Foi ano passado que a lampadinha da idéia acendeu na minha cabeça. Era agosto e todas as agências de viagem do pequeno terminal de ferry de Isla Mujeres, no México, insistiam num mesmo passeio, tentador ao máximo aos meus olhos de bióloga: nadar com o tubarão-baleia (Rhincodon typus).
O Riq Freire, a quem eu acompanhava naquele dia em Isla Mujeres, comentou o quão o tal passeio era “a minha cara”. Fui então perguntar preço e condições. Aliás, André já tinha me avisado que naquela área haveria a possibilidade de ver tubarões-baleia. Infelizmente, naquele momento, não dava para eu encarar o passeio por falta de tempo. Afinal, gastaria o dia todo no barco e teria que me desgarrar do Riq e das conversas super-bacanas, deliciosas e imperdíveis sobre viagens que só ele tem – algo que eu definitivamente não queria perder.
Mas voltei pra casa com aquela lampadinha acesa.
Comentei com André, que de imediato foi aprofundar informações sobre tal passeio na internet. Era entre o vilarejo de Holbox e Isla Mujeres, na Península de Yucatán, de onde saíam o maior contingente de excursões para ver e nadar com o tubarão-baleia nas águas caribenhas.
Ali, não muito longe de Cancún, o encontro de duas correntes marinhas propicia riqueza de plâncton suficiente na água para atrair grupos de tubarão-baleia para se alimentarem. Animais filtradores, estes tubarões em geral nadam solitários pelos oceanos tropicais do mundo e só se agregam para comer e se reproduzir, embora não se saiba até hoje onde exatamente o ritual de corte e acasalamento ocorra. Das poucas informações e estudos sobre o bicho, descobriu-se ano passado um filhote nas Filipinas, indicativo de que ali talvez seja um berçário natural. Mas mais que isso é basicamente especulação, já que muito pouco se sabe sobre a biologia da espécie.
Então decidimos que as próximas férias seriam prioritariamente para ver o tubarão-baleia no México. No começo, iríamos para Holbox. Mas, a menos de uma semana de viajar, trocando emails com o dono da operadora de turismo, descobrimos que barcos para vê-los também saíam de Puerto Juarez, em Cancún. Como nossa viagem também tinha outros focos mais ao sul, decidimos que seria muito mais fácil usar Cancún como base para tal aventura no México. E foi mesmo.
Os barcos saem de Puerto Juarez, Isla Mujeres e Holbox, mas chegam todos ao mesmo ponto do mar- portanto acho que não vale a pena pagar para “tour exclusivo” como algumas agências querem vender. Afinal, a agregação de animais é a mesma, e os barqueiros se comunicam pelo rádio para acharem onde os animais estão. Encontrar os tubarões-baleia no meio do mar (praticamente uma agulha no palheiro azul) não é tarefa simples. Os barqueiros sabem que eles ficam por ali, a cerca de 25 milhas da costa (pelo menos 1 hora e meia de barco, se o mar estiver calmo), mas o ponto exato é muito variável. Então a primeira providência é achá-los.
No dia em que fomos, tinha chovido bastante na noite anterior e o mar estava ultra-agitado. O barco balançou bastante e as ondas pesadas dificultavam ver a superfície do mar, quiçá barbatanas. Mas depois de pelo menos uns 40 minutos procurando, achamos um ponto bem offshore onde vimos o primeiro aparecer. Depois outro. E mais outro. Outro, outro, outro. Não sabia mais para onde olhar. Eram 32 tubarões-baleias se alimentando. 32!! Fui ao delírio.
Era a primeira vez que me deparava com um tubarão-baleia, e o que mais impressiona de início é seu tamanho incrivelmente enorme. Esta é a maior espécie de peixe existente, podendo chegar a pesar 36 toneladas e medir 12 metros. Sua marca registrada são as bolinhas na parte dorsal, o que lhe vale o apelido de “dominó” no México – e “Pintadinho” aqui em casa. 😛
Apesar do tamanho, o fato deles serem filtradores suaviza seus movimentos. Vê-los se alimentando naquele balé próximo à superfície da água, abrindo o bocão de mais de 1m para coletar o plâncton, deixar a água salgada passar pelas brânquias,que abrem e fecham em ritmo de canção de ninar, tudo isso numa pacatez de fazer inveja; eis o melhor calmante que há (pelo menos para mim).
