Comportamento

Gentileza gera gente ilesa

O botão de start desse post veio da Camila, que escreveu um post incrível sobre a falta de gentileza da zélite moderna, magnanimamente simbolizada por uma briga no elevador. O post mostra como o comportamento da gente é escancaradamente narciso, e comenta sobre essa necessidade cruel de sempre vencer o argumento. Afinal, somos os “vencedores” da sociedade, não? (Leiam, leiam, leiam.)

Pois bem, eu ia deixar um comentário enorme no blog da Camila, contando um causo ocorrido na última quinta-feira à noite. Mas como ando numas de resgatar a conversa entre blogs, decidi rabiscar neste post – ficou maior do que eu imaginava. O causo tem a ver com a tal gentileza que anda escassa em diversas instâncias do mundo moderno, não só na elite.

Vamos ao causo

Estava na fila de Black Friday do WalMart. Veja bem, antes de você destilar seu preconceito julgar quem frequenta esse tipo de fila, lembre-se de que você não sabe a razão profunda pela qual as pessoas estão ali. Pode ser por consumismo desvairado (essa é a idéia mais espalhada por aí, que somos todos consumidores capitalistas selvagens – ênfase no selvagens nas reportagens e pensamentos sobre o Black Friday). Há muitas verdades nesses argumentos, e discussões saudáveis sobre consumismo exagerado são sempre bem-vindas, mas em certos momentos há também muita arrogância. Enfim, como tudo na vida, há diversos lados nessa moeda.

Mas pode ser também que você esteja na fila por curiosidade antropológica – imagino teses e mais teses sobre o tema. Ou pode ser para comprar um item caro, que propagandeado com 70% de desconto, tornou-o ao alcance do orçamento da pessoa na fila. Mais: pode ser que esse item agora no orçamento será um presente de Natal para uma pessoa mais-que-querida, que usará o presente para alavancar uma melhora significativa em sua qualidade e economia de vida, e portanto merecedora de tal sacrifício selvagem-consumista. Um altruísmo – às avessas, talvez. Enfim, hipóteses sempre temos em abundância no estoque e poderia desfilar aqui pelo menos mais uma meia dúzia.

Consumir acima de tudo

Mas eis que estava me direcionando pro fim da gigantesca fila, quando um sujeito de uns 20 anos passa em ritmo acelerado ao meu lado. Na minha frente, 2 moçoilas de também 20 e poucos. Todos na sana consumista, certo? Pois sem querer, o moço dá uma boa esbarrada em uma das moças. Até então não sabia, mas o moço estava indo de encontro a sua mãe, que se encontrava na frente da fila, exatamente em frente às moçoilas.

O que leva alguém a andar apressado ou não já é papo pra mais conversa, mas o fato é que a moça não gostou da pequena esbarrada do moço – e partiu para cima dele com abuso verbal, como as senhoras do elevador da Camila. Claro, a moça assumiu que o cara estava correndo pra furar a fila do Black Friday (oh, pecado mortal!), quando na realidade ele já estava tecnicamente na fila antes delas. A moça falou muitas ofensas, fez caras e bocas, aquela cara de elevada irritação e estava nitidamente a poucas sinapses da violência física. O moço a princípio tentou se explicar, dizendo que aquela, ali em frente às moças, era sua mãe – nessa hora a mãe se virou pra gente, e pude notar que ela nem precisava dizer que era mãe do menino: ele era a versão masculina dela – ah, as ironias da genética…

Ficou aquela atmosfera de embaraço, por parte do moço, e de irritação/falta de educação explodindo por parte das moças. Que continuaram fazendo caras e bocas e comentando entre elas sobre “a falta de educação das pessoas”.

Gentileza

Imagem daqui.

Mas aí veio o que achei mais interessante, como expectadora da cena. Aliás, a mesma posição da Camila no elevador. Depois de um silêncio de poucos segundos que pareciam uma eternidade, o moço se virou para as duas e pediu sinceras desculpas às duas, num tom super-ultra-gentil, dizendo que realmente não tinha intenção de machucá-las (não machucou, apenas deu uma encostada mais forte), e que ele estava arrependido de ter andado tão rápido. “I am really sorry, it was not my intention” foi o que ele disse. E o que as meninas fizeram depois desse “desmonte” do argumento (e possivelmente da possibilidade de briga real) delas?

