*Lucy in the lake with jellyfishes. In Palau.
“Picture yourself in a boat on a lake with tangerine trees and marmelade skies…”
Surrealismo existe.
Um recanto onde todo o lisergismo da mãe-natureza floresce sob a forma fantástica de lago. O Lago de Águas-Vivas – ou Jellyfish Lake, em inglês.
“Somebody calls you, you answer quiet slowly: a girl with kaleidoscope eyes!”
A história do surgimento do lago é muito interessante. Um pedaço do mar, que com a movimentação de placas tectônicas, erosão e fenômenos geológicos adjacentes por alguns milhões de anos, ficou então isolado no interior de uma das ilhas no que hoje chamamos de República de Palau. Um lago de água salgada, alimentado afinal por infiltração da água do mar através das rochas. Com um paredão de rochas como barreira, nenhum animal grande portanto conseguiu chegar no lago, apenas os microscópicos e as larvas vinham com a infiltração. Inalcançável aos grandes, era, certamente, alegria dos pequenos. Algum plâncton entrou, além das larvas de Mastigias, uma espécie de água-viva. Os demais invertebrados “curiosos” aos poucos foram desaparecendo, devido a pobreza nutricional do lago, enfim. Começou então…
“Jellyfish flowers of yellow and pink, towering over your head…”
Inicialmente, as água-vivas ali existentes eram como as que encontramos pelos mares afora, com tentáculos cheios de nematocistos – as células que liberam as toxinas que irritam a nossa pele – para queimar e afastar qualquer bicho fariseu que quisesse se “aprochegar” mais. Entretanto, o tempo, esse inevitável parceiro do processo evolutivo, foi passando, e a água-viva, retida naquele lago isolado de água salgada com quase nenhum outro animal, já não contava com predadores naturais. Não precisava se defender, afinal. Nematocistos não eram mais “necessários”, certamente um gasto energético. Sem pressão seletiva suficiente para se manter, com o tempo foram, então, desaparecendo da população.
Evolução. Isso mesmo: as águas-vivas deixaram de queimar ao simples toque. Precisavam concentrar energias na luta perante novos desafios daquele ambiente, como por exemplo alimentar-se.
“Look for the girl with the sun in her eyes and she’s gone…”
Na falta de alimento propício, as águas-vivas associaram-se a algas zooxantelas. O mesmo tipo que estão associadas a corais, aliás. As zooxantelas fazem fotossíntese, produzem seu próprio alimento. E a água-viva, fornecedora da “carona” em direção ao sol para as algas, passou então a produzir uma enzima que permitia aproveitar o alimento que a alga fotossintetizava. Uma relação mutualística que deu certo. Hoje, as águas-vivas passam o dia próximas à superfície, fornecendo sol para suas algas internas. Durante a noite, descem às profundezas do lago, onde o ambiente anaeróbico rico em nitrogênio fornece os nutrientes básicos para a fotossíntese das algas que alimentará as águas-vivas. As duas saem lucrando portanto no final.
O Jellyfish Lake de Palau é uma das atrações marinhas mais bizarras do planeta, além de ser das mais psicodélicas também. Para chegar no lago, isolado do mar, sobe-se um pequeno monte, trilha desenhada para turistas. E se desce, então. E se vai ao encontro da água salgada do mar distante, ali portanto concentrada.
“Follow her down to a hill by a boarder where japanese people eat marshmellow pies…”
Quando entrei no Jellyfish Lake, confesso que não acreditei que algo de “anormal” existisse. Ali, na beirinha do lago, não havia nenhuma novidade, a não ser o fato de ser salgado e lotado de turistas flutuando. Bastou dar meia dúzia de braçadas para começar a perceber o delírio viajante do local. À medida que chegávamos mais pro centro do lago, um número incontável de águas-vivas aparecia. E elas não tinham pudor algum em encostar em você. E de repente, tudo que eu sentia em volta de mim era aquela pasta gelatinosa vinda de todas as direções. Comecei a ficar com receio de quebrar alguma com uma braçada ou pernada. Passei então a ser mais delicada com os movimentos. Mas eram muitas! Milhares e milhares de águas-vivas me engolindo.
“Everyone smiles as you drift past the jellyfishes that grow so incredibly high…”
Comecei então a achar que estava dentro de um filme do Buñuel ou de uma tela de Dalí. A água não era tão clara, e sim verde escura, com aqueles múltiplos “pontos” esbranquiçados, de todos os tamanhos, movimentando-se, pulsando em direção à superfície, como numa real viagem na maionese.
