Na lista de discussão do luluzinhacamp, a Ana Cláudia começou um papo sobre vacinação. Que virou uma discussão sobre a indústria farmacêutica e que eu, no mais tradicional estilo “viagem na maionese” que me caracteriza, consegui desviar para “o nosso lugar no mundo”. E sobre distribuição normal e média da população. Explico.
Vacinas, remédios, construir escolas, colocar ou não um semáforo na esquina da padaria, ter tal alimento na merenda escolar… Tudo isso são decisões que passam, direta ou indiretamente, em última análise, pelas decisões de um governo. Pela forma como um governo decide… governar. Pelas tendências políticas que o caracterizam. Vem daí termos como conservadores, liberais, anarquistas, etc.
Mas, independente da tendência que o governo tenha, ele existe tecnicamente para satisfazer, organizar e trazer melhorias para a população geral. Acontece que essa população geral não é homogênea, há diversidade biológica, de pensamento, de escolhas, e o governo, essa entidade abstrata, precisa então tomar decisões e atender a média da população (média aqui no sentido estatístico, não no sentido classe média, que essa eu deixo pra outro blog pintar melhor).
Logo no início deste blog em 2004, eu fiz um post sobre o coreano médio, onde escrevi o trecho abaixo.
“Existe o que eu chamaria de “brasileiro médio”, uma pessoa existente nos gráficos do IBGE. Mas que na vida real é dificil de encontrar por completo. Quase um ente abstrato. (Ninguém se adequa a 100% dos quesitos do “brasileiro médio” do IBGE.)”
O “brasileiro” (e o coreano, o africano, o vegetariano, o biólogo… Insira aqui a sua categoria de escolha) médio é revelado pelo conjunto de características que boa parte daquela população tem ou carrega consigo. Mas não significa que todos têm as mesmas características. As decisões do governo levam em consideração geralmente essa “média” geral, porque, por mais que seja bonito na utopia, o governo não consegue governar para indivíduos separados. Dada a diversidade inerente às pessoas, isso provavelmente geraria mais conflitos que parcimônia. Ele precisa governar para a média, e entra aí desde o miserável até o milionário.
Mas é claro, somos acima de tudo indivíduos. Então, óbvio, é nossa experiência pessoal que termina por falar mais alto nas nossas decisões. O que acontece, daí, é que a gente tem a tendência de achar que do jeito que a gente faz e/ou pensa é o “modo certo”, e tenta incutir isso nas decisões macroscópicas do governo, muitas vezes sem olhar pro vizinho que não pensa bem assim – ou que não pode, dadas as circunstâncias, pensar ou agir assim.
É muito fácil (e totalmente compreensível), por exemplo, exigir menos carros nas ruas quando você, asmático de tanto escapamento poluente, não mora naquele lado da cidade que não tem transporte público direito. Tendemos a valorizar e lutar pela nossa “verdade” sem se colocar na posição do outro. E é exatamente para harmonizar tantas “verdades”, tentar achar o caminho do meio que satisfaça ambos os casos, que um governo decente existe (decente porque na prática, sabemos que os governos podem também assumir verdades que não estão na média, o que gera problemas. Vide muitas guerras.).
Teoricamente, cabe ao governo (composto por cidadãos eleitos pela população geral, lembremos) ao se deparar com um problema X, olhar para o coletivo de indivíduos, ouvir o que eles têm a dizer sobre o problema X, achar o que é a média naquele caso e buscar uma solução que abarque e felicite, na melhor medida possível, o maior número de pessoas. Pensemos na curva chavão de distribuição normal (o nome já diz tudo, né?) de uma população qualquer.
(Imagem da Wikipedia)
O governo deve concentrar esforços para aquele meio da curva em azul escuro, onde a maior parte da população está, porque assim ele estará beneficiando o maior número possível de indivíduos dentro da sociedade que o escolheu pra governar. A curva pode mudar? Claro que pode; aliás deve, porque a gente felizmente não vive num mundo estático e as mudanças são contínuas.
Se, por exemplo, hoje a maior parte da população não tem saneamento básico (e dado que este é o fator gerador de uma série de doenças que minam a saúde da sociedade), o governo precisa transformar essa “média” em extremo da curva, e trabalhar, juntar esforços, ter como objetivo que a média passe a ser “ter saneamento básico”, e não o contrário, como vemos agora.
