O que faz uma comida ser mais saborosa? A esta pergunta aparentemente simples se dedica o livro “Gastrophysics – The New Science of Eating” de Charles Spence. Só que, muito além das diferenças de tempero que imediatamente nos vêm à cabeça, Spence foca na ciência da gastrofísica, que estuda o sabor além da comida. E além das diferenças genéticas individuais (coentro: ame-o ou deixe-o!) ou de microbioma de cada um. Mais especificamente, a gastrofísica foca no processamento do sabor em nosso sistema sensorial e no cérebro, e o que influencia esta sensação.
O livro é uma delícia [pun intended]. O autor começa separando a gastrofísica da culinária molecular. Enquanto a culinária molecular se centraliza em entender o alimento, modificá-lo em sua química elementar para melhorar/enriquecer seu sabor, a gastrofísica se centraliza em nossas reações ao alimento. É comum durante o livro Spence comentar sobre experimentos em que oferece a mesma comida a grupos diferentes ou em ambientes diferentes, e receber avaliações desta comida completamente díspares. O ponto que ele martela é que nossa sensação de sabor é extremamente influenciada pelo contexto da comida apreciada, isto é, o ambiente, o momento, as memórias etc. Enfim, tudo que é externo ao alimento em si.
Embora não com o nome gastrofísica, o conceito de “sabor além da comida” foi iniciado no século passado pelos Futuristas italianos – o artista Marinetti é o melhor exemplo. Ainda na década de 30, eles realizavam jantares-instalações, em que a comida era uma manifestação artística. O autor comenta que, infelizmente, eles não sabiam cozinhar direito, e portanto a experiência ficava mais pro lado artístico mesmo. Mas os fundamentos para se preocupar com tudo ao redor que nos influencia na hora da refeição, estavam lá. E o Futurismo foi, sem dúvida, a vanguarda desta culinária moderna (molecular, inclusive) que hoje se espalhou pelo mundo.
Para cada sentido – tato, olfato, paladar, audição e visão – há um capítulo do livro dedicado a comentar as últimas pesquisas gastrofísicas na área. Que basicamente indicam, através de experimentação científica, que a nossa avaliação do que é uma comida saborosa é extremamente influenciada por elementos destes mesmos sentidos externos à comida em si. Por exemplo, você beberia um vinho azul? Ou comeria uma carne verde? E quem nunca detestou a comida de um restaurante em que a música era super-alta? Ou amou aquela sobremesa quando viu como o chef a apresentou?
Meu exemplo mais memorável é o da foto abaixo, um tiramisú servido como se fosse um vaso de flores, no restaurante Made In Italy, em Labuan Bajo, Indonésia. A-m-e-i aquela apresentação. Pra mim, foi o melhor tiramisú da minha vida! Mas confesso que a minha avaliação do seu gosto pode estar comprometida pela arte do prato… A visão falou mais alto e totalmente influenciou meu paladar.
É o nosso cérebro nos “enganando”. Porque são nestes “truques” da circuitaria cerebral que residem, de verdade, nossa avaliação de uma comida saborosa.
Claro, este conhecimento vem sendo utilizado a todo vapor nos restaurantes mais requintados já há algum tempo. Entretanto, são os exemplos mais mundanos, em que o autor comenta sobre o uso da gastrofísica na indústria alimentícia ou em questões de saúde, que tornaram o livro mais interessante pra mim.
Não sabia, por exemplo, que já existem talheres especiais que diminuem/evitam o tremor para auxiliar na alimentação de pacientes com Parkinson. Ou sprays com aromas especiais que você libera na casa no horário das refeições para ajudar pessoas com princípio de Alzheimer a lembrarem de se alimentar. Ambos desenvolvidos com a ajuda de gastrofísicos.
“Gastrophysics“, entretanto, não para por aí. O livro comenta também o contexto social da alimentação, as memórias afetivas que criamos com a comida, que terminam sendo o principal influenciador da nossa análise de uma comida saborosa, muito mais que o gosto do alimento em si. O jantar com a pessoa amada, o almoço de domingo com o prato feito especial pela sua tia querida… E nem vamos mencionar por que o melhor cuscuz do mundo é o da minha mãe, né? 😀
Tente lembrar, entretanto, a melhor comida que já experimentou – e retirar dela o contexto social ou afetivo. Não sei vocês, mas levei um tempo para achar uma comida deliciosa que não estivesse ligada a um sentimento maior. A comida pela comida em si. É difícil, e portanto, a comida mais saborosa é, no final, aquela que nos marca emotivamente. A gastrofísica tenta ajudar a compreender de maneira científica a influência destes estímulos.
Mas é quando o autor começa a “viajar” que achei que o livro fica mais interessante. Em primeiro lugar, ele analisa a famigerada comida de avião. Por que ela quase sempre é considerada ruim? Um dos motivos para essa avaliação baixa seria causada pelo próprio ambiente do vôo: som constante alto (80-85 decibéis!), baixíssima umidade, pouca pressão atmosférica (o que altera a sensibilidade das nossas papilas gustativas), e principalmente o contexto social – você está comendo com vários estranhos ao redor, sem nenhuma conexão emocional com você.
Em segundo lugar, o livro dedica especial atenção ao mundo digital. O #foodporn no instagram é um bom exemplo. Ao postar a foto da comida, você ajuda a consolidar a memória afetiva e social da refeição. Com isso, a probabilidade desta comida se tornar mais “saborosa”, por incrível que pareça, aumenta. Além disso, o fato de você poder voltar a esta memória quando quiser – basta abrir seu feed – amplifica ainda mais o “sabor” desta comida, pelo menos no seu cérebro.
Outra viagem digital tem mais um tom de desafio. Você comeria uma refeição feita por um robô? O autor argumenta que a automatização do ato de cozinhar pode até vir a acontecer num futuro próximo, mas nosso cérebro tenderá sempre a avaliar esta comida como “menos saborosa”. Isto simplesmente porque tiramos o caráter “falível”, inerente ao ser humano, do ato de cozinhar. De acordo com Spence, o potencial de errar tem um valor inestimável de aproximação do chef com o cliente.
No geral, o livro é muito interessante, cheio de belos insights que enriquecerão meu relacionamento com a comida. Mas ele também me deixou um pouco nostálgica. Porque o autor comenta profundamente sobre experiências gastronômicas incríveis em restaurantes de todos os estilos, desde os mais estrelados até os botecos mais deploráveis. E o aspecto comum é sempre o quão compartilhar momentos, principalmente refeições, com outras pessoas termina por enriquecer nosso paladar. Neste período de quarentena da pandemia, em que compartilhar uma refeição ao vivo e a cores com outras pessoas é mais difícil, o livro me deixou um pouco saudosa.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…