A entrevista de hoje é um pouco diferente das que normalmente eu publico aqui. Em geral, pergunto sobre as viagens do entrevistado de uma maneira abrangente, que engloba por assim dizer todas as viagens que o mesmo já fez na vida. Com o Iraldo foi diferente, porque ele está morando em um país que eu pouco comento aqui no blog, vivendo uma rotina de transformações e literalmente de reconstruções. Então eu não podia perder a chance de focar exatamente nas descobertas legais que essa experiência está trazendo para ele. Aproveito a deixa e recomendo o blog “Angola em fotos”, que ele criou para colocar, sem muita firula e texto, as fotos que tem tirado em sua vida em Angola. Aliás, nem precisa de texto, as imagens falam sozinhas. Muito revelador mesmo. E, além disso, viajem aqui com as palavras gentilmente deixadas na entrevista pelo Iraldo!
Iraldo: Lucia, sou um engenheiro civil e trabalho na produção de obras de infra-estrutura (saneamento básico, pavimentação, viadutos, rodovias, barragens, etc.). Nasci no interior do estado, mas moro em São Paulo desde 1990, onde me especializei neste tipo de obra, sobretudo as construídas em áreas densamente povoadas. Em 2005 fui trabalhar na construção de uma rodovia em plena selva peruana, depois trabalhei nas obras de construção de uma usina hidroelétrica em Rondônia e agora me encontro aqui em Luanda, capital de Angola, onde estamos pavimentando algumas ruas e avenidas do bairro Cazenga, uma enorme concentração humana com quase dois milhões de habitantes que se formou a partir da vinda de refugiados de guerra do interior do país e também de países vizinhos, como o Congo, Zâmbia, Zaire e Namíbia. Volto para o Brasil a cada sessenta dias para visitar a família, onde permaneço por dez dias.
Iraldo: Moro em uma república, numa casa de um condomínio fechado em Luanda Sul, no melhor bairro da cidade, com mais quatro companheiros de trabalho. Acordo às quatro e meia da manhã, preparo meu café e saio às cinco e meia para o acampamento da obra. Atravesso a cidade gastando no mínimo uma hora e meia para percorrer uma distância de dez quilômetros (já cheguei a gastar três horas), o que me deixa com saudades enormes da Av. 23 de Maio.
Luanda ainda está construindo suas vias arteriais, não possui um sistema de transporte coletivo, e a população se utiliza das “candongas”, as vans particulares pintadas de azul e branco pilotadas por cidadãos comuns, para se locomover pela cidade. É a materialização do caos. Passamos cerca de quatro a cinco horas por dia em congestionamentos. Nunca chego em casa antes da nove da noite. E, nos dias de folga, geralmente vou à praia.
Iraldo: Veja, Lucia, Angola é um país com doze milhões e meio de habitantes onde quarenta e três por cento da população tem menos que quatorze anos de idade, e que está passando por um processo de reconstrução após vinte e sete anos de uma guerra civil que matou um milhão e meio de pessoas e criou quatro milhões de refugiados. É um país rico em recursos naturais, exporta petróleo, diamantes, e possui ricas jazidas de minérios de ferro, ouro, e cobre.
Mas a impressão que fica num primeiro olhar é que não existe uma classe B por aqui. Somente uma pequena classe A e um vasto contingente de pessoas que formam as classes C e D. Ou seja, acho que existem apenas milionários e miseráveis. A distribuição de renda ainda está longe de ser a ideal. Nota-se isto facilmente pelos congestionamentos, que são formados basicamente por candongas, carros velhos e SUV’s de última geração. O angolano da capital começa o seu dia lutando para conseguir água. O governo disponibiliza caminhões-pipa para que a população possa se abastecer, mas claro, nunca é suficiente para todos.
É comum ver mulheres e crianças carregando galões de água na cabeça logo quando o dia amanhece. A taxa de desemprego é alta e a economia em Angola é basicamente informal. Pode-se comprar qualquer coisa nas ruas, de papel higiênico a ventiladores. E o angolano comum e desempregado vive cada dia com o resultado do que consegue vender pelas ruas.
Iraldo: Foi assistir a passagem de um funeral, com o caixão enfiado dentro de uma candonga lotada de pessoas que batucavam sobre ele, riam e tomavam cerveja, assim como todos os passageiros dos outros carros que seguiam o cortejo. A morte de alguém por aqui é celebrada com festa. É cultural. E o funcionário, por lei, pode gozar de até três dias de folga por luto em família.
Iraldo: Não cheguei a presenciar, mas fiquei sabendo que, no bairro onde trabalho, um motorista de um caminhão de bebidas atropelou uma criança. Então ao descer para prestar socorro à vítima, foi apedrejado até a morte pela população. E saquearam o caminhão. Esta cena ficou passando por minha mente durante dias.