E isso vale para quase tudo em nossa vida. Porque no final das contas, o objetivo geral é ter uma sociedade harmoniosa, com menos desigualdade social, mais qualidade de vida – e esse é um conceito que também difere, lembremos, mas que deixo aqui como food for thought.
Como comentei na lista de discussão, toda vez que me deparo com uma situação/problema costumo fazer um exercício mental de me inserir nesse quadro: quando sou média? quando sou extremo? Para cada problema/situação que a vida social e a biologia me trazem, tento perceber em que área da curva normal estou. Preciso mudar de área? Dá pra melhorar? Quantos conheço em situação similar? É estatisticamente significativo? Como o governo age neste caso? Quais são os outros lados desse problema?
Educar um indivíduo, em minha opinião, passa por esse entendimento. Porque acho que assim, entendendo o seu lugar ao mesmo tempo que o insere num contexto maior, a gente passa também a entender melhor o outro, e a convivência em harmonia fica menos utópica, mais pragmática. E este “lugar” é dinâmico: somos pilar de um ponto mas massa amorfa em outro, constantemente, e isso é saudável. É inevitável que sejamos média e extremo da curva de distribuição normal, dependendo do que está sendo medido, ou discutido, ou avaliado, ou ainda pensado. Contanto que não nos acomodemos perante as mudanças do mundo, participar desse equilíbrio entre todas as partes da curva é a existência ideal de uma sociedade.
Para mim pelo menos, identificar e tentar entender nosso lugar no mundo, dentro da sociedade, esse lugar que está circundado por nossas escolhas, birras, conhecimentos e desconhecimentos, abre mais facilmente as portas da tolerância. Que é, afinal, o que a gente mais precisa para viver em harmonia na sociedade. Principalmente, para melhorar a sociedade em que vivemos. 🙂
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Adoro suas viajadas na maionese :mrgreen:
Ate porque elas sempre vem assim, explicadinhas tintim por tintim, e fazem a gente refletir ;)
Espero que você não se importe, mas eu inseri este post seu na discussão do Roda de Ciência.
Mari, obrigada! :-))))
João, claro que não me incomodo. É uma honra participar.
Beijos aos 2.
Só vou falar uma coisa: ainda bem que vc existe!!
Lúcia, acho que o fundamental é a informação. Não podemos mais simplesmente acatar, mesmo as políticas públicas, mesmo compreendo a necessidade fundamental das mesmas. Se estamos fora ou dentro da curva, precisamos entender melhor o que se adequa à nossa realidade. Isso para muitos é egoísmo, para outros conscientização. Independente do nome que se adeque, o mais importante é a informação. Essa é a base das escolhas conscientes. Assim , quem sabe, poderemos fazer a nossa parte por uma sociedade mais igualitária. E agora, quem viajou na maionese, fui eu... rs
Gostei muito do seu post.
Levar à reflexão é o passo inicial de qualquer questionamento.
Lucia, permita-me discordar em parte.
Por muito tempo, pensei como você. Formado em Medicina, exposto à estatística, bioestatística, farmacologia acabei conhecendo bem a distribuiçõa gaussiana que é muito utilizada como ferramenta diagnóstica e também para justificar ou deixar de justificar tratamentos em casos individuais e decisões coletivas de saúde pública.
Então, o que está em jogo aqui é o individual x coletivo.
Do ponto de vista coletivo, entendo que para o "governo" fazer esta ou aquela escolha em benefício de uma parcela maior (quantitavamente falando) da população em detrimento de uma parcela menor parece ser o melhor a fazer. Entretanto, existe uma opção ainda melhor: deixar que cada grupo, maioria ou minoria decida por si o que fazer.
Como você mesmo falou, somos seres mutantes, recebemos vários estímulos durante a vida e, muitas vezes, nossos objetivos mudam com o tempo.
Há 10 anos, não conseguiria imaginar para meu filho um mundo no qual ele não seguisse o mesmo caminho que eu (escola convencional, faculdade, especializações). Hoje, não sei se este é mesmo o caminho que desejo para ele e, mais importante ainda: não sei se é o caminho que ele escolherá. E se, por exemplo, ele não quiser comparecer à escola convencional? Hoje, somos obrigados a empurrar nossos filhos para um sistema educacional com o qual nem sempre concordamos em função de uma medida imposta por um determinado governo, que tem seus interesses baseados não na justa medida dos seus representados mas em interesses industriais, comerciais e de mercado.
