviadas para áreas onde estão sendo reflorestadas. São centenas de potinhos com mudas de aroeiras, perobas, jaracatiás, ingás, ipês… Todas grandes árvores, que daqui a algumas décadas mudarão positivamente a paisagem do local. Em linhas beeeem gerais, horta no curto prazo, e floresta a longo prazo. Mas sempre pensando no ambiente saudável.

O minhocário, onde as minhocas são as trabalhadoras “braçais”. No chão do minhocário, a terra já peneirada pronta para ser usada na horta.
As mudinhas de árvores para reflorestamento.

Plantando uma árvore

Na fazenda da Estância Mimosa, depois de ver as mudinhas de árvores, terminei plantando uma aroeira no fundo do quintal. A aroeira é uma madeira nobre, motivo pelo qual foi bastante dizimada da região para virar móveis. Hoje é proibido matar uma aroeira nativa para coleta da madeira. Espero imensamente que meus netos, bisnetos ou afins voltem daqui a uns 100 anos na Estância e encontrem a árvore que eu plantei bonita e frondosa.

As mudinhas de aroeira, que depois plantei no quintal da Estância Mimosa. Um dia atrasada nas homenagens práticas ao dia da árvore.
Uma Malla plantando uma aroeira.

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Leia mais: Relato completo da minha estadia no Pantanal Sul.


O problema do gado

Mas Mato Grosso do Sul não é Mato Grosso do Sul se não tiver gado.

A pecuária é uma das maiores fontes de renda do estado e imensas áreas de pasto são vistas em todas as fazendas da região, inclusive as dedicadas ao ecoturismo. Aliás, antes de explorarem o ecoturismo, eram todas pecuaristas. Eu chamaria o turismo nessa região de agroecoturismo, já que o ecoturismo ocorre em uma porcentagem da área total das propriedades rurais ali. Por sinal, já proporciona mais renda que o gado em algumas fazendas. Por lei, cada propriedade deve manter 20% de área nativa (e se não tiver mais, deve reflorestar). A maior parte das fazendas está em déficit ambiental com as regras do governo, entretanto.

Vacas por todo o lado: eis a cena mais comum do Mato Grosso do Sul, o centro pecuarista do Brasil.
Fazendo a cavalgada pelos pastos enquanto ouvia as histórias pantaneiras…

Como todos sabem também, gado não combina muito com sustentabilidade. Vale ressaltar que no Mato Grosso do Sul o gado não é confinado (cria-se em média 1 cabeça por hectare. Além disso, a abundância de água minimiza os impactos gerais da atividade ali. Mas mesmo assim, ver tanto pasto incomoda em minha visão de ecoturista.

O problema é, entretanto, muito mais complexo. A pecuária se tornou uma característica cultural daquela região, desde os tempos que o Paraguai ainda era o dono dessas terras. Tirar a pecuária dali do Mato Grosso do Sul é algo como tirar o samba do Rio de Janeiro. Gera não só impacto econômico como também um impacto cultural complicado de se lidar. Há de se minimizar o impacto ambiental, portanto, sem deixar de lado questões humanas.

Cavalgada no rio da Prata

Com essa visão na cabeça, foi ótimo numa tarde sair para a Cavalgada pela fazenda do Rio da Prata em Bonito. Confesso que eu não sou muito fã de cavalos e se dependesse de ser amazona estava no sal completo, mas é uma forma de lançar novas perspectivas a uma paisagem tão batida. Circulamos entre enormes áreas de pasto, num sobe e desce de grama sem fim, ao lado de inúmeras vaquinhas. Depois entramos num pedaço da RPPN (área de ecoturismo) e temos uma sensação muito diferente ao fazer uma trilha de mata em cima de um cavalo. A copa das árvores está mais próxima, o animal pára toda hora para comer (afinal, às vezes o bicho me controlava) e é possível ver detalhes “altos” da floresta ciliar muito interessantes.


Leia mais: Como é o passeio de flutuação pelo Rio da Prata.


Nosso guia de cavalgada era o Fábio, um típico pantaneiro. Conversamos bastante durante as 2 horas de cavalgada. Ele nos contou diversas histórias e estórias que envolviam pecuária e as diferentes “querelas” pecuaristas com politicagens e problemas indígenas, mostrou um lado da cultura pantaneira fascinante e suas palavras simples mas cheias de conhecimento prático deixaram um monte de novas questões sócio-ambientais para reflexão. Nem só de horta afinal vivem as atitudes ecoconscientes.

E se um “tour da sustentabilidade” não deixasse essas questões, não teria valido tanto a pena – pelo menos para mim.

Tudo de bom sempre.

P.S.

  • Publicado também no Faça a sua parte.
  • Os passeios feitos em Bonito (Mato Grosso do Sul) em outubro/2008 pela blogueira foram apoiados (#ap) pela Bonito Brazil.

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Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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  • O caso é que a região sempre foi um "prato cheio" para a pecuária extensiva: lá se "planta" boi... Esse tipo de pecuária (por ineficaz que seja) não precisa de desmatamentos ou de maiores agressões ao meio ambiente. O desmatamento corre muito mais por conta das carvoarias e da exploração desenfreada das "madeiras de lei".
    O "peão" (montado, o que não deixa de ser um contrasenso) pantaneiro absorveu muito da cultura indígena e, se não vive em paz com, pelo menos não vive em guerra com a natureza. É um relacionamento parecido com o do marinheiro com o oceano: um misto de amor e temor. Aliás, a navegação terrestre no Pantanal lembra muito a oceânica. As "comitivas" ainda se baseiam muito em uma variante dos "portulanos".
    A maior ameaça a esse modo de vida vem da imigração de sulistas e suas práticas intensivas de agricultura e pecuária (devidamente importadas da Europa).
    Mas, se há algum lugar na face da Terra onde se pode pensar seriamente em "desenvolvimento sustentável", eu aposto no Pantanal.

  • Lucia, fico até com vergonha de minha hortinha. Que coisa maravilhosa. Realmente, o sabor do vegetal fresquinho é algo indizível. Meu tomateiro também não vingou, não sei o porquê. Mas, vou aprendendo aos poucos.
    Que passeio incrível, hein, Malla. Amei.
    beijo, menina

  • Má, fico muito feliz q tenha gostado. :)
    João, vc mais uma vez faz uma excelente colocação. No Pantanal, as condições naturais são muito mais favorecedoras da pecuária que em muitas áreas onde a atividade é intensa, mas às custas do ambiente. Apesar de alguns eucaliptos no MS, o Pantanal parece ser terreno fértil para boas idéias de sustentabilidade, e não só envolvendo turismo. Aguardemos com torcida.
    Denise, tomate é difícil cultivar! Principalmente em hortas menores. Mas não desista. :)
    Beijos a todos.

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Lucia Malla

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