Não gosto de generalizar, principalmente no que diz respeito às pessoas, e mais ainda em uma cultura diferente. Eu detesto quando ouço que os brasileiros são “malandros ixpertos”, que as mulheres brasileiras são praticamente um objeto sexual, ou que falamos alto – pode até ser verdade em alguns casos, mas que TODOS somos assim, é uma grande mentira.
Existe o que eu chamaria de “brasileiro médio”, uma pessoa existente nos gráficos do IBGE, mas que na vida real é dificil de encontrar por completo. Quase um ente abstrato. (Ninguém se adequa a 100% dos quesitos do “brasileiro médio” do IBGE.)
Entretanto, ouço sempre a pergunta: como é o povo coreano? Por isso, decidi escrever sobre o que eu chamaria de “coreano médio”, esse ser inexistente que junta todas as características que vejo como predominantes na maioria das pessoas reais, mas que não estão agregadas todas ao mesmo tempo em um único indivíduo. Além do mais, não pesquisei o IBGE deles, e tudo que escrevo aqui são as minhas percepções individuais, com os preconceitos, perspectivas e visões que eu vivencio no dia-a-dia.
Vários amigos meus já manifestaram a seguinte opinião: “Todos os coreanos que eu conheço, ou com quem tive contato, são chatos.” Ok, então você já começou bem a sua construção do “coreano médio”, pois essa é uma característica dele. Não que eles sejam pessoas chatas no sentido brasileiro da palavra. Apenas não tem o mesmo comportamento expansivo que os ocidentais em geral. E em nosso conceito isso soa como “chatos”. Na tentativa de elucidar essa questão, principalmente as diferenças entre o que chamaria de “ocidental médio”, aí vão algumas características/exemplos do “coreano médio” que coletei ao longo desse ano vivendo e lidando diariamente com eles:
Ok, eu vou repetir para que fique bem claro de novo: O COREANO MÉDIO NÃO FALA INGLÊS. A idéia de que a Coréia do Sul por ser um país desenvolvido, que já hospedou Olimpíadas e Copa do Mundo, e por causa disso terá um significante número da população letrada na “língua mundial”, é totalmente falsa. Um turista visitando Seul vai lidar com alguns coreanos que falam inglês bem, é verdade, mas infelizmente esses são uma minoria da minoria. Nós também fomos “engambelados” por essa idéia quando viemos para cá. Achávamos que com o inglês iríamos nos virar bem. Negativo. Ainda bem que aprendemos a ler o hangul (alfabeto coreano), o que nos facilita uns 20% no dia-a-dia. Essa característica tende a ser amenizada no futuro, pois aparentemente o sistema educacional tem reforçado e enfatizado o aprendizado de inglês. Talvez daqui a uns 10 anos se perceba a mudança.
…e se acordar no meio da noite, talvez de madrugada também. No post anterior (“Pimenta de Ação de Graças”) já havia explicado isso, mas vale repetir para enfatizar. A pimenta é o cerne da culinária coreana, estando nesse quesito pau-a-pau com a comida mexicana. A pimenta vermelha é algo como o arroz-com-feijão deles – com a diferença que é inserida em todas as refeições. O prato mais comum na Coréia do Sul é o kimchi, que nada mais é que repolho fermentado em molho de pimenta. (Nunca provei, e nunca provarei, visto que sou alérgica à pimenta.)
E se você não pode com pimenta como eu, nao caia na frase tipicamente coreana: “Mas esse prato não é apimentado, pode provar.” Sim, é; eles apenas não sabem diferenciar POUCA pimenta de NENHUMA pimenta. E pensando dessa forma, desde que cheguei aqui, descobri que acho a culinária coreana pouco criativa, pois tudo leva pimenta. Ora, com tantas ervas exóticas e algas miraculosas virando sopa por aqui, será que nenhum outro tempero merece tanto frisson? Resumindo para os leigos em Coréia: não se engane pensando que aquele molho vermelho na galinha é tomate! Hehehheheh!!
Principalmente, se o estrangeiro não tem fisionomia oriental. Ele faz de tudo e mais um pouco para agradar. Pode não falar um “a” de inglês, mas se ele entende para onde você quer ir, ou o que está procurando (geralmente pela linguagem universal da mímica), ele vai te ajudar de sorriso no rosto. As pessoas aqui, quando se deparam comigo e/ou André sempre tentam ser o mais simpáticas possíveis, e ajudar no que for possível dentro das limitações da comunicação. Agora, essa característica é bem controversa, pois já ouvi depoimentos (veja post “Passe-livre”) de ocidentais que tem fisionomia oriental, e essas pessoas não são tão bem tratadas assim.