Iraldo: Tenho conversado muito com as pessoas e noto que todos esperam uma mudança para melhor. Anseiam por mais escolas para seus filhos e lutam para melhorar os seus padrões de vida. E, todos, repudiam a corrupção, uma prática enraizada na estrutura local de poder. É comum a polícia, sobretudo a de trânsito, parar as pessoas na rua e exigir dinheiro forjando multas inexistentes. Tudo funciona na base da “gasosa” (refrigerante). A burocracia é enorme e incentiva esta prática nefasta.
Iraldo: O angolano padrão é uma pessoa alegre e bem humorada, de bem com a vida, muito parecido com os brasileiros. Gostam de carnaval, música, praia e de viver bem como a gente. Adoram brasileiros devido às novelas da Globo. Dentre os gêneros musicais escutam semba, kizomba, cuduro e muita, muita música brasileira. De Roberta Miranda a Skank. De MPB a Bruno e Marrone. Sabem tudo sobre nossa música.
Iraldo: Angola já lidera naturalmente, juntamente com a África do Sul, o bloco dos países da África subsaariana. Sua economia cresceu quase vinte por cento em quatro anos. E agora, com este imenso aporte de capital estrangeiro proveniente da China, Europa, EUA e Brasil, a tendência é que cresça ainda mais. Só posso, portanto, vislumbrar um futuro brilhante para esta nação. E me sinto feliz em poder modestamente contribuir com o meu trabalho para que isto aconteça.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
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Ja conheci varias pessoas de Angola. Tudo gente boa!
Lucia, pergunta off topic: lembra quando eu te falei daquela viagem pra Israel (Jerusalem), Paris e Londres que eu falei? Pois eh, ja estamos planejando e acertando tudo. Vc conhece algum blog que fale de Jerusalem (ou de Israel) ou de viagens pra la? Pode ser em portuga ou ingles mesmo. Se souber de algum, me avisa? Eu acho websites variados, mas nao sei de nenhum blog. Adorari ler. Tenho estudado bastante sobre a cultura de la. Eh uma delicia isso! Beijos!
Delicioso o cartaz do Doutor! (Tudo a ver com o macumbeiro aqui!... :) )
Guardadas as devidas proporções, muito semelhante a outro país lusófono que a gente conhece... "Corrupção endêmica", "carência de infraestrutura" (sempre onde mais se precisa dela...), "enormes recursos naturais que nada rendem para a população" e um povo que, com problemas seríssimos, sempre arruma motivo para abrir um sorriso...
Andrea, antigamente tinha um blog chamado "Balagan" no blogspot, escrito pela Renata (jornalista do Globo) q morava em Tel Aviv. Esse blog acabou, e eu não sei mais se ela apenas mudou de endereço ou desistiu de blogs. Tem um catálogo de blogs:
http://www.blogcatalog.com/country/israel/6
O problema aqui é q a maioria dos blogs q fala de Israel é político, e não sobre viver lá em si. Mas fuçando o catálogo se acha.
Outro link q vc pode procurar é o Travel AllTop:
http://travel.alltop.com/
Q é um agregador de blogs e jornais de viagem em inglês. Tem muita coisa ali, e acho q dá pra procurar por lugar. Sugiro imensamente o Gadling para um search.)
Mas é tudo em inglês, infelizmente. :(
João, a comparação com o "vizinho de colonização do outro lado do Atlântico" é mesmo inevitável, não?
Olha só, eu postei essa foto da lista do médico pq eu achei um termo q minha avó falava sempre. Ela dizia q tinha "giba" (corcunda). E além dela, eu nunca ouvi ninguém na vida usar esse termo. Quando li no cartaz, abri um sorriso e bateu uma saudade dela... é fascinante a lista toda. Adorei.
Beijos aos 2.
Obrigada, Lucia! Em inglês tá ótimo, a maioria dos blogs que eu leio é inglês mesmo. Valeu! Vou dar uma olhada.
aff q delicía achar as fotos do Iraldo de volta.. eu morria de saudades do "Escrúpulos"... obrigada pelo presente!!!
Bem interessante o trabalho do Iraldo... e também como celebram a morte na Angola.
[]'s
Sausdações pessoal,
Adorei a pequena reportagem e agradeço o esforço do irmão Eraldo (brasileiro). Eu sou angolano e tenho fé de dentro de cinco anos muita coisa vai mudar em Angola, para melhor, e que poderemos viajar em ambos lados do oceáno (Angola-Brasil e vice-versa) sem vistos nem constrangimentos.
As pareciações do Iraldo são umas das poucas, lidas por mím, que assume o lado crítico da sociedade angolana e não exagera ou menospreza a nossa sociedade, acredito que têm muito que ver com o seu nível cultural.
Valeu a matéria.