Há tempos venho matutando para tentar expressar num post minhas visões sobre a dualidade da indústria farmacêutica, uma das maiores e mais lucrativas do planeta. Dualidade esta que se resume no fato de que ela possui inúmeros defeitos dentro de nosso sistema econômico capitalista. Mas sem a indústria farmacêutica estaríamos definitivamente muito pior em questões de saúde. Por isso também uma certa relutância de minha parte em abranger o tópico. Afinal, o equilíbrio na análise é deveras complicado.
Mas acho desde sempre um tema necessário. Então decidi fazer esta mini-série de posts (2 apenas). Um explicando como a pesquisa de remédios funciona (e como a indústria se insere nela). E o segundo com minhas divagações/questões sobre os meandros do processo e os rumos éticos, econômicos etc. de tudo. Indústria farmacêutica, para fins dos posts, não serão as fábricas pequenas nem de fundo de quintal; são as chamadas big pharmas, que dominam o mercado dos remédios. Aguentem-me, pois: os posts serão longos.
Para começar, acho fundamental entender como funciona o processo de desenvolvimento de uma droga. De aspirina a quimioterápicos, todos passam por um processo relativamente similar. As diferenças são poucas, afinal. E quando diferenças existem, variam de acordo com o país, com a letalidade da doença pesquisada ou com o interesse para o público geral. Vale ressaltar que se a doença tiver um índice de morte elevado, todo o processo é agilizado para que novos tratamentos cheguem logo ao “mercado”. Porque o “mercado” é basicamente o grupo de indivíduos que está doente.
Quem regulamenta esse processo todo nos EUA é o Food and Drug Administration (FDA), um órgão federal. Como boa parte das farmacêuticas se concentram nos EUA, o mercado americano é mais “quente” para drogas. Portanto, o FDA tem uma reputação razoável. Suas decisões terminam funcionando como base para as avaliações de todos os órgãos regulatórios de saúde no mundo. Para fins de post e generalizações facilitatórias ao entendimento, me deterei às regras do FDA e levarei em consideração que o sistema de análise do FDA é “perfeito”. O que sabemos inegavelmente que não é.
A história em geral começa com um conhecimento “popular” – e aqui incluo desde tradição oral até o que já está no mercado e funcionando. Digamos por exemplo que um chá qualquer seja usado na China para tratar diabetes. O que as farmacêuticas fazem? Ao saberem de tal uso, instruem seus pesquisadores a investigar os componentes do tal chá, ver qual o composto ativo que efetivamente está exercendo influência sobre a glicose humana. O chá é praticamente “dissecado” nos laboratórios. Assim cada fração é testada em modelos in vitro (linhagens celulares) ou in vivo (animais, geralmente roedores).
Depois de testes realizados, descobrem que o responsável pela queda da glicose é o composto X. Inicia-se então o processo de síntese dele em laboratório (mais pesquisa envolvida aqui). Uma vez portanto que essa etapa se concretize, começam os estudos mais profundos e detalhados, chamados estudos pré-clínicos. Através da realização de experimentos mais complexos, que “mimetizam” o que acontece em humanos, os cientistas analisarão uma longa lista de parâmetros.
No exemplo acima, por exemplo, teriam que analisar como o composto é excretado, se é excretado, qual o tempo em que ele fica ativo no organismo, se interfere em alguma outra via metabólica importante, qual a dose mínima e máxima que pode ser usada sem causar danos ao organismo, por onde a droga é melhor assimilada (via oral? intravenosa? dérmica?), se gera efeitos colaterais e o quão estes efeitos são toleráveis, entre muitos outros.
Esta etapa é feita em animais de laboratório. Nenhuma droga vai pro mercado sem passar por isso. Salvo raríssimas exceções (como no caso de doenças que matam em 100% dos casos e de forma rápida), o FDA não aprova uma droga se não houve um estudo detalhado em pelo menos um modelo animal, sendo que 2 modelos animais é o mais recomendado (em geral um roedor e outro que pode ser porco, macaco ou coelho). Afinal, se a droga em questão mata os ratos em uma dose mínima, é óbvio que ela não pode ser testada em humanos. A etapa de testes em animais é uma questão de segurança para nós, basicamente.
Digamos que o composto anti-diabético X tenha, após os estudos pré-clínicos, se mostrado promissor em animais para diminuir a glicose do sangue. O responsável pela “idéia” neste momento inicia o processo de patente de seu composto. Aqui entram basicamente várias das disputas que vemos pelos tribunais entre farmacêuticas e pesquisadores. Parte-se então para os estudos clínicos. Chama-se clínico porque agora envolverá seres humanos, só por isso – e este “só” é irônico, porque ao ultrapassar a barreira de espécie, uma série de leis e regras éticas passam a ser necessárias para minimizar os danos à pessoa.
