O caos no Chade em primeira pessoa

No final do ano passado, recebi um email de um grande amigo meu britânico – cujas aventuras pelo mundo dariam um livro, by the way, pois vão desde pedalar da Inglaterra à Mongólia até caminhar ao redor das ilhas havaianas. Enfim, ele hoje é voluntário de uma grande ONG internacional e estava notificando seus amigos por email em dezembro que partiria para o Chade para uma missão de 4 meses num lugarejo remoto na fronteira com o Sudão.

Eis que dias atrás um verdadeiro pandemônio político se estabeleceu na capital do Chade. Rebeldes metralhando o palácio presidencial na capital, querendo tomar o poder. Do outro lado, sudaneses assaltando campos e cidades chadianas na fronteira – centenas de milhares de pessoas fogem de Darfur rumo ao Chade, o que só agrava a situação. Um infelizmente típico caos africano.

O Chade se tornou hostil à atuação de ONGs desde o escândalo envolvendo voluntários franceses de uma ONG obtusa que roubavam crianças de suas famílias chadenses para entregar à adoção em famílias francesas. Ou seja, desde então, voluntários para ajudar o país não são muito bem-vindos.

Meu amigo já passou maus momentos em suas andanças (chegou a ter “mal da montanha” no acampamento-base do Everest e quase morreu numa nevasca no Nepal), mas dessa vez temi de verdade por sua vida, dado todo o contexto do local onde ele está. Antes mesmo que eu preocupada escrevesse para ele perguntando qual era a situação de verdade, ele escreveu um longo email para vários amigos, dizendo que estava bem, vindo de um lugarejo tão remoto que nem mesmo os rebeldes sudaneses querem chegar lá.

Perguntei se podia compartilhar algumas sentenças-chaves de seu email aqui no blog, para que eventuais interessados em política mundial que passem por aqui pudessem ler uma opinião em primeira pessoa. Ele aprovou a idéia. Mesmo que sejam notícias que muitos leram no jornal, acho muito valoroso que um amigo esteja no meio dessa confusão que parece tão distante aos nossos olhos – de repente ela ficou preocupantemente próxima de mim. Eis então alguns pedaços de seu longuíssimo email sobre a situação no Chade:

(…) We’re now in Goz Beida. But then news came in that the Ade project (three hours from Goz Beida, almost on the Sudanese border) had been attacked by armed bandits and looted (…) and even as I write this at 6.30 am today, they are beginning emergency evacuation (…) to Goz Beida by road, where there is an airstrip. The plan was to fly them to Abeche, but now it seems Abeche is more dangerous than Goz Beida so we are all crowding in tightly here. Going to Ndjamena [n.e.: capital do Chade] is even less of an option now. There are no civilian flights to or from Ndjamena. The UN have evacuated non-essential personnel. French troops are said to be holding the airport and bringing in reinforcements from Gabon and Ivory Coast to supplement their already considerable forces in Chad, and will take on responsibility for evacuating us if need be, if our own plane cannot make it.”

(…) The rebels had entirely other ideas, and skirted past Goz Beida, heading towards Abeche (the only significant town east of the capital). Again, the Chadian Army (ANT) encircled the town to defend it, while several more much bigger columns of rebels seem to have come in from Sudan (they are almost all supported and funded by the Sudanese government) and headed west at high speed. It seems that quite a few of the nearly dozen rebel movements opposed to president Deby have united for this offensive. Again, with only a little bit of fighting, the rebels avoided Abeche and made straight for the capital, which they have now encircled. In Goz Beida and Abeche the ANT have almost all left, rushing up to Ndjamena to help the defence of the city, or join the rebels, or join whichever side seems to be most likely to come off best at the end of the day. Poor president Deby is rumoured to have even lost the support of his own family, and may have fled the country, but what really matters to him is whether the French will continue to back him, because they are the ones with the Mirage jet fighters and that is what counts here. We are just getting reports of another column of vehicles coming in from Sudan, but these are rumoured to be ToraBora rebels, who support Deby and are rebelling against the Sudanese government. Rebels against the rebels.”

