Li com atraso no World Changing que a revista Canadian Geographic aceitou um desafio supimpa: fez sua edição de junho com 60% de papel feito a partir de trigo. Aparentemente, os leitores não notaram a diferença, e a sensação do papel de trigo era a mesma do papel feito com a celulose do eucalipto.
A idéia de fazer papel a partir de trigo é extremamente interessante, a meu ver. Por 2 motivos: 1) utiliza-se o “galhinho” do trigo que é normalmente jogado fora pelos produtores – que aproveitam apenas o grão para suas vendas – dando portanto função a um “lixo” agrícola; 2) tira um pouco da pressão enorme que a monocultura tenebrosa plantação de eucalipto gera no ambiente [link via GReader do Tiagón].
Cresci no Espírito Santo, um dos maiores produtores de celulose do país. Alta produção devido à presença da antiga Aracruz Celulose – chamada Fibria e que foi incorporada pela Suzano – , talvez a empresa mais greenwashed que já vi. Nos quase 20 anos que vivi por lá, muitas modificações no ambiente (e em outras “cositas”) decorreram da produção em demasia de celulose do eucalipto. Isto entre incontáveis descargas poluentes que a indústria liberava na calada da noite (o cheiro podre chegava na minha casa com frequência).
Eu ainda era criança… Mas lembro do biólogo Augusto Ruschi dizendo nos jornais que o estado sofreria um grave problema hídrico se as plantações de eucalipto continuassem no ritmo que estavam. Ruschi já morreu, mas suas “previsões” foram acertadas. Afinal, o Espírito Santo hoje tem uma área de 220 mil hectares considerada “deserto verde” (e crescendo…), onde só há eucalipto. E, consequentemente, onde lençóis freáticos secam a uma velocidade estarrecedora e o abastecimento de água é problemático.
Dado o gigantesco impacto que o eucalipto produz no ambiente, a notícia de reutilização de um subproduto do trigo para produzir papel é, a meu ver, muito esperançosa. Claro, melhor seria se economizássemos papel, ponto. Mas como na vida real a burrocracia humanidade em geral ainda insiste em existir no papel, tudo que posso dizer é: tomara que as dificuldades técnicas ainda existentes a produção via trigo sejam superadas. Tomara que se torne logo economicamente mais viável usar o trigo para fazer papel. E que em breve toda vez que a gente precisar usar papel, este seja de preferência com uma tecnologia mais ecoconsciente como esse de trigo parece ser. Para, principalmente, aliviar um pouco o avanço desastroso do eucalipto pelo planeta.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
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Lucia, você já visitou a Aracruz para ouvir o outro lado? Tem fontes confiáveis para embasar sua afirmação que "lençóis freáticos secam a uma velocidade estarrecedora e o abastecimento de água é problemático."?
Pergunto porque acho toda esta afronta à Aracruz Celulose um pouco exagerada. Primeiro porque a empresa já está no município desde 1967 e o abastecimento de água na região, até onde eu sei, não mudou. Segundo porque a empresa não tem nenhum interesse em degradar o solo onde planta e ser forçada a procurar outras áreas mais distantes, aumentando o custo do transporte.
Concordo que a empresa não está isenta de responsabilidade pelos danos ambientais que causa e talvez o pior seja a degradação das comunidades indígenas (um dos grandes focos de defesa do Augusto Ruschi). Entretanto, é preciso colocar na balança também os benefícios que uma indústria deste porte gera para o país.
Ricardo, o link q está no texto é de uma reportagem que fala de um estudo da Associação de Geógrafos Brasileiros (uma entidade confiável, a meu ver) sobre o déficit hídrico da região e a problemática de água. Nesse texto da UNESCO, um engenheiro da CESAN (empresa de abastecimento de água do estado do ES) sugere soluções p/ o problema na Grande Vitória, q parece ser cada vez mais iminente dado o crescimento populacional do estado. E cita regiões como Conceição da Barra, q já têm problema grave de falta de água. Pode aparentemente não ter nada a ver diretamente com a Aracruz em si, mas o desbalanço hídrico geral do estado é indiretamente decorrente da demanda excessiva q a Aracruz precisa para funcionar.
O abastecimento de água não muda na região pq a própria Aracruz "desvia" água de outras áreas para suprir a demanda de sua(s) fábrica(s) e daquela região. Os moradores locais não sentem, mas os mais afastados de Aracruz podem estar sentindo.
O eucalipto é uma planta de raiz uniaxial, q vai a profundidades absurdas atrás de água, e dessa forma retira água do solo nessas profundidades em quantidades tbm grandes, desestabilizando todo o ecossistema ao redor para as plantas de raízes menores - que são maioria em mata Atlântica, cobertura original da área. Isso eu vi no curso de biologia, pq meu professor de Ecologia trabalhava exatamente com áreas degradadas pelo eucalipto. Aliás, ele dizia algo interessante: se vc tem um solo ruim e degradado, onde nenhuma outra planta for possível crescer, plante eucalipto, pq ele cresce - devido exatamente às suas características biológicas de busca de água. Pode parecer exagerado todo esse discurso, mas a quantidade de terra que era Mata Atlântica e q foi convertida a plantação de eucalipto nos últimos 30 anos é q me parece muito exagerada. (E que a Aracruz ainda quer expandir.)
Os benefícios econômicos são mesmo enormes da indústria para o estado e para o país, mas isso não livra empresa alguma de responsabilidade sócio-ambiental, como vc mesmo disse. Entretanto, o ponto do post é q eu espero num futuro não muito distante que nos livremos um pouco dessa dependência da celulose do eucalipto e passemos a usar a celulose do trigo para fazer papel, aproveitando um subproduto já existente. Ou de outra tecnologia menos danosa ao ambiente. Há alternativa; no futuro pode passar então a ser uma escolha de cada um. Já pensou q legal? :)
E respondendo sua primeira questão: sim, já visitei a Aracruz.
Muito obrigado pelos esclarecimentos. Certamente refletirei mais sobre o assunto.
Puxa, que idéia bacana!
Eu fiquei feliz esses dias: fui na Starbuck e me surpreendi ao ver que o guardanapo era de papel reciclado_ e não era duro, era macio. Achei uma bela iniciativa!
Ricardo, sinta-se à vontade para intervir e dialogar por aqui quando quiser. A conversa educada sempre agrada. :)
Má, tem coisas maravilhosas feitas com papel reciclado que nem parecem ser "recicladas". Muito legal.
Beijos aos 2.
Dizem que o Eucalipto só consome àgua enquanto està crescendo, òtimo, ele passa 7 anos crescendo e quando para è hora de cortar. Plantar outro na entrelinah. No final de duas "safras" temos exatamente a mesma massa que foi cortada, enterrada no solo.
Para aproveitar as àreas usadas, sò arrancando as raìzes. Para falar a verdade nao entendo como eles ainda nao acharam um jeito de aproveitar todo este volume que fica enterrado.
Lucia,
que coincidência, eu trabalhei por quase dois anos na Aracruz Celulose antes da inauguração da fábrica (da primeira linha), morei no Coqueiral, em Nova Almeida e em Jacaraípe... putz, que saudade!
beijocas
PS: sim o cheiro era de matar, eu lembro de ver um sujeito vindo do Pinicão (como chamávamos um tanque de dejetos) e cair duro no chão de tão podre que estava o ar!
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