Está rolando na blogosfera uma discussão sobre voto nulo. As discussões estão centralizadas no blog do Idelber, mas alguns outros blogs já manifestaram também sua opinião. E eu, como sempre atrasada, vou dar meu pitaco somente agora.
Da minha parte, pouco posso dizer. Já não voto há muito tempo – não por protesto, mas simplesmente por nunca estar no meu domicílio eleitoral quando uma eleição se realiza. E nunca tive também saco pra trocar de domicílio, o que em parte é falha minha. Mas apresento-me sempre que vou na minha cidade para a já tradicional justificativa.
Alguns diriam que, porque me ausento nas eleições, não posso fazer crítica alguma ao governo, não tenho esse direito. Será mesmo? Nos outros quase 200 países em que o voto não é obrigatório as pessoas não pensam bem assim… Voto obrigatório é minoria no mundo, vale lembrar, e eu sou totalmente favorável ao fim desse dever que contribui para a eleição dos mesmos coronéis de sempre. Fim do parênteses.
O fato foi em Vila Velha, Espírito Santo, meu domicílio eleitoral. Quando? Na minha transição entre criança e aborrescente. Presenciei o que para mim foi o fato mais ilustrativo do que o voto nulo pode gerar. Aí vai minha história. (Tentarei narrar sem muitos julgamentos, pois sinceramente não tenho opinião formada a respeito.)
Era 1987. O prefeito de Vila Velha com mandato para terminar em 1989 havia morrido. O vice-prefeito, por razões jurídicas (não me lembro direito a história), não podia assumir – algum entrave surreal do sistema. Assumiria então o presidente da Câmara de Vereadores. Entretanto, essa figura estava em processo de cassação. O município estava literalmente sem prefeito, e então foram convocadas imediatamente eleições-tampão para a vaga. Os candidatos tiveram pouco tempo para campanha.
Na época, a cidade passava por um problema muito sério de mosquitos. Tinha mosquito pra todo lado, em todos os bairros, e quando chegava de tardinha, não dava nem pra sair de casa direito, porque a nuvem de insetos tomava conta. Algo como uma versão entomológica de “Os pássaros” de Hitchcock. Não tinha mosquiteiro, detefon ou paciência que desse jeito. Lembro-me de ter as paredes brancas do quarto todas manchadas de sangue das chineladas, mãozadas e fronhadas dadas na parede para matar os bichos.
Esse problema, obviamente, não havia surgido de uma hora pra outra, e há muito a população já reclamava de toda forma. (Pra quem nunca foi a Vila Velha, a cidade tem um valão cortando no meio, onde o esgoto da cidade é despejado. Antes, esse valão era a céu aberto, hoje é fechado em parte por galerias. Um nojo fedido agora escondido.) Enfim, o saco encheu coincidentemente na mesma época que o prefeito morreu.
E aí, alguém teve a magnânima idéia de votar no mosquito para prefeito da cidade, como forma de protesto. A idéia foi muito bem aceita por toda a população, de todas as classes – o mosquito era um problema geral, nos bairros pobres e nos bairros chiques, passando por todas as nuances da classe média. Só se falava no mosquito, e os políticos sempre meio descrentes de que aquela mobilização era real.
Dia de eleição. Todo mundo vota, e começam as apurações… Só dava mosquito. O danado do inseto teve mais de 40% dos votos! Ou seja, na prática, a maioria dos votos foram anulados. Mas a eleição não podia ser anulada, por toda a peculiariadade da situação. De qualquer forma, a população mostrou abertamente a indignação pelo problema mal-resolvido da cidade.
Com mais de 50% dos votos válidos (que eram os restantes), foi eleito o prefeito Magno Pires, do PT – que aliás fez uma das piores administrações que o município já teve. Entretanto, a primeira providência do prefeito foi passar o fumacê geral pela cidade, para pelo menos aliviar e mostrar que entendeu muito bem o recado que o povo deu. E permitir uma boa noite de sono para os vilavelhenses.
Tudo de bom sempre pra Vila Velha, essa cidade tão bizarra.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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