Deram um sorriso amarelo, “aceitaram” as desculpas do moço na frente dele. E assim que o moço se virou pra mãe, as duas continuaram fazendo caras e bocas, olhares de reclamação que gritavam “o cara é um jerk completo” – como se ele não tivesse se desculpado com elas nem se arrependido de sua pressa. Ou seja, não aceitaram de coração as desculpas dele. Foi tão clara a atitude de desdém pelo cara que até eu, desligada-mor do planeta, percebi que elas não estavam sendo sinceras.

Eu sei, muitos dirão que o cara estava errado a princípio, por ter esbarrado nelas. Mas numa fila apertada de Black Friday, isso é meio de se esperar, não? Fato é que fiquei estarrecida com a falta de habilidade  e gentileza das moças em aceitar o pedido de desculpas do moço. Elas continuaram ilesas às palavras delicadas do moço, e retribuíram a tentativa de gentileza dele (para amenizar uma situação que ele criara) com sarcasmo virulento, com uma clara falta de gentileza.

Sem gentileza

Assim como a Camila, às vezes eu me pego pensando em como e por quê estamos nos tornando tão endurecidos. E no quanto é mais importante para as pessoas vencer uma briga que realmente entender o outro e suas motivações, que levaram a tal briga. Não é o Black Friday e seu mote consumista ao quadrado que nos tornaram duros e loucos desvairados – é a falta de empatia, esse sentimento tão esquecido e abnegado da nossa sociedade. Empatia anda de braços dados com a gentileza, e nenhuma delas é matéria dos bancos de escola, muito menos parece ser tema-comum na mesa de jantar das pessoas. A Camila escreve da maneira mais perfeita essa relação nossa:

“Na minha classe, somos todos gente de bem unida contra os bandidos inimigos – nem tento disfarçar meu medo de ser assaltada de novo, do qual morro um pouquinho a cada dia -, até o exato instante em que o significante inimigo começa a se alastrar como uma gosma para pessoas como o imbecil que parou torto na vaga, o idiota que não desligou o celular no concerto, o filho da puta que furou a fila do mercado. Porque eu, quando faço todas essas coisas, nunca é por mal, mas apenas porque estava distraída. Já os outros, não: os outros comportam-se de forma incivilizada porque são intrinsicamente bárbaros.”

Fica a pergunta: até quando venceremos a todo e qualquer custo?

Tudo de reflexão sempre.

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

Disqus Comments Loading...

Ver Comentários

  • Lucia,

    Lendo o seu texto, me lembrei do "Pequeno tratado das Grandes Virtudes" do André Comte-Sponville quando ele fala sobre a polidez:

    " A polidez não é suficiente, e é impolido ser suficiente.

    A polidez não é uma virtude, mas uma qualidade, e uma qualidade apenas formal (...) Pode ser que tudo não seja mais que uso e respeito do uso - que tudo não seja mais que polidez. Não creio porém. O amor resiste, e a doçura, e a compaixão. A polidez não é tudo, é quase nada. mas o homem, também, é quase um animal."

    Bjs :-)

  • Tem um e.mail rodando na rede que chama à atenção para a diferença entre ser ou não um país do Primeiro Mundo. Nele o autor (anônimo) afirma que a diferença está na atitude das pessoas. É isso, o dinheiro compra muita coisa, mas não a atitude. Empatia, paz de espírito e respeito (por si e pelos outros) fariam milagres se fossem globalizados.

    :)

  • Infelizmente o acanalhamento da sociedade é um fenômeno global. Eu que sou do meio do século passado, fico abismado como até quem é de minha faixa etária, se comporta de maneira repulsiva.
    Eu teria trocentos "causos" para descrever, mas tudo se resume ao esquecimento da velha máxima: "trate os outros como gostaria que tratassem você". Pode ser que isso seja um indício de falta de amor-próprio: você se acha um lixo (por mais que tenha um exterior "produzido") e nem sequer espera ser bem tratado...
    Só que eu nem colocaria a questão em termos de "primeiro mundo" ou não. Para mim, isto está intimamente ligado com o nível cultural do indivíduo.

