A entrevista viajante de hoje é com o Tiagón. Ele é um dos responsáveis pelo condomínio não-organização auto-entitulado o mais democrático da blogosfera brasileira, com direito à manifesto em prol e tudo. A Verbeat é um marco no compartilhamento da informação virtual, com momentos históricos e iniciativas que fazem a gente levantar de pé para aplaudir.
E, por trás de todo esse movimento, Tiagón – seu nome é Tiago Casagrande, mas eu não sei chamá-lo assim, para mim ele será sempre o grande Tiagón dos delírios – o que prefere ser a contradição ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Tri-gaúcho ao extremo, ele aceitou dividir comigo por email um pouco das viagens que ele faz. As físicas, afinal; porque as na maionese a gente confere sempre no seu ótimo Bereteando. Respeitável público de carnaval, abram alas para o papo-entrevista com Tiagón!
Tiagón: Urbano. Eu tenho vontade de ir pro campo, por diversos motivos – sensação de isolamento do estresse das cidades, prazer de sentir cheiro de grama e de ter horizontes longos pra observar, um orgulho de ser neto de alegretense (pra gaúcho, ser da região da Campanha ou descendente é credencial) – mas eu acabo me rendendo ao cômodo e prefiro o utilitarismo. Deixo pra mais tarde o retorno à terra, coisa que é de fato um plano. E além disso, eu odeio insetos. Odeio. Ao mesmo tempo, o urbano extremo acaba com toda minha energia vital. Ou seja, aquelas 36 horas em São Paulo serão pra sempre uma referência negativa.
Tiagón: Eu não costumo escolher – sou daqueles que, infelizmente, viajam mais por uma oportunidade do que por programação. Além disso, viajo bem menos do que é socialmente aceito. Mas meus desejos de consumo viajores costumam vir ou da mais pura curiosidade (como será a vida na Finlândia?), ou genealogia (mezzo Alegrete, mezzo Calábria), ou “o mundo como era antes” (pradarias da Escócia, etc).
Tiagón: Agudo, interior do RS, centro do Estado. Pertinho, acho que nem 200 km de Porto Alegre. Escolhida ao acaso, apontando o dedo no mapa, coincidentemente com menos de 10 mil habitantes, cabendo na idéia de um projeto meu e do amigo gêmeo Leandro Gejfin – de fazer ficção mapeando as pequenas histórias escondidas e potencialmente moribundas pelo interior do Estado. Inesquecível porque foi criada na expectativa de ser uma viagem de descobertas e bereteios múltiplos, e não só foi como foi tanto que quase eu não ponho o pé no chão de novo. Pra dois comunicólogos sensíveis à grandeza dos relatos de vida, e da confiança a que fomos submetidos, o mundo se revelou aqui do lado de casa. (Eu e o Gejfin já falamos mais sobre essa viagem num belíssimo post, ainda que demais exagerado na comparação, do amigo Milton Ribeiro.)
Tiagón: Acho que foi uma a que fui submetido quando tinha o quê, 11, 12 anos? Fomos (eu, meus pais e minha irmã (4 anos menor)) passar um carnaval esticado num camping em Tapes, praia doce da Lagoa dos Patos, 100km da capital.
Choveu todos os dias, praticamente o tempo todo. Minha irmã brincava com uma prima (tinha mais família por lá) usando sacolas de supermercados nos pés e na cabeça (sim, com furos pra respirar e enxergar e tudo. “nenhum animal foi ferido durante esta entrevista etc”). Um dos meus tios bebia cerveja ininterruptamente, e resolveu cavar – em moto perpétuo – valas ao redor das barracas. Ele enterrava o copo de cerveja na terra “pra não esquentar a bebida”. Minha mãe foi picada por uma formiga e descobriu uma alergia quando inchou até o dobro do tamanho. Era o segundo dia, e ela resolveu não sair mais da barraca pelo restante da temporada. E outros eventos do tipo. Hoje a gente ri! E eu me tornei uma pessoa que se identifica com os filmes do Woody Allen.
Tiagón: Sanduíche com abacaxi, no Rio de Janeiro! Respostinha chinfrim, eu sei, mas onde é que já se viu botar abacaxi junto com carne e queijo no meio de um pão? Cada idéia… De resto, minha curiosidade é mais humanística do que culinária, ou seja, se os locais comem polvo vivo com ovas e gafanhotos torrados e abacaxi, não, obrigado, eu quero um bife. 😛
Tiagón: Eu faço o sinal da cruz antes do avião decolar e na chegada, mesmo sendo agnóstico há uns 10 anos. (Dependendo da importância do jogo do Grêmio eu faço isso também.) Também conhecido como “pero que las hay, las hay!” De resto, nenhuma mania – mas eu gosto e fico feliz quando posso chegar na cidade, largar a bagagem e sair pra caminhar e tomar uma cerveja pelas redondezas.
Tiagón: Não costumo viajar sozinho, e por isso geralmente minhas sugestões de trilha sonora são vetadas previamente (principalmente por envolverem metal, e pesado). Mas eu sempre levo Coltrane pra viajar de avião comigo. Ele ao mesmo tempo tranqüiliza, lembra que a vida é caos e faz a passagem econômica parecer assento de luxo – embora meus joelhos discordem severamente. Dar o play em “Acknowledgment”, a abertura de “A Love Supreme”, o gongo ressoando ao se ver pela janela que o mundo fica distante (e a decolagem deu certo), pra logo então ser contagiado pelo swing otimista da frase de baixo e já se imaginar na chegada e tudo que o espera e as novas descobertas, e então Coltrane começa a solar nos ouvidos e a gente então faz parte de uma viagem muito, muito melhor do que o resto dos passageiros está fazendo – pô, é magnífico.
Tiagón: Nova Petrópolis, na serra gaúcha. Ao lado de Gramado e Canela, mas sem badalação nem agito nem “vida de plástico”. Uma pequena e acolhedora cidade, também de colonização germânica, com preços mais acessíveis e sem uma frota de carros show-off a poluir. Procurem o Recanto Suíço pra hospedagem e quando lhe disserem que também servem almoço, aceite – e guarde um cantinho pro carrinho de tortas que passa na sobremesa. O pote de nata pra comer com a de chocolate já vem incluído. E em Nova Petrópolis tem uma praça com um labirinto de cerca-viva!
Tiagón: Como vem sendo praxe nos últimos tempos, Rio de Janeiro, um pedaço de férias agora em fevereiro. Já comprei uma camiseta especial caso eu acabe nos blocos de carnaval – ela diz “Listen to Black Sabbath”. Há que se mostrar alguma resistência, não?
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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Passando por aqui, num descanso de Carnaval...que na cidade onde vivo, mesmo não querendo ele aparece por "osmose"...rsrsrs:P...adorei a entrevista..principalmente da dica..Nova Petrópolis é maravilhosa!!! E claro, o sul está sempre na minha lista...por enquanto só vou lá de mala...um dia levo a cuia tb (de chimarrão, quem sabe?) kkkk.bj ;)
Nova Petrópolis é uma boa dica, mas usar a camiseta do Black Sabbath no carnaval não tem preço. Eu já fiz algo parecido, mais de uma vez.
Hoje não faço mais carnaval.
Carnaval por "osmose" é ótimo, Manu! Hahahahahha!!! :D
Bender, vcs metaleiros do sul... :P
Beijos aos 2.