Apesar de evitá-las por princícios biológicos, não dava para deixar de encostar nelas. Desencanei por completo, e comecei a senti-las na mão, perceber aquela textura de gelatina. Mexer nos tentáculos, até então um movimento proibido com qualquer água-viva que se encontre pelo mundo. Minha curiosidade aguçou. E ali, dentro do lago, comecei portanto a analisar as águas-vivas mais e mais. Entretanto, o surrealismo era muito constante para permitir qualquer raciocínio lógico.
“Suddenly someone is there at the turnstyle: the girl with kaleidoscope eyes!”
Meu namorado tirava fotos sem parar. Eu delirava de emoção, me sentia enfim numa nave espacial cheia de alienígenas. Ambos em êxtase. E não podíamos nos mexer muito, para não machucar os animais. Estaríamos numa realidade paralela? Aquele lugar parecia não existir, afinal. Não, Lucia Malla, é verdade. O Jellyfish Lake existe. E é uma das preciosidades de Palau. Relíquia biológica do mundo, prova cabal da evolução, estudo ecológico de mutualismo, inspiração ideal para Magritte.
Pequena amostra de que muitas vezes os delírios nossos de cada dia podem ser tão naturais como estar com milhares de águas-vivas sem nematocistos nadando num lago de água salgada no meio do Pacífico.
“Lucy in the lake with jellyfishes.”
Tudo de surreal sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Ver Comentários
Nossa, que lugar fantástico!!! Nunca tinha ouvido falar desse lago... simplesmente incrível.
Fico imaginando que você como bióloga deve ter ficado ainda mais encantada com os fascínios do processo evolutivo!
Seu blog é demais e as fotos do seu amrido são simplesmente irresistíveis!!!
Abraços,
Carla
Comentários que estavam neste post quando ainda hospedado no blogspot:
Lindas fotos...sabe que eu não conhecia Palau? Tô encantada. Bom estar de volta!
Manu | Homepage | 01.19.06 - 12:16 am | #
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Fascinante a história do lago das águas-vivas. Incrível o fato de elas terem perdido a capacidade de queimar. Tô pasma.
Eu já fui queimada por água viva uma vez, no pescoço, lá na praia de Ipanema. Mergulhei numa onda e a bicha me atropelou (ou o contrário). Lá no Rio não costuma ter muitas, mas de vez em quando aparece uma corrente cheia delas e o melhor negócio é sair da água, he he he.
Leila | Homepage | 01.19.06 - 2:47 am | #
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Ai, ai, tá me dando cda vez mais vontade de ir para Palau!!!!
Beijinhos, amei as fotos e a livre versão da música dos Beatles.
Alline | Homepage | 01.19.06 - 6:48 am | #
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O ser do qual eu mais tenho meio medo é agua viva. Adorei os tubarões, mas quando vi uma embaixo da água "corri" na direção contrária. Se tem uma no mar eu nem entro. Um lago de águas vivas seria meu pior pesadelo! Mesmo dizendo que elas não queimam. Parabéns pela coragem.
Lili | Homepage | 01.19.06 - 11:55 am | #
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Lucia, você nos faz viajar com você!
Que bênção poder, através do seu relato e das fotos, testemunhar toda esta perfeição tão frágil e infelizmente tão ameaçada pela nossa espécie.
Valeu!!!
Beijos.
christiana | Homepage | 01.19.06 - 12:43 pm | #
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que maravilha!!!!!!! seu blog é muito legal!
*só uma sugestão: ao colocar um link, faça com que este abra em uma nova janela [target blank], para facilitar a navegação, já que o right click, que permite que se abra o link em outra janela está desabilitado. abraços
leila | Homepage | 01.19.06 - 9:54 pm | #
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Manu, vc voltou!! E de blog novo, q chique!
Leila, deve ter doido essa jellyfish de Ipanema... eu tbm saio correndo delas. A não ser essas do post, q realmente são fofas.
Alline, vontade estou eu de visitar a Amazônia...
Lili, com as águas-vivas "normais" eu tbm saio correndo. Mas essas eram muito inocentes. O único problema é a textura gelatinosa, é bem estranho ficar nadando em gel. Uma experiência pra lá de "exótica".
Christiana, fico feliz q tenha viajado tão bem!
Leila, onde coloca o target blank no html de forma a que o link abra em nova página? Eu tbm acho isso meio chato, mas não sei consertar... se vc puder me ensinar, eu ficarei muito agradecida!