Na 1a fase, com grupos pequenos (em geral, voluntários saudáveis), testa-se a dose mínima e máxima. Além do ritmo de excreção (se é o mesmo que nos animais testados) e seus efeitos colaterais. Ou seja, basicamente, se tenta confirmar e/ou adequar o composto X ao organismo humano. Há casos de drogas que funcionam maravilhas em modelos animais e quando são levadas a humanos geram problemas sérios. É incomum, mas acontece.
Se o composto X teve uma boa performance nesse pequeno grupo de voluntários, passa-se então para a 2a fase de testes clínicos. Nesta fase, pessoas voluntárias em diferentes estágios da doença a ser combatida pela droga (no meu exemplo, a diabetes) passam a utilizar a droga na dose que a 1ª fase de testes indicou ser a mais segura. Esta fase em geral tem um maior número de pessoas envolvidas. Os resultados são comparados com o grupo “controle” (pessoas saudáveis que tomaram a droga na 1a fase) e agora o responsável pela pesquisa pode finalmente descobrir a eficácia do tratamento usando o composto X para a diabetes.
Caso os pacientes que se sujeitaram ao tratamento da 2a fase de testes clínicos tenham uma melhora significativa, o composto X pode passar então para a 3ª fase de testes clínicos.
Na 3ª fase, ocorre basicamente um aumento do número de pessoas. Pensando-se estatisticamente, saímos da análise amostral e (tentamos) ter uma visão mais populacional dos resultados. Porque quando você passa a analisar milhares de pessoas com a mesma patologia, em diferentes áreas geográficas, de diferentes backgrounds genéticos, a probabilidade de aflorar um problema que os testes mais controlados e reduzidos da 1ª e 2ª fase deixaram escapar é maior. É à caça desses “problemas” (efeitos colaterais, dificuldade de excreção, ineficácia, etc.), dessa variabilidade, que estão os pesquisadores na 3ª fase de testes clínicos.
Se depois de analisada na população geral, a droga se mostrou segura e eficaz, com efeitos colaterais moderados (e isso varia de caso para caso, principalmente de acordo com a letalidade da doença), o processo todo é compilado no FDA para a decisão final – já houve diversos relatórios em cada etapa, mas agora é a chamada “revisão final”. Se a droga for aprovada, o responsável pela idéia pode distribuí-la nas farmácias e hospitais do planeta. Caso haja dúvidas, o FDA fornece mais um tempo para que o problema seja resolvido, e se o responsável pela idéia não as respondê-las, o processo pode ser arquivado. (Há inúmeras instâncias para recorrer, mas a grosso modo é isso).
Esse caminho longo entre o chá na China e a prateleira da farmácia leva, em média, 8 anos e meio. E, uma vez concedida a patente (em geral, isto é feito ao fim dos testes pré-clínicos), a pessoa pode “explorá-la” no mercado pelas leis americanas, por 20 anos. Quando o tratamento se torna popular, como foi o caso do Viagra por exemplo, é certeza de lucros biliardários para a indústria. Ainda no caso do Viagra, a Pfizer agora se desespera porque a patente vai expirar em breve e seu pipeline de descobertas está “seco“, para usar o jargão da indústria. O que pode desestabilizar a empresa completamente, já que uma vez expirada, qualquer pessoa/empresa pode produzir e marketear a droga a seu belprazer.
E aí entra o componente mais complexo da equação toda: dinheiro. A pesquisa para o desenvolvimento de drogas é extremamente cara. Envolve profissionais especializados, laboratórios e hospitais capacitados, voluntários que por lei americana precisam ser pagos (e em tempos de crise, tem sido uma forma de muitos levarem o pão para casa), processos e relatórios para o FDA, além de um monte de outros detalhes. Pior: é muito arriscada. A probabilidade de que um composto “promissor” falhe em uma das etapas é grande. Por conta de interações com outras substâncias e células do organismo, principalmente. Qualquer entidade que se mete a pesquisar e desenvolver drogas sabe disso.
Idealmente, o governo acamparia todo o processo para si, arcando com as despesas integrais, em nome da saúde pública. Já o faz em boa parte do processo, aliás. Através da própria existência e manutenção do FDA, além de verbas para financiamento de pesquisas em universidades e institutos públicos, investimento em hospitais, etc. Mas não é suficiente. E se o governo fosse 100% responsável pela execução e regulamentação de todas as etapas do processo de todas as drogas do mercado, facilmente iria à falência. Ou então outras áreas importantes da estrutura social, como educação, segurança pública, etc ficariam seriamente comprometidas. (Ou seríamos super-taxados para pagar o processo, o que geraria mais mal-estar econômico e social ainda). Daí entram as farmacêuticas.