Algo que também acrescento nesse tópico é que o coreano, no intuito de ser agradável, cordial e simpático, vai tranquilamente deixar seu gosto ou vontade de lado para te agradar. Portanto, se um coreano te convida para jantar e você diz: “Ok, então vamos a um restaurante indiano.” E esse coreano detesta comida indiana; não interessa, não importa. Ele vai aceitar o convite e se comportar no restaurante como se desde criancinha comesse comida indiana e adorasse aquilo! Portanto, você dificilmente sabe no fundo a opinião clara de um coreano sobre algo pessoal.
Essa talvez seja a característica que mais me entristece neles. Principalmente depois de já ter passado um período na Alemanha, um país onde tudo que não tem o selo “verde” é descartado. E mais ainda, principalmente porque sou bióloga e mergulhadora, defensora dos mares e ecossistemas. O coreano acha que ser “ecológico” é apenas plantar árvores – e fim. Um bom começo, mas não é. Não existe pensamento ecológico como um todo, algo global. Poluição atmosférica, aquecimento global, planejamento urbano humanizado, e conservação dos mares são conceitos tão vagos na cultura deles como física einsteniana avançada. Exemplos? Inúmeros, mas 2 que presenciei:
E é nesse quesito que uma característica marcante do coreano surge brilhantemente: a falta de individualidade. Em nome do todo, do social, do bem-estar geral, as pessoas deixam de lado comportamentos e gostos individuais, para valorizar o coletivo, e terminam por abafar o “eu” delas.
A determinação coletiva foi o que sem dúvida levou a Coréia do Sul de um país paupérrimo e subdesenvolvido da década de 70 a ser um tigre asiático na década de 90 e hoje uma nação plenamente desenvolvida, com 0% de analfabetismo, desigualdade social mínima e índices econômicos impressionantes – num lugar pequeno “onde se plantando, nada dá”. E isso é louvável – penso que se os brasileiros tivessem a mesma determinação (ou talvez 50%), e com os recursos naturais que temos, estaríamos liderando o mundo fácil, fácil. Mas… a exterminação do indivíduo é o que acredito que no futuro trará alguns problemas sérios a essa política. Ninguém massacra o self das pessoas sem pagar caro por isso: seja daqui a 10, 50 ou 100 anos.
O que mais nos impressionou quando chegamos aqui foi a quantidade de igrejas que existem; igrejas cristãs entenda-se bem. Muito mais que no Brasil. O sonho de nação confucionista ou budista há muito se dissipou, deixando lugar para um catolicismo estranho, fora de contexto. Se você é coreano e não frequenta uma igreja, a sensação é de que voce é um excluído social. A igreja é um compromisso social (assim como na maior parte das culturas), mas o fato de que uma igreja ocidental tenha conseguido ser tão forte na terra em que o confucionismo foi criado… ainda não consigo digerir essa informação direito.
Se é que vocês me entendem. Muito além da fisionomia similar (que hoje já não acho tão similar) eles se parecem nos gostos e trejeitos, nos pensamentos, qualidades e defeitos. Na percepção do mundo. Não consigo explicar isso. Quem já visitou a Coréia talvez entenda o que estou falando. Existe uma brutal falta de emoções e sentimentos individuais no rosto das pessoas aqui. Foi na Coréia que realmente tive a sensação de que eles são todos iguais – e nao é no rosto. É literalmente na alma.
Olha, tem mais um monte de características que me recordo, como usar apenas carros coreanos (nunca vi um Ford, Mercedes ou Citröen por essas bandas), mas esse post já está pra lá de longo. Vou ficar por aqui, e a medida que for lembrando mais, ou que meus amigos requisitem mais, vou respondendo ou colocando no caderninho para posts futuros…
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Estava a passear pelo seu blog e achei esse post da Coréia,e claro...huhuhu, parei pra ler.
Como o colega aí de cima, estava adorando ler sua visão sobre o ser coreano...e haha...você é a primeira pessoa que eu "encontro" que é alérgica a pimenta ^^
O "Coreano Médio" é tudo que você escreveu, eu só amenizaria um pouco a questão do Inglês. Numa viagem que fiz para o Japão, Coréia e China o grau de internacionalização linguistica foi decaindo conforme o país, ou seja, No Japão ( 1a parada ), facilidade total de comunicação em inglês e referências ocidentais ( alfabeto, numeros ) em todos os lugares. Na Coréia também não tive dificuldade de me comunicar, não sei se porque procurava sempre os mais jovens para informações. Sinalização ocidental inferior ao Japão. No geral achei o coreano com bom domínio do inglês e colocaria o país a frente de muitos ocidentais. Dificuldade mesmo eu tive na China. Só desenrolei muitas coisas por conta do meu guia que era de Macau e falava português. Mas isto tudo foi em 2005, muita coisa pode ter mudado nestes 5 anos. Abraço!