Beijão a todas q por aqui comentaram e surrealizaram a cabeça!
Lucia Malla | Homepage | 01.20.06 - 1:12 am | #
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Lucia, querida... Jah fui queimada por uma alga-viva ha muito tempo atras... Bjos
Maite | Homepage | 01.20.06 - 1:56 am | #
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Lindas fotos.
Tenho medo da movimentação das placas tectônicas. Admiração e respeito pelas águas-vivas. Distância também.
Allan | Homepage | 01.20.06 - 12:07 pm | #
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Lúcia,
Deve ter sido mesmo uma viagem... É tudo maravilhoso! Lembra também, além das suas citações, William Blake: "If the doors of perception were cleansed, everything would appear to man as it is, infinite."
Não sei se alguém já te escreveu sobre o target blank, mas aqui você encontra algumas opções: http://www.interney.net/blogfaq....q.php? p=6745402
Beijos,
Ana
Ana | Homepage | 01.20.06 - 2:23 pm | #
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Maite, agua-viva doi mesmo...
Allan, mas eh a movimentacao das placas q fornece a beleza maxima dos vulcoes! Nao eh pra temer, certo?
Ana, valeu pela dica! Vou dar uma checada jah-jah e tentar consertar a pagina.
Um beijo a todos e obrigada pelos comentarios, sempre deliciosos!
Lucia Malla | Homepage | 01.20.06 - 5:30 pm | #
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Oi Lúcia. Deve ser demais mergulhar numa "piscina de gel que se mexe"! Lembrei da velhinha do filme Patch Adams que mergulhou na piscina de macarrão (tô viajante hoje). Deve ter sido uma experiência pra lá de ótima.
Água-viva vi algumas vezes, uma inclusive, estava do meu lado, dentro do mar sem onda, na prainha lá em Arraial do Cabo. Fiquei verde de medo, mas nada aconteceu. Sem traumas.
Beijos
Flavia | Homepage | 01.21.06 - 11:06 am | #
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Lúcia, se tudo der certo como eu espero, em breve vc e o André poderão vir a uns dos lugares mais maneiros da Amazônia )
Espero que seja em breve!
Beijos
Alline | Homepage | 01.22.06 - 2:51 am | #
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Lucia, esse foi um dos posts mais lindos que você já fez! amei a música intercalada e as fotos estão um sonho!!!
Agora, eu fui queimada MUITAS vezes, em Olinda, por essas bichinhas e tenho PAVOR! acho que era comum, quando eu era criança, de tempos em tempos elas apareciam e era o terror da criançada...
Vixe, nem gosto de lembrar...
Beijocas!
Denise Arcoverde | Homepage | 01.22.06 - 10:42 am | #
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Flavia, aquela cena de "Patch Adams" me emociona toda vez q eu vejo. Acho q jah vi aquele filme umas 5 vezes, e nao teve uma vez sequer q nao tenha chorado com a piscina de macarrao, mesmo quando pego o filme pelas metades na TV. Eh muito lindo!
Alline, fingers crossed!
Denise, de vez em quando tem mesmo umas "ressurgencias" de agua-viva no Brasil. Lembro desse fenomeno tbm no ES, em certas epocas elas apareciam aos montes, e de repente desapareciam. E como queimavam!! No geral, prefiro os tubaroes as aguas-vivas - exceto as desse lago em Palau, hehehehe!
Leila! Obrigada!! Consegui!!
Beijos a todos e obrigada pelos comentarios!!!
Lucia Malla | Homepage | 01.23.06 - 1:21 pm | #
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Muuuuito bom esse texto. Me fez viajar, só faltou um...não, não faltou nada.
Malla, você já viu águas-vivas azuis?
Bjs,
Guilherme | Homepage | 01.25.06 - 2:54 am | #
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Não, Gui, nunca vi águas-vivas azuis. Elas são sempre "atransparentadas"...
Lucia Malla | Homepage | 01.25.06 - 11:37 pm | #
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oi. hoje passou um programa no Discovery sobre jellyfishs... mostrou esse lago em Palau e disseram que ela pode queimar sim, mas é tem que ficar cutucando bastante e que a queimadura é beeeeeeem leve.... ou seja, elas praticamente não queimam, mas queimam =)
fiquei com medo daquelas que têm na austrália... do tamanho de uma unha do dedinho, mas que matam um homem com facilidade.... terrível
marcel | 02.27.07 - 11:52 am | #