A elas, é concedido o direito de exploração comercial de uma droga bem-sucedida. Este “direito” é parte de uma “retribuição” por terem investido tempo e dinheiro na pesquisa (e resolução) de um problema de saúde pública. Funciona como um acordo entre governo/sociedade e a indústria farmacêutica. Para que a indústria se sinta sempre incentivada a buscar novos tratamentos, há a estipulação de um prazo de validade para a exploração comercial da droga.
Num mundo ideal cor-de-rosa, o sistema acima funcionaria perfeitamente. No post de amanhã, vou tentar divagar porque estamos muito longe do mundo ideal no que tange o desenvolvimento de drogas pela indústria farmacêutica.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Claro, simples, didático e nem um pouco enfadonho — pelo contrário, interessantíssimo. Amanhã volto para ver a sequência, estou bastante curioso a respeito das tuas ponderações sobre o ideal e o real das relações entre todos esses agentes de que vc falou.
Bjs
Grande contribuição, Lúcia! Estou aguardando a segunda parte.
E ainda tem o problema da outra ponta: como os medicamentos chegam ao conhecimento dos médicos (marketing agressivo da indústria farmacêutica) e são prescritos.
Ricardo, serão mais "questões". Mas o post já está no forno, esperando só terminar de cozinhar. :D
Carla, Carla, "O Jardineiro Fiel" é um filme MUITO bom. Daqueles que abrem os olhos de uma forma incrível. E eu adoro a Rachel Weisz, acho-a uma das grandes atrizes do momento. :)
Guto, o departamento de marketing é o último a ser cortado de uma indústria farmacêutica quando ela está "em crise". Diz muito, não?
Beijos a todos.
Seu post é super didático, bem escrito e bem fundamentado. Tudo isso me leva a te solicitar autorização para utilizá-lo em minhas aulas e discussões sobre "Farmacologia" na Residência Médica que coordeno. É claro que o tema faz parte dos estudos curriculares, mas é fácil a gente se 'esquecer' dos conflitos éticos, artimanhas, falsos estudos, supressões e omissões em relatos, etc. Por outro lado, você bem salientou no princípio de seu "ensaio" (isso não é post, é ensaio dos bons), há outro lado da moeda: o benefício incomensurável para a humanidade advindo da indústria. Estarei atento ao próximo, quando você ressaltará -espero- o lado negro da história. (Se abordar a relação da indústria com os médicos, então...)
Eu acho esse tema muito interessante e sua explicação sobre o processo com o FDA está muito clara e didática! Pesquisei um pouco sobre o assunto depois de ler O Jardineiro Fiel, de John le Carré, que depois virou um filme bem adaptado pelo Fernando Meirelles. A jornalista Marcia Angell, do Washington Post, fez uma série de reportagens sobre o assunto do livro e depois escreveu um livro "The Body Hunters". Se te interessar, aqui vai um link com o resumo do livro: http://www.ahrp.org/infomail/05/09/19.php.
A visão dela é bem desfavorável à indústria e está focada nos testes clínicos realizados em países de terceiro mundo, sem a devida ética. Ela também toca na questão da não existência de estudos para "doenças de terceiro mundo", já que não representaria um mercado lucrativo.
Ficarei no aguardo da segunda parte desse seu post!
Interessantissimo e a discussão entre o delicado equilibrio do lucro, e a necessidade de se tornar os medicamentos acessivieis a todos.
Dr. Cláudio, mas é claro q o senhor pode usar nas suas aulas da Residência Médica, mais q autorizado. Aliás, uma HONRA enorme para mim isso, principalmente vindo de uma pessoa q admiro tanto. Muito obrigada de coração por tamanho gesto de apreciação. :) :)
Ernesto, é um equilíbrio complicado...
Beijos aos 2.
Tudo muito bonitinho, mas como explicar a retirada de varios anti-inflamatorios do mercado depois de anos de uso indiscriminado, acusados de danos cardiacos aos seus usuários e ^danos processuais aos fabricantes^.
São realmente testados ou a margem de risco de qualquer medicamento é na verdade muito alta?
Robin, acho q a resposta aos seus questionamentos está na parte 2 desse post... ou não?
Muito boa essa postagem foi de grande contribuição pro meu aprendizado acadêmico. Valeu abração e boa Sorte !!