Das surpresas mais fascinantes que tive em San Juan, capital de Porto Rico, destaca-se sem dúvida a percepção ao vivo e a cores de que toda a antiga San Juan era, na realidade, uma cidade dentro de uma fortaleza. (By the way, eu adoro essa coisa de “passado ao vivo e a cores”). Portanto, é a fortaleza San Juan.
Quando li nos guias sobre a presença do forte, imaginava que seria algo no estilo do forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, que salvaguarda uma das pontas de acesso à cidade.
Há um forte assim, o San Felipe del Morro ou El Morro, principal de San Juan. Mas a ele está conectado um sistema de muralhas e outros fortes interligados que, mantidos como patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO, dão uma sensação interessante ao local de “cidade medieval européia nos trópicos”. A área toda é um parque nacional histórico, gerenciada pelo National Park Service americano.
A razão para a existência da fortaleza englobando toda a San Juan é histórica. Na época das grandes navegações entre os séculos XV e XIX, a cidade era o primeiro porto de atraque para os espanhóis quando estes vinham da Espanha em direção ao Caribe e América Central. Ou seja, um valor estratégico altíssimo. Mais: com uma geografia que forma um porto natural profundo e perfeito em San Juan, aliada ao fato de Porto Rico ser uma ilha maior, com recursos suficientes para a sobrevivência por longos períodos – e MUITA riqueza à espera de ser explorada, como bem sabemos -, os espanhóis que ali chegaram logo perceberam o valor daquele ponto estratégico para eles, e – óbvio – quiseram se apossar (e proteger) das terras. Ficaram ali até 1898, quando a Guerra Hispanoamericana foi deflagrada, e Porto Rico convertido a território americano.
O nome “Porto Rico”, dado pelos espanhóis, é bem auto-explicativo da importância que deram à ilha…
Foi ainda no século XV que começou a construção da muralha de proteção a San Juan. À medida que o tempo passava, e holandeses e ingleses (e piratas) tentavam invadi-la para terem domínio do porto estratégico de entrada nas Américas, a muralha foi crescendo e vários fortes foram estabelecidos. O primeiro a ser construído foi La Fortaleza, que protege diretamente o acesso à costa protegida e fácil de atracar da baía de San Juan.
Depois de La Fortaleza, foram construídos El Morro, na ponta noroeste da ilha de San Juan, “esquina” da baía com o oceano Atlântico, e o Castillo San Cristóbal, fortificação alta e de cara pro Atlântico, cuja construção iniciou-se em 1634, e que serviu principalmente de posto de observação para detectar a chegada de navios inimigos. Estas 3 grandes fortificações foram interligadas por muralhas de fazer inveja a muitas cidades européias, e, com exceção do trecho de muro na parte sudoeste de San Juan, ainda são vistas hoje pelos turistas que passam por San Juan.
Entendido o contexto histórico de San Juan ter tantas fortificações, veio então minha estratégia para visita. Alguns podem achar que fortes “são todos iguais” – principalmente porque arquitetonicamente são, mesmo – e escolhem um deles para visitar, em geral El Morro, o mais propagandeado. Mas eu recomendo ir a todos, entender a posição e a diferente função de cada um na proteção da cidade, mesmo se você tiver pouco tempo. Com um dia de caminhadas, dá para visitar os 3 (com tempo apertado, mas dá), principalmente porque há um sistema de trolley gratuito que conecta os principais pontos da Antiga San Juan, o que facilita muito o passeio.
O primeiro forte que visitei foi o El Morro – afinal, pensei como 90% (DataMalla) dos turistas que chegam: “se só tiver tempo para visitar um, que seja o maior/mais importante”. A caminhada para chegar até o forte já é uma delícia de ver. Afinal, você passa por uma ponte antiga em cima de um fosso seco. Ainda antes disso, você passa por um gramadão verde aberto, cheio de famílias soltando pipas e fazendo piqueniques com o mar azul-lindo ao fundo. Eu, que viajo na maionese quase o tempo todo, já cheguei na entrada para comprar o ingresso pensando em piratas, lutas e afins.
(O ingresso combinado, aliás, custa 5 dólares e te dá direito a visitar o Castillo San Cristóbal em até 7 dias da data emitida.)
Ao entrar no El Morro, você se depara na praça central com as 3 bandeiras: dos EUA, de Porto Rico e da Cruz de Borgonha, com a insígnia naval espanhola.
De lá, eu parti pra explorar a parte de cima da fortaleza, onde fica o Farol, e para sentir a ventania que bate na construção.
Interessante também notar que um quebra-mar, já início da proteção, fora construído ali, e dele restam apenas pedaços. Mas dada a violência do mar naquela ponta, ele oferece um espetáculo de ondas que vale pelo menos 5 minutos de contemplação.
Dentro do El Morro, diversos pontos com canhões, fossos e torres, muitas torres. Aliás, por toda a muralha e fortes, o símbolo número 1 de Porto Rico são estas torres de observação facílimas de ver em todo o sítio histórico.
Mas o que mais me chamou a atenção foi algo importante para a sobrevivência: o sistema intricado de coleta de água da chuva, que envolvia canaletas no chão em todos os pontos expostos da fortificação com escoamento para um sistema de tubulação, poços e cisternas. Com isso, o aproveitamento da água da chuva era enorme, e garantia o recurso por mais tempo ainda. Muito bacana.
Saindo do El Morro, e andando perto da muralha que dá pro mar, vemos o impactante domo do cemitério de Maria Magdalena de Pazzis. A caminhada de El Morro até o Castillo San Cristóbal, fortificação mais próxima e mais ao leste, é de cerca de meia hora, passando por casinhas coloridas, mais torres históricas, e respirando a brisa do mar. Dá pra ir de trolley, mas preferi ir à pé.
