Nos vôos entre Honolulu e Washington DC que fiz semana passada (mais de 10h dentro de um avião, entenda-se), aproveitei para ler um livro que estava há tempos na minha lista. Foi o “The Imortal Life of Henrietta Lacks”, de Rebecca Skloot. (Em português, “A vida imortal de Henrietta Lacks”, lançado pela Companhia das Letras). O livro é simplesmente maravilhoso.
Conta a história de vida e morte – e da consequente imortalidade – de Henrietta Lacks. Lacks era uma negra pobre americana de pouco mais de 30 anos. Na década de 50, foi entretanto diagnosticada no renomado hospital Johns Hopkins com um câncer cervical super-agressivo e raro. Poucos meses após o diagnóstico médico, Henrietta estava morta.
O livro começa daí, de seu diagnóstico e morte, mostrando um pouco de sua vida nas plantações de tabaco da Virgínia. Conforme rezava a cartilha, a vida das dicotomias raciais da sociedade da época. Por exemplo, o hospital tinha uma ala separada para atender os “de cor”. Além da alegria de viver que Henrietta tinha, mesmo sofrendo tanto com uma filha esquizofrênica, o que à época era uma doença cheia de estigmas sociais para brancos, imagine para negros. Mesmo com um marido machista e um trabalho cruel e pesado. Apesar de tudo, pelos relatos da família, Henrietta nunca deixava de sorrir – e de pintar suas unhas de vermelho.
Mas é a partir de sua morte que deriva o cerne do livro. Ou melhor, a partir de seu câncer. Sem Henrietta saber, um médico retirou células de seu câncer durante um exame pela qual ela passou. Estas células foram então levadas a um pesquisador, George Gey, que pesquisava cultura de tecidos. Ao colocar as células coletadas da cérvix de Henrietta nas condições que seu laboratório usava para cultivo, as mesmas duplicaram em 24h. E nunca mais pararam de duplicar. George Gey havia conseguido a primeira linhagem celular humana imortal da história.
Para a ciência, este foi um feito extremamente marcante. Gey deu o nome de HeLa a esta linhagem derivada das células de Henrietta Lacks. E distribuiu gratuitamente frascos de cultura para seus colegas. Pelas características inerentes a estas células (fácil cultivo, rápida duplicação, resistência), logo praticamente todos os labs de pesquisa tinham amostras de HeLa em seu inventário. Uma situação, aliás, que persiste até hoje.
Foi nas células HeLa que foram testadas inúmeras drogas de câncer, AIDS, vacinas para pólio e pesquisas de diversas outras doenças, estudos estes que geraram tratamentos que hoje salvam vidas. Foi nas células HeLa também que foram desvendados mecanismos biológicos cruciais, como o envolvimento da telomerase no desenvolvimento do câncer e a maneira como ocorre a inserção do vírus HPV no DNA do indivíduo. As células HeLa foram levadas ao espaço. Além disso, se seu peso total fosse hoje somado, pesariam muitas milhares de vezes o tamanho que Henrietta Lacks tinha em vida.
É simplório dizer que as células HeLa foram simplesmente células cancerosas. Porque elas foram na verdade uma das maiores ferramentas científicas que apareceram no século XX. Porque elas permitiram uma revolução na ciência que levou a inúmeras benesses. E geraram muitas tecnologias que foram subsequentemente patenteadas. Ou seja, colateralmente também geraram muitos milhões de dólares de lucro para algumas pessoas, o que provavelmente mudou a economia de suas vidas. Mas… E Henrietta Lacks?
A começar pela falta de consentimento dado por ela em vida (o que esbarra com uma série de preconceitos da época). Passando então pela total falta de conhecimento da família por 20 anos de que as células de sua querida mãe/esposa/avó estavam vivas (e bem vivas!) em diversos laboratórios de biomedicina do planeta. Isto ocorria enquanto a família continuava pobre (nunca receberam um centavo sequer pelo uso das células de Henrietta), sem nem poder pagar um plano de saúde (!). Coroando a afronta com o fato de que ninguém, até recentemente, ao menos dava crédito à Henrietta por sua “doação involuntária” [ironia] à ciência. Criou-se aliás uma história de que seria Helen Lane ou Larson o nome da paciente que originara HeLa, e que esta seria talvez uma estudante do próprio Gey.
Em suma, a parte humana do desenvolvimento das células de HeLa mostra um lado da ciência pouco nobre, com toques de preconceito racial, desrespeito e desvalorização humana.
Claro, há de se relevar o pensamento da época. Afinal, na década de 50 muita coisa era diferente. Mas há um respeito mínimo, que em diversos níveis foi violado na história de Henrietta Lacks. Há uma pessoa por trás daquelas células, pelamordePasteur! Ao escrever este livro brilhante e finalmente contar a real história de Henrietta, Rebecca Skloot faz uma justiça histórica com Henrietta e sua família. Além de por lenha na fogueira das discussões éticas científicas. Com isso, nos brinda com uma narração das mais emocionantes e humanas da história da ciência.
Um livro imperdível para todos, não só cientistas.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Bacana Lucia! Esse livro foi escolhido pelos editores da Amazon como um dos melhores livros de 2010. Eu dei de presente de Natal pro meu cunhado, que e professor de Biologia, e ele amou. Eu sabia sobre o que era a historia e ja estava querendo ler tambem, agora fiquei com mais vontade ainda :-)
Luciana, esse livro é lindo, leia mesmo. Vale muito a pena. O tratamento da história é de uma humanidade incrível.
Karl, obrigada pelas palavras, meu caro. O livro conta detalhes interessantíssimos sobre estas células e também um pouco do dia-a-dia médico de algumas décadas atrás nos EUA. Acho q vc ia adorar ler. Recomendo fortemente. :)
Sensacional post, Lu. Muito bom. Eu não sabia da origem dessas células. Completo. Obrigado.