O mar estava ultra-violento no dia em que fomos, batendo mesmo, mas quando caí na água no meio do mar para nadar com eles, a sensação de tranquilidade do bicho ali, dando nenhuma bola praquele monte de humanos ao redor, me fez sentir como se estivesse numa piscininha infantil, e eu nem senti nenhuma das ondas gigantes que passavam por mim. Nadei e nadei ao lado dele, observando cada golada de água, cada peixinho oportunista, cada movimento de barbatana, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Em certo momento, quase fui atropelada por um enquanto observava outro. Mas nem isso me acelerou o coração. Tudo era êxtase calmo, como se estivesse num campo dos sonhos.
E era mesmo um sonho que eu realizava. No barco, faz-se rodízio de 10-15 minutos para cair na água, evitando que uma multidão se aglomere em torno do mesmo bicho e o assuste. Tinham muitos animais ali, praticamente um para cada barco (contei mais de 40 barquinhos). Eu fiquei tão empolgada que quis nadar diversas vezes, não cansava, pelo contrário: cada vez que saía da água, estava mais descansada ainda. Mentalmente realizada. E apaixonada por um tubarão (mais um…).
Foi difícil dizer tchau. Afinal, os tubarões-baleia ficaram lá, em sua majestosa rotina de abre e fecha boca na superfície, coletando plâncton, tendo suas brânquias limpas por outros peixinhos bem menores que eles. Em geral vivem mais de 70 anos – será que meus filhos e netos terão a chance de sentir esta mesma tranquilidade com estes mesmos tubarões que vi semana passada? Tomara que sim.
Tudo de tubarões sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Ver Comentários
Tou aqui estrebuchando de inveja :-)
Mas feliz, mto feliz que vcs tiveram esta oportunidade!!!!
Quero ver todas as fotos...
Bjs
Lindo!
Adoraria ver isso de perto.Esse é de longe o tipo de tubarão que mais desperta minha curiosidade.
Agora, uma dúvida sobre as fotos. Que tipo de lente, ou efeito, é usado nas fotos 2 e 3?
Bj
Com o frio que esta aqui em Floripa, vendo este mar do Caribe, tubarões Baleia.
Dá uma inveja.
Realmente o triste é imaginar que a ganância do Homem, pode ameaçar todo este paraíso.
Bons Mergulhos !
Uau, deve ter sido emocionante. Lindo esse bicho.
Adorei!!!
Ele é todo pintadinho não sabia!! Na ultima foto do Post é voce que aparece nadando do lado dele? Imagino como deve ter sido ver 32 de uma vez só!!!
ei Malla!!! Que delícia deve ter sido o mergulho e que vontade de copiar vocês e ir também hehehe André vai colocar mais fotos no ArteSub??? Quero ver mais! Bjo
Alline, André vai fazer uma galeria no ArteSub com fotos dos tubarões-baleia. Qdo ficar pronta, pode deixar q te repasso o link. :)
Chico, é uma fisheye, super-wide angle. Ideal pra fotografar animais muito grandes, pq vc consegue colocá-lo inteiro na foto. É a lente, não é efeito de Photoshop.
Gustavo, a ameaça é constante, infelizmente. :(
Leila, ele é lindo mesmo. Eu tenho um de pelúcia já. :D
Oscar, não sou eu ali não. Eu estava na superfície, ao lado do André, q fotografava. O cara da foto é o guia da operação. Tem algumas fotos comigo e o tubarão-baleia, q aos poucos irão aparecer aqui no blog... ;)
Cynthia Maria, vc ia AMAR esse passeio!
Beijos a todos.
Nossa Lucia, esse mergulho deve ter sido incrivel. Pena que eu nao mergulho, mas adorei o Mexico.
Lucia, sou Carmen. Estou em a ilha de Holbox. Desde aqui se pode fazer muitos tours. A ilha é tranquila, rústica, salvagem, mais tem lugares que nao están limpos e há muita agua doce...isso é tremendo para os insectos. Saludos e muitos beijos. Adoré toda a Península de Yucatán é bem linda.
Maryanne, foi LINDO. O Mexico vem me encantando cada vez mais. Confesso q até há alguns anos, eu não ia muito com a cara dele como destino, mas... gente, como fui cega! O México é uma delícia. Precisa conhecer. :)
Carmen, ai, q maravilha!! Vontade de estar aí de novo... de ver o pintadinho de novo... aproveite MUITO, querida! Eu não cheguei a ir a Holbox, decidimos dedicar mais tempo a Cozumel por causa dos mergulhos. Mas Yucatán merece repetecos...
Um beijão pras 2!