“The very latest news is that large parts of Ndjamena have fallen to the rebels after heavy fighting in the town, especially around the presidential palace complex. (…) Our two expats in the capital are safe, under French army protection. Abeche is expected to fall soon.”

“Here in Chad, things becoming messier by the minute and most the other NGOs in this part of the country are evacuating or have already gone. Most of our people were flown out to Cameroon or Gabon by UN today.

Sobre a rotina no lugarejo remoto na fronteira com o Sudão em que ele estava antes de Goz Beida (deve ser minúsculo mesmo, porque não consta no atlas super-power aqui de casa):

“On Thursday everything changes, and it is market day. There is no other market to compete for fifty km south, east or west so this small village suddenly becomes flooded by thousands of farmers, nomads, traders and foragers who arrive on foot, on donkey and on camel from every settlement within two days walk.”

We jog through the empty market area, towards the rising sun and across the camel parking region, (…) and into the region we call the forest. Of course it is not a forest in the European sense, but by Chadian standards it is truly verdant even though most the trees are thorny and leafless at the moment. There are a lot of tall palm trees there among the other varieties, and there is about fifty percent shade on the ground even when the sun is higher. Iridescent blue birds fly among the branches. One morning we saw a small troop of monkeys. Another time we saw baboons, and a few days ago we saw a warthog. We can run in other directions too, within a 5 km radius of the village, but this is our favorite because of the trees, the wildlife, the lack of children and the absence of sandy ground and flies which are a nuisance in other places. If we meet other people, unless they are familiar with our strange activities, (…) we explain that we are just doing some sport and they have nothing to fear. In this place the sight of someone running has only one meaning, which is that they are running away from a danger. Nobody would run for fun, and two foreigners running in the forest which the locals consider a hazardous place anyway, can be terrifying. Two days ago we had to stop and walk because an old man started running with us and could not be made to understand that there was nobody chasing us all.

Tudo de bom sempre ao meu amigo no Chade.

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Lucia,
    É sempre um silêncio tão incômodo sobre a África. É sempre uma esquiva. São tantos e tão complexos os elementos que transformam aquele continente (e sua gente) em pouco mais que "curiosidade exótica", assunto pra cinco minutos de conversa, que terminam geralmente com um suspiro.
    A "bola da vez" é o Chad, como já foi o vizinho Sudão (e a carnificina de Darfur), a vizinha República Centro-Africana, o vizinho Zaire, a vizinha Nigéria, Costa do Marfim, Serra Leoa, Libéria, o Quênia... A lista é infinita.
    Em cada um desses polígonos irreais (como somos todos), invenções de europeus muitíssimo mal-intencionados, a mesma história se repetindo (como farsa e como tragédia). Grupos que se beneficiam e abusam de outros; que destroem o país até chegar ao poder e revidar na mesma dose -- ou maior -- as injúrias recebidas.
    Aqueles que poderiam fazer alguma coisa, se calam -- levados por interesses os mais escusos, geralmente riquezas (minerais, naturais, humanas) abundantes em toda a África.
    As análises sobre o continente nunca têm o tom grave e horrível da realidade. São sempre amenizados, já que ninguém quer "ofender" os interessados.
    É uma pena. Uma lástima. Uma tristeza. Especialmente porque, como em todos os outros casos, de Ruanda e Burundi a Somália, o mundo se fará de surdo e cego -- pra que, no fim, tudo volte ao estado inicial, inseguro e deteriorado.
    Boa sorte ao seu amigo. E àqueles que ele cruzar por lá -- que não têm a esperança de um avião das Nações Unidas como solução de seus problemas.
    Um beijo.