Castillo San Cristóbal também é enorme, com o mesmo sistema de coletas de água e uma área aberta à visitação dos porões, onde os prisioneiros e piratas eram encarcerados e muito provavelmente torturados.
No telhado da fortificação, uma coleção de balas de canhão ainda está à mostra.
Durante a Segunda Guerra Mundial, um posto de observação militar americano foi construído em San Cristóbal. Ele destoa um pouco da arquitetura geral do forte. Mas, como também é antigo, deixa um gostinho de que a história é feita continuamente todos os dias no ar. Deste posto, uma visão de 180 graus do horizonte azul. Sensacional.
La Fortaleza, a outra grande fortificação do passeio, é hoje o Palácio do Governo de Porto Rico. Não estava aberta à visitação no dia em que fui, mas passei em frente. Mesmo vendo-a de longe, não dá pra não se admirar com a imponência do prédio. Na parte sul da muralha, perto de La Fortaleza, fica o Paseo del Morro, caminhada que chega até o Portal de San Juan. Este portal era antigamente o acesso oficial ao centro da cidade.
Aos domingos, do Porto de San Juan saem caravelas, como as de Cristóvão Colombo, que vão até a boca da baía. A iniciativa é uma curiosidade deliciosa, porque sedimentam o passado vivido na cabeça dos que passam por ali. Quando elas surgem no horizonte, com todas aquelas muralhas e fortes no fundo, voltamos um pouco aos livros de história e sentimos um pouco do que aquela cidade, tão forte e tão cobiçada, viveu por muitos séculos. Tal sentimento é a razão pela qual San Juan se tornou para mim uma cidade tão adorável e inesquecível. Uma fortaleza de aprendizados e memórias marcantes que merecem ser compartilhadas por todos.
Tudo de bom sempre.
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Adorei!
Valeu, Luluzita! :)
Aham!.. Lucia, você se esquece que o Rio de Janeiro - durante muito tempo - também foi dentro da Fortaleza do Morro Cara de Cão, na Urca. E depois o "centro" da vila se mudou para o (hoje desaparecido) Morro do Castelo (adivinha por que?..)
Pena que o Marco de Fundação da cidade hoje continue encravado em uma área militar (onde o turismo é permitido, mas não é encorajado) e o Morro do Castelo tenha sido arrasado para fazer o que, hoje, é o Centro da Cidade e a Avenida Beira Mar (já não beira mais... também fizeram a derrubada do Morro de São Bento e plantaram o Aterro do Flamengo...)
Do verdadeiro marco inicial do Rio de Janeiro - a Ilha de Villegaignon (não esqueçamos que os franceses chegaram primeiro) - só resta o nome... A velha fortaleza foi engolida pela Escola Naval.
Que bom que em San Juan ainda guarda seus "recuerdos". Eu sugiro que você aproveite a primeira oportunidade que tiver para visitar Antigua Guatemala
Nossa, João, seu comentário me deu nostalgia - e um pouco de tristeza. Não pelas suas palavras, como sempre excepcionais e na mosca, mas porque fiquei imaginando o Rio de Janeiro como cidade "murada", dentro da fortaleza tb... e se isso tudo estivesse preservado, o quão bacana seria! O Morro do Castelo, todo o entorno da Urca... já pensou? Fiquei com um aperto no coração pra ser sincera, pq acho que esse pedaço arqueológico seria precioso... e muito bonito.
Enfim, anotei aqui: "Antigua Guatemala". Quem sabe um dia...? :)
Bjs!
Acabei de voltar de lá do San Juan Viejo Lucia - realmente muito bacanas os fortes e o centro antigo! Um detalhe legal: além de ser uma caminhada bacana entre os fortes como você disse, todo o centro de San Juan Viejo é muito bem conservado e bonito, com bons restaurantes e lojinhas pra quem curte. Mesmo com os morros, é muito fácil de andar - fizemos todo o percurso com o carrinho para levar nossa filha e foi tudo super fácil (ela anda bem com seus quase 4 anos, mas é torrada na preguiça e daí levamos o carrinho pra não ter que arrastar ela no colo quando fica arreada...). Amanhã devemos encarar alguma praia pro lado de Fajardo, onde espero encontrar um bom snorkel pra mim e boa praia pras meninas. Até +
Oi Daniel! Estou preparando um post só sobre o Viejo San Juan, pq realmente é uma jóia, uma delícia de andar. Que legal que vc está curtindo tb, os restaurantes são ótimos, né? E bom snorkel pra vcs todos em Fajardo! :)
Bjs!
Oi Lucia. Parabéns pela matéria. Captou muito bem a atmosfera das fortalezas de S. Juan. Eu estive em PR no meio do ano e gostei muito do lugar. O destaque é realmente o centro histórico. A única decepção foi com o mar local. Fiz uns mergulhos apnéia nas redondezas de Fajardo e na Ilha Vieques. Achei pobre a diversidade marinha nesses locais.
Mauro
Oi Mauro, eu escrevi um post antes sobre o mergulho em Fajardo:
https://luciamalla.com/blog/2013/01/sexta-sub-mergulho-em-fajardo-porto-rico.html
Pra ser sincera, eu até me surpreendi com este mergulho, pq esperava coisa muito pior, dadas as condições tristes que os corais por todo o Caribe se encontram. A biodiversidade nunca dá pra comparar com o Pacífico, mas pelo menos quando fui deu pra ver algumas coisas... Acho que não me decepcionei tanto pq já fui com a expectativa beeeem baixa.
Mas San Juan é uma fofura, não? :)