Se entrarmos no mérito da discussão democrática, encontramos ainda mais problemas, impossíveis de expressar em uma caixa de comentários. Por exemplo: deve-se fazer o que a maioria quer, mesmo que esta maioria esteja desinformada ou tenha informações incorretas, orientadas pela mídia ou por uma campanha com objetivos obscuros - como foi o caso da gripe suína, para citar um próximo, temporalmente falando?
Como li outro dia, na lista da Roda de Ciência, como fazer a população concordar na construção de um superobservatório astronômico ao custo de milhões de dólares se a população não consegue apreender a importância de tal medida? (Conseguimos apreender a importância da aquisição de um avião presidencial e de uma frota de aviões, helicópteros e submarinos nucleares?).
Se a cada um fosse dado o que é seu, sem esta extorsão diária que chamam de impostos e taxas, poderíamos nos organizar localmente e, graças a toda tecnologia a nosso dispor, criar sistemas loco-regionais de saúde, transportes, comunicações e até mesmo de pesquisas pesadas e altamente tecnológicas através da mobilização dos grupos interessados no assunto.
Mas isso é só parte do trabalho e ainda estamos um bocadinho longe desta realidade. Mas não desistiremos enquanto cada individualidade (ou singularidade, como prefiro) possa ter um pouco mais do mundo para o qual se entrega.
Desculpe se também me fiz confuso em minha explicação, mas tive que parar várias vezes no meio do comentário para ver como estava indo o molho de tomates que estou fazendo e o almoço também se interpôs ao meu pensamento.
Um abraço.
então... somos lugares biológicos-sociais-psíquicos abertos dentro de uma ecologia idem. Este teu artigo me leva a uma outra viagem na maionese, Xará. Quando é que as pessoas vão entender que o que importa são as suas escolhas, aí sim, marcadas pelo seu conhecimento e posição dentro (ou fora) da "curva".
Eu discordo radicalmente do Rafael. individual x coletivo é pura falácia. Subjetividade só existe no coletivo, pelo coletivo, com o coletivo. Individuo é que é a falácia. Como vc bem diz, somos fruto de um conjunto complexo de condições ambientes - e não apenas - como assim, indivíduo? ô coisa mais século 19...
Lindo artigo maionesístico.
Lúcia AMEI seu blog, cheguei aqui hoje!
Muito bom mesmo, vou recomendar para todo mundo. Fotos belíssimas, conteúdo maravilhoso. Você escreve super bem!
Já relacionei nos blogs recomendados para voltar sempre e viajar com você pelos 7 mares...rs
Parabéns! ;)
É um caso patologico, quase fora da curva Gaussiana que mostrou, mas não devemos esquecer o exemplo do presidente de Africa do Sul que não admitia que HIV causava AIDS e recomendava que os doentes se tratassem com vitaminas, frutas e remedios folcloricas. E a negação à ciencia não para por aí, infelizmente.
Nossa, me perdi no texto e mais ainda nos comentários!
Mas fiquei pensando numa coisa que a Lucia Freitas disse: como assim o "indivíduo" está fora de moda? Se eu fosse seguir a massa, não estaria nem aí para o meio ambiente, não estaria nem um pouco preocupada em construir um mundo mais consciente e melhor, e cuidaria da saúde das minhas filhas só com antibióticos. (Não estou dizendo que antibióticos não são bons, só estou dizendo que a massa usa demais.) E aí? Vou pela consciência coletiva ou pela minha consciência?
Um governo como a Lucia Malla descreveu é utópico: um governo que pense de verdade no bem estar da sua população. Sério. Mesmo os governos tomam decisões que dizem ser melhores para o povo, mas são mesmo? Aumentar o número de pistas das avenidas, acabar com praças para construir shoppings ou estacionamentos, vacinar porque não há saneamento básico nem alimentação adequada... O dinheiro público está sendo investido de maneira inteligente?
Eu acho que não, e eu sou minoria. Para mim, a abordagem dos governos convencionais não serve. E agora?