  • Oi Thiago! Obrigada pelo comentário ponderado e excelente. O mundo vira de costas para a África para q, no final do dia, finjamos q tudo está "bem" e possamos "carry on our lives".
    Meu amigo já passou 8 meses no Burundi tbm, na mesma ONG, em 2006. Voltou modificado, não era mais a mesma pessoa - e olha q, como falei, ele já viu de tudo um pouco. Mas quando o encontrei na Inglaterra uma coisa q ele me disse me tocou: "life is not worth a quid down there". Mulheres que dão à luz e largam seus filhos para a morte, homens com HIV q insistem em terem haréns... uma sociedade caótica q gera um twist na nossa cabeça. São essas pessoas, por ex., q sofrerão com aquecimento global - já sofrem com a miséria. Às vezes a gente acha q o mundo tem solução. Será?

  • Muito interessante este relato...gosto muito de ler livros reportagens sobre guerras. Devorei todos sobre o Afeganistão e Sérvia...mas acredito que nada se compara com as guerras africanas. Por ser uma de nossas raízes(querendo ou não é nossa raiz sim)? Talvez...mas acho que mais pelo incomodo de saber que os países ditos desenvolvidos pouco se interessam pelas condições daqueles povos, pois a maioria desses países não oferece petróleo...ouro negro que tantas guerras já gerou...até quando?!? Que saia tudo bem com seu amigo... bj

  • Oi Lucia ! (sem acentos e cedilhas) Pois quem dera o Tchad fosse a unica bola da vez, a situacao em Kenia beira a guerra civil tambem. Eh legal ter o relato do ponto de vista de um Britanico, visto que os franceses estao envolvidos nesse caso ateh o pescoco. Quanto a questao das ONGs, eu acompanhei a crise da Arche de Noe, que pisou na bola, mas existe muita cotroversia sobre o que aconteceu, porque houve cumplicidade de intermediarios tchadianos que diziam que as criancas eram orfas do Darfur, o caso se tornou o estopim pra reagir contra a presenca francesa, o processo foi uma farsa, os franceses foram expatriados de volta pra Franca. Ninguem em sa consciencia fretaria um aviao e embarcaria 100 criancas tchadianas para a Franca, sem temer as consequencias disso, ainda mais na Franca. Por isso acho que nao dah pra dizer (e nem a reportagem diz) que eles "roubavam" criancas do Chad pra trazer pra Franca, mas o caso serviu de estopim, isso serviu. Enfim, boa sorte pro seu amigo e obrigada por compartilhar com a gente. beijos

  • Manu, há pouco interesse mesmo na África. O q é uma lástima, em minha opinião.
    Ana Lucia, Kenia, Somália, Burundi... são tantos conflitos q a gente não ouve devidamente na mídia. Eles estão acontecendo sempre, e a coisa só vira nota de primeira página do NYTimes quando afeta quem detém o poder. Outra lástima.
    A palavra "roubavam" q usei foi realmente forte demais, concordo com vc. Entretanto, os participantes desse esquema escandaloso enrolavam as crianças em falsos panos velhos com sangue para fingir q eram refugiados de Darfur (e conquistar simpatia das famílias francesas) quando eram na verdade crianças com pais do Chade. Mesmo q as crianças não tenham sido "roubadas", foram vítimas de uma falcatrua criminosa que "sujou" o nome das ONGs na África, principalmente no Chade - e isso é o mais problemático, em minha opinião. Enfim, é tragédia e confusão em cima de tragédia e confusão. É triste.

  • Quando todos os países em volta são frágeis, crises como Darfur tendem a sofrer metástase. O Chad é o pais mais afetado (esta é a segunda tentativa de golpe de inspiração Sudanesa em menos de um ano); mas a Republica Centro Africana e até a Mauritânia (ambos com grupos rebeldes a granel) também já sofrem com em crises incipientes. No caso da Mauritânia em particular, é uma pena, porque é um pais parece(ia) estar no caminho certo.
    O paradigma para este tipo de coprodinâmica é, obviamente, o Congo. A guerra civil e o genocídio em Ruanda primeiro se espalharam para o Burundi, e depois foram o estopim no ex-Zaire para uma guerra civil sem fim, que acabou envolvendo Uganda, Zimbabwe, Zambia e Angola, e não dá sinais de acabar.

