Pohnpei, na Micronésia, é uma ilha muito montanhosa. Muitas destas montanhas, aliás, chegam quase até o mar em alturas inacreditáveis. De todas, a mais famosa e cartão postal do país é o Sokehs Rock. Uma espécie de Corcovado de Kolonia, capital de Pohnpei. Afinal, o Sokehs está sempre imponente e enigmático à beira-mar.

O paredão do Sokehs Rock, visto do município de U.

Por que Sokehs?

Se lembrarmos que é em Pohnpei que fica o Nan Madol, sítio arqueológico dos mais misteriosos do planeta, logo descobrimos que a história no Sokehs é muito mais simples de ser desvendada e entendida, felizmente. Havia uma tribo chamada Sokehs que vivia na região em frente ao Palikir. Após uma rebelião contra os coloniadores alemães, os Sokehs foram rendidos pelos alemães em 1910, e muitos fugiram para ilhas vizinhas.

Entretanto, logo no início de 1a Guerra Mundial, os japoneses tomaram o controle de todas as ilhas alemãs no Pacífico, incluindo Pohnpei na Micronésia. Aos poucos foram então trazendo de volta o povo Sokehs, principalmente os chefes de tribo, com interesses políticos múltiplos em manterem os Sokehs como aliados do “império japonês”.

Vista da parte de trás do paredão principal do Sokehs, com o mar e a barreira de corais ao fundo.

Durante a 2a Guerra Mundial, Pohnpei foi bombardeada pelos navios americanos e por um ataque aéreo, numa tentativa de conter a expansão japonesa pelo Pacífico. (E óbvio que ninguém pensou naquele momento nos danos à população nativa da ilha, como quase sempre é o caso durante um estado de guerra.) Para se salvaguardarem do bombardeio, os japoneses utilizaram a montanha Sokehs como ponto estratégico de artilharia de contra-ataque aos americanos. E são esses resquícios de bunkers e munição japonesa que ainda vemos hoje, quando caminhamos pelo Sokehs.




Trilha até o cume do Sokehs Rock

Aeroporto Internacional de Pohnpei visto do Sokehs. A pista estava em expansão quando lá estivemos em 2011. Provavelmente agora já deva estar um pouco maior.

Hoje, a trilha do Sokehs é predominantemente verde, com árvores e uma estrada de terra íngreme. Há placas em Kolonia a partir do Municipal Office mostrando a direção da trilha do Sokehs – só que em determinado momento, você começa a achar que está perdido dentro de um bairro, e a estrada termina exatamente assim, numas casas, e aí você estaciona quando percebe que não consegue mais dirigir e começa a subir a pé. É praticamente você (e seu veículo…) quem decide onde a caminhada começa – imagino que deva haver uns loucos mais empolgados que sobem tudo de carro. A estrada é precária em certos trechos. Muita gente vai desde a cidade a pé, mas nós tínhamos pouco tempo, então fomos de carro até onde dava. A subida é tranquila, mas íngreme. Portanto, água é fundamental.

Baía de Kolonia vista da trilha pro Sokehs.

Quanto mais você sobe, mais a vista fica maravilhosa, com o oceano Pacífico e a barreira de corais ao fundo. Lá em cima, não há sinalização do que é o quê. Nós estávamos com nosso amigo que mora em Pohnpei, que nos serviu de guia improvisado para indicar as relíquias japonesas que ali enferrujam e apodrecem desde a década de 40. Se ele não estivesse conosco, provavelmente não veríamos algumas delas, escondidas que estão no matagal que cresceu ao redor.

Uma das relíquias de artilharia enferrujadas japonesas, escondidas no mato que cresce no cume do Sokehs.

Como é fazer a trilha do Sokehs

Nós decidimos fazer a trilha meio que de sopetão, no meio de uma tarde após um mergulho super-light no quintal da casa onde nos hospedamos. Em menos de 3 horas, dá pra subir e descer, sem pressa. Normalmente chove MUITO em Pohnpei, praticamente todo dia, mas daquelas chuvas passageiras que são seguidas por um sol lindo. Para nosso azar, a chuva-do-dia nos pegou bem no meio da subida da trilha, e ficamos enxarcados – o que com o calor típico da ilha não é um problema. Problema maior, entretanto, foi que a vista lá de cima, supostamente espetacular, se acinzentou por conta da chuva, tirando um pouco do charme que o azul sempre traz para as fotos.

Vista do Dawahk Pass do cume do Sokehs.

Mesmo assim, ainda pudemos aproveitar um pôr-do-sol interessante, sentados na plataforma de cimento construída para a torre de celular e TV , que fica ali no topo do Sokehs. Pude imaginar a angústia dos japoneses ao ver os navios inimigos chegando lá de cima.

Parênteses

Confesso que minha maior angústia hoje são com esses navios pesqueiros industriais taiuaneses, chineses e japoneses estacionados na laguna de Pohnpei (e em outras ilhas da Micronésia…). Estão fazendo a limpa nos cardumes de atuns – e sabe-se lá quantos tubarões… Tudo com o aval “econômico” dos pohnpeianos…

Deixei-me então abraçar por breves minutos pela continuidade do mar-céu a perder de vista, imagem rara que só o isolamento e a falta de poluição atmosférica no Pacífico permitem. Em tons de cinza, mas não menos interessante. E comprovei molhada da chuva que o Sokehs é (mais) um monumento natural micronésio de dupla viagem: na história e na paisagem inesquecível. Ficou pra próxima visita à Micronésia, entretanto, viajar pela paisagem em sua cor natural impactante, o azul-lindo.

Tudo de bom sempre.

O cartão postal Sokehs visto da capital Kolonia.

Para viajar mais pelo Sokehs Rock

  • Por ser um paredão rochoso basáltico praticamente vertical, o Sokehs é, obviamente, um ótimo ponto de escalada em rocha, pouco explorado no Pacífico.
Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Grande Jodrian! Uma honra sua presença por essas bandas mallas, dada a sua qualidade de trilheiro - e de blogueiro. O Sokehs, se não fosse tão fora de mão pra chegar até ele, com certeza constaria nas melhores listas de escalada...

  • Obrigado!! Pois é..Ontem mesmo eu estava comentando com o Pedro Serra (BlogSem Destino) e com o Átila Ximenes (VouContigo) que nossa posição geográfica traz um desafio adicional para chegar nestas maravilhas. Mas, talvez seja mais um atrativo para visitá-las. Algo como um "descobrimento".
    Grande Abraço tricolor. :))

  • Jodrian, é um desafio mesmo. Até mesmo para chegar no corredor Nepal-Paquistão dos Himalaias, é uma confusão saindo do Brasil. Mas realmente, talvez a jornada seja a viagem... esta é a melhor maneira de encarar o trajeto mesmo... ;)
    Oi Natalie! Sempre uma honra sua presença por estas pairagens! Obrigada pela escolha! :)
    Beijos!

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Publicado por
Lucia Malla

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