Pohnpei, na Micronésia, é uma ilha muito montanhosa. Muitas destas montanhas, aliás, chegam quase até o mar em alturas inacreditáveis. De todas, a mais famosa e cartão postal do país é o Sokehs Rock. Uma espécie de Corcovado de Kolonia, capital de Pohnpei. Afinal, o Sokehs está sempre imponente e enigmático à beira-mar.
Se lembrarmos que é em Pohnpei que fica o Nan Madol, sítio arqueológico dos mais misteriosos do planeta, logo descobrimos que a história no Sokehs é muito mais simples de ser desvendada e entendida, felizmente. Havia uma tribo chamada Sokehs que vivia na região em frente ao Palikir. Após uma rebelião contra os coloniadores alemães, os Sokehs foram rendidos pelos alemães em 1910, e muitos fugiram para ilhas vizinhas.
Entretanto, logo no início de 1a Guerra Mundial, os japoneses tomaram o controle de todas as ilhas alemãs no Pacífico, incluindo Pohnpei na Micronésia. Aos poucos foram então trazendo de volta o povo Sokehs, principalmente os chefes de tribo, com interesses políticos múltiplos em manterem os Sokehs como aliados do “império japonês”.
Durante a 2a Guerra Mundial, Pohnpei foi bombardeada pelos navios americanos e por um ataque aéreo, numa tentativa de conter a expansão japonesa pelo Pacífico. (E óbvio que ninguém pensou naquele momento nos danos à população nativa da ilha, como quase sempre é o caso durante um estado de guerra.) Para se salvaguardarem do bombardeio, os japoneses utilizaram a montanha Sokehs como ponto estratégico de artilharia de contra-ataque aos americanos. E são esses resquícios de bunkers e munição japonesa que ainda vemos hoje, quando caminhamos pelo Sokehs.
Hoje, a trilha do Sokehs é predominantemente verde, com árvores e uma estrada de terra íngreme. Há placas em Kolonia a partir do Municipal Office mostrando a direção da trilha do Sokehs – só que em determinado momento, você começa a achar que está perdido dentro de um bairro, e a estrada termina exatamente assim, numas casas, e aí você estaciona quando percebe que não consegue mais dirigir e começa a subir a pé. É praticamente você (e seu veículo…) quem decide onde a caminhada começa – imagino que deva haver uns loucos mais empolgados que sobem tudo de carro. A estrada é precária em certos trechos. Muita gente vai desde a cidade a pé, mas nós tínhamos pouco tempo, então fomos de carro até onde dava. A subida é tranquila, mas íngreme. Portanto, água é fundamental.
Quanto mais você sobe, mais a vista fica maravilhosa, com o oceano Pacífico e a barreira de corais ao fundo. Lá em cima, não há sinalização do que é o quê. Nós estávamos com nosso amigo que mora em Pohnpei, que nos serviu de guia improvisado para indicar as relíquias japonesas que ali enferrujam e apodrecem desde a década de 40. Se ele não estivesse conosco, provavelmente não veríamos algumas delas, escondidas que estão no matagal que cresceu ao redor.
Nós decidimos fazer a trilha meio que de sopetão, no meio de uma tarde após um mergulho super-light no quintal da casa onde nos hospedamos. Em menos de 3 horas, dá pra subir e descer, sem pressa. Normalmente chove MUITO em Pohnpei, praticamente todo dia, mas daquelas chuvas passageiras que são seguidas por um sol lindo. Para nosso azar, a chuva-do-dia nos pegou bem no meio da subida da trilha, e ficamos enxarcados – o que com o calor típico da ilha não é um problema. Problema maior, entretanto, foi que a vista lá de cima, supostamente espetacular, se acinzentou por conta da chuva, tirando um pouco do charme que o azul sempre traz para as fotos.
Mesmo assim, ainda pudemos aproveitar um pôr-do-sol interessante, sentados na plataforma de cimento construída para a torre de celular e TV , que fica ali no topo do Sokehs. Pude imaginar a angústia dos japoneses ao ver os navios inimigos chegando lá de cima.
Confesso que minha maior angústia hoje são com esses navios pesqueiros industriais taiuaneses, chineses e japoneses estacionados na laguna de Pohnpei (e em outras ilhas da Micronésia…). Estão fazendo a limpa nos cardumes de atuns – e sabe-se lá quantos tubarões… Tudo com o aval “econômico” dos pohnpeianos…
Deixei-me então abraçar por breves minutos pela continuidade do mar-céu a perder de vista, imagem rara que só o isolamento e a falta de poluição atmosférica no Pacífico permitem. Em tons de cinza, mas não menos interessante. E comprovei molhada da chuva que o Sokehs é (mais) um monumento natural micronésio de dupla viagem: na história e na paisagem inesquecível. Ficou pra próxima visita à Micronésia, entretanto, viajar pela paisagem em sua cor natural impactante, o azul-lindo.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
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Que trilha interessante!! Combinar história e natureza é o máximo. Adorei o relato :))
Grande Jodrian! Uma honra sua presença por essas bandas mallas, dada a sua qualidade de trilheiro - e de blogueiro. O Sokehs, se não fosse tão fora de mão pra chegar até ele, com certeza constaria nas melhores listas de escalada...
Obrigado!! Pois é..Ontem mesmo eu estava comentando com o Pedro Serra (BlogSem Destino) e com o Átila Ximenes (VouContigo) que nossa posição geográfica traz um desafio adicional para chegar nestas maravilhas. Mas, talvez seja mais um atrativo para visitá-las. Algo como um "descobrimento".
Grande Abraço tricolor. :))
Oi, Lu :) Tudo bem?
Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com
Beijos,
Natalie - Boia Paulista
Jodrian, é um desafio mesmo. Até mesmo para chegar no corredor Nepal-Paquistão dos Himalaias, é uma confusão saindo do Brasil. Mas realmente, talvez a jornada seja a viagem... esta é a melhor maneira de encarar o trajeto mesmo... ;)
Oi Natalie! Sempre uma honra sua presença por estas pairagens! Obrigada pela escolha! :)
Beijos!
Lindo demais!!!!!!
:)