  • Mas quando o encontrei na Inglaterra uma coisa q ele me disse me tocou: "life is not worth a quid down there".
    Lucia, você nem precisa ir ao Chade para encontrar situações como essa. A diferença é que lá isso está mais para "geral" do que para "localizado".

  • Interessasnte - e verdadeira - essa idéia da metástase. O Congo parece ser realmente um país-chave, e eu diria q o mais problemático de todos num overall.
    João, realmente não precisa, mas é q a forma como ele me disse isso... a vida muito mais menosprezada q pelas bandas brasileiras, entende? Foi chocante durante nossa conversa. Acho q é mesmo o q vc diz: lá é mais generalizado.

  • Por acaso achei essa pagina na internet, quando procurava informacoes na imprensa mundial sobre o Tchad. Eu estou em Goz Beida, ha aproximadamente 4 meses. Sou um MLO, trabalho para a MINURCAT, a missao da Nacoes Unidas. Apesar da ideia difundida pelo senso comum, que se apresenta como cientifico, as nossas "certezas" sobre o continente africano sao muito deficientes. O Tchad e um pais riquissimo em petroleo, sendo essa a explicacao da presenca intensa francesa, de empresas americanas e da Libia. O que se ve no Tchad e um complexo tabuleiro de xadrez, o qual nao temos condicao de discutir nesse espaco pequeno.
    Questiono a perpetuada ideia de culpar eternamente o imperialismo do passado pelos problemas politicos e conflitos existentes nos estados africanos, os quais, sao so estados no papel. Veja o Tchad, sua populacao nao se ve como uma nacao, nao falam uma unica lingua (o dialeto predominante e o Sara), nao possuem uma identidade comum. Mesmo o Presidente Duby e visto por muitos como um representate dos interesses de sua tribo. Os rebeldes Tchadianos nao possuem um projeto politico, o que querem e remover o presidente do poder. Se o objetivo for alcancado, nao ira demorar muito para um novo grupo surgir, desejando a mesmissima coisa. Aqui, presencio diariamente conflitos que existem ha pelo menos uns 8 mil anos, como nomades e agricultores se matando por possuirem uma visao diametralmente oposta da vida. Nao foi o imperialismo que criou nada disso.
    E um engano pensar que a Africa e um continente pobre. A riqueza da Africa e uma das origens da sua miseria e a ausencia de verdadeiros estados nacionais cria o ambiente perfeito para a manipulacao internacional.
    Temo muito quando escuto brasileiros falando de origens africanas, particularmente com o tom que esse discursso vem assumindo em nosso pais. Somos um paises herdeiro de varias herancas, europeia, africana, asiatica. Essa e a origem de nossa virtude, pois recebemos influencias de diversas culturas, mas, ainda bem, nao somos nenhuma delas! Somos diferentes! Hoje, temos pouquissima identidade comum com o que vejo aqui, ainda bem. Parafraseando Darcy Ribeiro, somos coisa nova! Ainda em formacao, mais nova. Nao sou africano, nao sou europeu eu sou brasileiro. o que apropriei da cultura dos outros transformei em coisa nova, num processo bem ao estilo antropofagico do modernismo.
    Por isso, entendo perfeitamente quando Milton Goncalves disse que, apos visitar a o continente, descobriu que era um cidadao brasileiro negro!
    Para a conhecer a Africa, nao basta ser turista e dar um passeio, vc tem que viver aqui!
    Queira desculpar a falta de sinais e acentos, pois nao consigo usar o laptop frances de forma adequada.
    Forte abraco.
    Brasil! Marinha! Fuzileiros Navais!

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Lucia Malla

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