    • João, a maioria das pessoas esquece que ela é "o outro" de alguém, preocupadas que estão em centralizar no umbigo toda a vida delas. Esse endurecimento... dói. Pelo menos, eu fico triste que seja assim.
      (Quero acreditar que há muitos bons exemplos por aí. Tenho que acreditar nisso, senão... como faz?)

  • A-do-rei. Não gosto de generalizações, Lucia, mas noto que na elite brasileira a falta de educação é pior mesmo. Porque vem acompanhada de uma atitude egoísta e egocêntrica, do tipo "eu tenho dinheiro, estou pagando, posso tratar como quiser, posso exigir". Meu filho, quando tinha uns 5 anos de idade, veio da escola um dia e me disse: "mamãe, por que as crianças ricas são as mais chatas da classe?". Fiquei sem reação, juro. E falando em crianças, aí está um grande problema. Esta geração de crianças e adolescentes, criadas por estes pais egoístas, vai ser pior ainda. Filhos de pais que não respeitam regras de trânsito, que não querem ficar em filas, que não tratam bem as pessoas mais velhas, que são incapazes de dar um lugar para uma pessoa idosa, que são incapazes de ter paciência. Que querem e se acham no direito de ter mais privilégios porque têm mais dinheiro. Procuro, em casa, andar na contramão e passar para os filhos, num exercício diário, valores de humildade, de respeito, de paciência, de amor. Mas é difícil, viu?

  • Minha terapeuta tem uma frase que eu adoro: " vc quer ter razāo, ou vc quer ser feliz?" . Faz tempo que escolhi a sgunda opçāo, mas ainda tem muita gente que gasta energia em vāo. Triste isso.
    Excelente reflexāo. :D

  • Acho que esse tipo de intolerância esteja cada vez maior entre as pessoas. Brigas acontecem por nada, talvez devido a correria do dia a dia, as preocupações... não sei. Isso não deveria influenciar no que somos. Esse tipo de reação é construído durante toda a vida, formação de caráter. Pelas andanças por aí, por mais que seja generalizado dizer, a cultura do lugar influencia muito. É diferente a vida de um paulistano, da vida de uma pessoa que mora em Maceió por exemplo. Ou alguém que more no Havaí para alguém que cresceu em Nova York, Tibet e China, assim vai. Não que isso justifique, mas acredito que o ritmo da vida de onde se está, e sua cultura, tenha influência. Esse tipo de intolerância existe em todos os lugares, na família, no casamento, no trabalho. A compaixão e a gentileza nunca foram prioridades das pessoas desde séculos atrás. Hoje em dia, quem busca isso? São poucos, na correria, uma minoria priorizam em se dedicar a ser uma pessoa melhor. Olhando pra nós mesmos, normalmente estamos mais interessados em preencher o nosso tempo com atividades mais egoístas, que só dizem respeito a nossa satisfação, sem pensar em gentileza ou compaixão. Somos ensinados a sermos egoítas e intolerantes desde pequenos, e a cada dia que passa cada vez mais mimados.

    • Mimados mesmo, Fabyo. Que acham que tudo tem que ser feito do nosso jeito - e só do nosso jeito, sem latitude para mudar ou melhorar. Ou pra ajudar alguém, a empatizar com uma pessoa. Intolerância completa. Triste. :(

Compartilhar
Publicado por
Lucia Malla

Artigos Recentes

Maioridade: 18 Anos de Uma Malla pelo Mundo

Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.

4 anos ago

Viagem pela memória da escravidão

Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…

5 anos ago

Por que nós dormimos

Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…

6 anos ago

Sexta Sub: 16 anos de uma Malla pelo mundo

Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…

6 anos ago

O fim de tudo

O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…

6 anos ago

Darwin dormiu aqui

Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…

6 anos ago