A vitória-régia (Victoria amazonica), como devem saber, é a flor-símbolo da floresta Amazônica. A foto dessa flor de vitória-régia particularmente não é das mais bonitas. Mas representa bem a situação geral do que vem contecendo à Amazônia como um todo. Diversos pontinhos queimados, um viço que aos poucos se esvai. Mas que ainda insiste em ser belo até o último respiro.
Para o dia da Amazônia, esta flor de vitória-régia é a imagem perfeita para a reflexão.
A Amazônia não é a minha “praia”, no sentido literal e no sentido figurado. Dou meus pitacos aqui e acolá sobre os problemas da floresta, mas tenho plena consciência de que são isso aí apenas: pitacos. Há intenção sincera de compartilhar informações lidas, vistas e/ou ouvidas. Mas não há a menor possibilidade de solucionar os problemas da Amazônia assim.
Porque para enfrentar tais problemas, são necessários muito mais que pitacos: precisa de vontade política, incentivo à educação dos moradores da própria região, entendimento das complexidades da floresta (que são enormes). Viver o Amazonian Way of Life.
Exatamente por saber que as complexidades que o tema “Amazônia” traz à qualquer mesa de discussão (política, econômica, ambiental, social), às vezes me incomodo com alguns textos e spammails que circulam por aí. Vozes inflamadas, querendo cegamente salvar aquele pedaço de floresta, gritos vindos de pessoas que nunca viram sequer um pé de açaí, ou entraram na mata para entender sua giganteza. Soa extremamente utópico, e utopia não resolverá as questões pertinentes da Amazônia.
(Toda vez que leio textos assim, aliás, lembro de uma cena de , em que o personagem sabichão de Matt Damon é lindamente pelo personagem de Robin Williams.
“So if I asked you about art, you’d probably give me the skinny on every art book ever written. Michelangelo, you know a lot about him. Life’s work, political aspirations, him and the pope, sexual orientations, the whole works, right? But I’ll bet you can’t tell me what it smells like in the Sistine Chapel. You’ve never actually stood there and looked up at that beautiful ceiling; seen that.“
Por isso valorizo muito os discursos em primeira pessoa, feitos por quem está (ou esteve) lá, que felizmente os tempos de internet nos permitem acesso. Porque esses discursos são providos de mais realidade e menos utopia – mesmo que escritos na forma de posts lights num blog. São o retrato da vida cotidiana na maior floresta tropical do planeta.
Antes dos blogs, eu já ouvia discursos assim de pessoas próximas. Do Lucio e suas aventuras atrás de abelhas pelas florestas do Acre. Ou do Bião e seu amor pelos macacos, especialmente o uacari de Mamirauá. Também do Bill, um gringo que mora no Amazonas e faz mais pela Amazônia que qualquer outra pessoa que conheço. E o melhor de todos, da minha querida sogra, que se embrenhou incontáveis vezes descalça pela floresta à procura dos lagartos que estudava. Esses são relatos que mostram uma realidade mais pé-no-chão do que lemos em geral na mídia, bombardeada que está por delírios de “internacionalização” em entrelinhas pegajosas.
Eu também já estive na Amazônia.
Uma vez só, em Mairauá, uma reserva de desenvolvimento sustentável administrada em boa parte pelos ribeirinhos. Mas é exatamente por ter ido apenas uma vez que falar sobre a Amazônia me incomoda. Não me sinto confortável de maneira alguma para palpitar seriamente sobre o tema. O máximo que a gente faz é distribuir informações e fomentar discussões, tentar conscientizar pessoas que um problema grave de administração e ambiente existe por aquelas bandas, mas mais que isso realmente não dá. Porque em uma única ida, vi outras nuances que pouco conhecemos, diluídas que estão no discurso chavão de proteção a qualquer custo.
Numa das conversas que tive com a Alline lá em Mamirauá, ela me contou que na primeira oportunidade que surgiu, os ribeirinhos, com o lucro que ganharam na reserva, compraram uma TV de plasma para a comunidade deles. Afinal, tudo que eles queriam era “inclusão brasileira”: assistirem às mesmas novelas, ouvirem o Galvão Bueno narrar os jogos de 4a à noite, darem “boa noite” ao William Bonner todo dia. E inclusão social, se sentir brasileiro como a média, a TV de plasma, no barraco de palafita, psicologicamente trouxe.
As pessoas que estão na região Amazônica querem desenvolvimento – sustentável ou não. Porque desenvolvimento significa na cabeça deles (e da maior parte dos seres humanos do planeta…) melhoria de vida. E quem não quer melhorar, né?
Por isso que meu pitaco-mor (além de ficar distribuindo informações sobre o tema sempre que cabe) é a necessidade de se educar os moradores da região, principalmente aqueles que estão em contato direto com a floresta, para as complexidades do local em que estão. Tratá-los com dignidade e respeito, como cidadãos brasileiros que são e compartilhar a informação que pesquisadores, ambientalistas e afins geram na teoria. Afinal, são esses moradores locais que cuidarão na prática da Amazônia. Não os que a defendem fervorosamente do sudeste, que no máximo cuidam dela na teoria… Se os habitantes locais estiverem munidos de informação, leis contextualizadas (e não viajantes na maionese…) e recursos bem-administrados, o benefício que a utopia dos demais sonha pode ser alcançada. Podemos enfim salvar a floresta que nos é tão querida.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Oi, Lucia. Tens razão. O tema Amazônia é bastante complexo. Uma simples palavra, inbutida de tantos significados. Nos remete à preservação da natureza, animais, biodiversidade, desmatamento, biopirataria, diversidade...não é apenas uma folresta. A Amazônia representa vários povos, culturas e muita política. Abraços, Clarissa
Lucia, você tem razão, é difícil defender algo que não se conhece direito, muitas vezes o que é bom "para a humanidade" pode não ser o melhor para aquele que vive no lugar com seus problemas cotidianos. Mas pode-se pensar em soluções e idéias e propô-las, sugerir alternativas, certamente que é só um pitaco como você disse, mas se ele é lido por alguém que tem o poder de mudar alguma coisa, talvez adiante pelo menos um pouco. Interessante você ter falado sobre a rede de cidades pré-colombianas na região, o meu post de hoje é sobre isto.
Um beijo.
Fiquei muito feliz em ler seu post. Ontem a noite - enquanto montava meu post pra blogagem coletiva - eu quebrei a cabeça, me sentindo até meio culpada por ser bióloga e não poder falar com propriedade sobre o assunto. Você traduziu em palavras tudo isso!
Gosto muito da originalidade de seu blog, visito sempre!
Abraços!
Clarissa, há tantos aspectos atualmente que envolvem "Amazônia" q eu diria q o verde é apenas a "cola" que junta todos eles...
Maria Augusta, exatamente isso. Deve haver discussão, nem que seja apenas compartilhamento de informações aleatória. A gente levanta a bola do awareness, mas quem realmente faz pela a Amazônia não somos nós. Mas tbm acho q a gente (eu inclusa) precisa aprender a ouvir mais quem está lá, vivendo o dia-a-dia pelos lados da floresta.
E essa rede de cidades na antiga Amazônia... é pra dar nó na cabeça. Muito legal essa descoberta.
Tata, falar com propriedade sobre Amazônia é para poucos, muito poucos. Há muito ruído de fundo na maior parte do q a gente lê.
Beijos às 3.
Lucia,
ontem conversando com uma amiga, que faz vendas pela internet, falávamos dos preços cobrados pelo correio brasileiro – ela disse "é mais caro enviar uma mercadoria para Belém do Pará do que para o Canadá". Eu acrescento: como é possível que a região norte sinta-se brasileira de fato, sendo penalizada dessa forma?
abs
Pois é, Raquel. Esse é um outro problema da inclusão da região norte. Passagens para Manaus tbm, costumam ser mais caras q para alguns pontos dos EUA. Não deveria ser assim.
Beijos.
Lúcia,
Você citou a Alline e eu aumento a dose, citando uma frase lida no blog dela: "Amazônia nos olhos dos outros é refresco". Tenho profundo respeito por quem trabalha em áreas de conflito ecológico.
Também acho difícil escrever sobre algo que não se conhece e é por isso que uso formas metafóricas de escrever. Lendo uma reportagem sobre o turismo ecológico, publicada pelo jornal "Il Sole 24 Ore", que chamava a atenção para os problemas causados pelo turismo, confirmei a minha convicção de que jamais irei à Amazônia. Ela ficará melhor com a minha ausência.
Também não me sinto nem um pouco confortável para falar sobre a Amazônia, pois sendo jornalista, sempre parti do pressuposto que para falar bem de algo, eu devo primeiro conhecê-lo...então não falarei da floresta...mas se tem algo que conheço bem é teus escritos e as fotos do André...sempre bons..ambos. Outra coisa ótima (é até clichê dizer isso..rsrs)....a reportagem da National :D
Bjitos...bom domingo pra ti
Allan, o turismo causa problemas, mas tbm traz soluções, esperanças para os moradores principalmente. A verba do turismo (gringo, na maioria) é considerável, e ajuda muitas famílias. Eu não seria tão radical, mas há de se sustentabilizar ao máximo a atividade, sem dúvida.
Manu, conhecimento é o bem mais valioso q temos. Teórico ou prático. No caso da Amazônia, acho q agente valoriza demais a teoria e esquece da prática de quem está lá, no dia-a-dia.
Beijos aos 2.
Show de Cultura Brasileira. . .
Parabéns.