Era uma vez uma cidadezinha. Em Minas Gerais. Tinha um coreto na praça e uma estrada só para chegar até ela. Uma cidade no fim da linha. Uma cidade no início de todas as outras?

Quando cheguei a Raul Soares pela primeira vez, um sino tocou. Não, não foi o sino da igreja. Foi o sino da minha cabeça, avisando que aquele lugar seria especial.

Pessoas pacatas, comendo pastel na feira ou sentados no boteco da esquina jogando conversa fora. Cena mais que comum em qualquer lugar do país, mas ali, o ar interiorano enebriava os sentidos. O constante aceno de todos – eram todos conhecidos, afinal de contas. “Homáley trouxe os amigos para passar o fim de semana aqui em casa”, era a frase mais dita pela mãe de nosso amigo que nos hospedava, seguida de um relato preciso de que éramos estudantes de Viçosa, e que alguns de nós estavam ali para participar de um concurso de bandas. Quem já presenciou concurso de bandas em cidade de interior sabe o quanto eles são importantes para animar o local. Geram histórias e mais histórias para muito tempo, imortais nas cadeiras de barbeiro ou nos bancos da praça.

Como é tradição, um grande churrasco nos aguardava na casa do nosso hospedeiro. Éramos 6 jovens, descobrindo as nuances do interior mineiro. Haja pão de queijo para tantos estômagos famintos de aventuras.

Na época, eu era metida a fotografar – hoje eu não fotografo, apenas me distraio e registro momentos pessoais. Naquela época, eu levava a fotografia a sério: tinha uma máquina profissional, apetrechos e lentes, além de sacadas interessantes. Adorava captar a delícia de ser mineiro. Adorava a desconfiança das pessoas, que logo era desfeita por um sorriso caloroso e um convite pra um “cafezim”. Adorava o cheiro das montanhas e do leite fresco que ia virar queijo. Adorava o mistério mineiro.

Raul Soares não tem absolutamente nada que desperte a atenção de um guia de viagens – nem precisa. Tem uma ponte antiga por cima de um riozinho qualquer. Tem a certeza do interior em seus paralelepípedos gastos. Tem madrugadas frias e caladas de inverno, e o café quente na manhã seguinte. Tem a tranquilidade do amanhã, carregada em chinelos cheios de barro das ruas secundárias. Um amanhã fruto de um tempo contado em amanheceres e entardeceres no topo de um morrinho qualquer, regados à melancolia do pasto no horizonte.

Num estado com tantas pedras preciosas e ouro, cidades para brilhar e diver(c/s)idade, Raul Soares é apenas um pedaço de pedra de segunda, sem muito brilho, cujo valor não é monetário, e sim o que representa para seu dono, as lembranças únicas que carrega consigo. As risadas, piadas e consternações. As discussões despreocupadas sobre o futuro. A acolhida de coração aberto.

Quando cheguei a Raul Soares pela primeira vez, um sino tocou. Não, não foi o sino da igreja. Foi o sino da minha cabeça, avisando que aquele lugar seria especial. E foi.

Raul Soares foi simples como a vida deve ser.

Tudo de bom sempre.

Raul Soares em preto e branco.

*Post dedicado ao Guto e à Mônica. Estava gritando dentro de mim pra ser escrito desde que conheci essas 2 figuras maravilhosas de Minas – e que me inspiraram na nostalgia da Zona da Mata mineira que hoje me acometeu ao finalmente reencontrar via orkut uma das minhas grandes amigas desaparecidas pelos acasos da vida.

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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  • Comentários que estavam neste post quando o blog ainda era hospedado no blogspot:
    "Que post lindo, Lúcia. Falou de todas as cidades do interior de Minas, especialmente daquelas da Zona da Mata que não têm nada de gritantemente especial, mas que são cheias de coisas interessantes quando observadas com calma.
    Obrigado pelo post.
    guto | Homepage | 11.22.05 - 11:08 pm | #
    ***************
    Biiiicho...
    Que coisa mais linda. Me fez "alembrar" das minhas viagens às Minas Gerais quando eu era pequenininho...
    Bjs,
    Guilherme | Homepage | 11.22.05 - 11:11 pm | #
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    Ficou muito lindo mesmo o texto. Desses que a gente sente por dentro o que está sendo dito. Lembrei da minha infância e, nos tempos atuais, dos passeios que faço com o Guto pelas redondezas de Ponte Nova.
    Raul Soares não conheço mas, depois desse post, vou fazer questão de conhecer.
    Beijo e obrigada por dedica à gente uma coisa linda assim.
    Mônica | Homepage | 11.23.05 - 12:10 am | #
    ***************
    Realmente viajei contigo! Que saudades que dá! Tá certo, Paula Cândido, Visconde do Rio Branco e até mesmo Ponte Nova (que já é "grande", tem até prédio!), são tão únicas e tão parecidas. Sempre digo para quem quiser ouvir, virei gente em Minas! Quanta saudade, né Lúcia? Ainda bem que temos essas boas recordações e amigos para a vida toda.
    Beijoks
    Flavia | Homepage | 11.23.05 - 10:35 am | #
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    Lucia
    desse lado do globo, lembrar de Raul Soares é brasilidade saindo pelos poros, hein? Muito bom. Viva o Brasil!
    Eduardo Martins | Homepage | 11.23.05 - 10:50 am | #
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    sempre fui um zero a esquerda na fotografia, Lúcia. Prefiro o mundo digital. Uhm, adoro pão de queijo!
    Maitê | Homepage | 11.23.05 - 10:54 am | #
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    Lírico, lindo, simples sem deixar de ser significante. Poesia pura, Malla! Foi isso que você fez nesse post único e posso falar, já é meu preferido...Bjos
    Manu | 11.24.05 - 7:20 am | #
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    Raul Soares era o nome do navio em que meu pai voltou da Europa em 48. Isso não tem nada a ver com o post que está como sempre excelente, mas eu náo podia deixar de registrar isso para os anais da história.
    Flavio Prada | Homepage | 11.24.05 - 8:20 am | #
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    Cara Lúcia!
    Me espantei com a Britney com tanta roupa!
    Achei linda a roupa. Tbém, no país onde vc está, eles não aceitariam acho eu, por questões mais culturais, as saias curtíssimas dela!
    Bjos
    Maitê | Homepage | 11.24.05 - 12:21 pm | #
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    E eu que sou mineira, hein?! Me senti em casa agora!
    Vanessa | Homepage | 11.24.05 - 3:42 pm | #
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    Guto e Mônica, vcs são uma jóia dessa vida mineira!
    Gui, vc ia para onde em Minas quando pequenininho?
    Flávia, muita saudade, né?
    Eduardo, adorei seu comentário! Brasilidade foi uma lembrança linda! Obrigada!
    Manu, anotei sua preferência, hehehe!! Para futuras referências...
    Flávio, Raul Soares foi um presidente do Brasil, acho q por isso o nome dele espalhado por tudo quanto é canto.
    Maitê, acho q ela só quis "radicalizar".
    Vanessa, então se aprochegue pra prosa e toma um cafezim tbm!
    Beijão a todos!
    Lucia Malla | Homepage | 11.24.05 - 10:37 pm | #
    ***************
    O texto ficou tão lindo quanto a cidade. Parabéns. É minha terra natal.
    Evaristo | 06.21.06 - 10:28 am | #
    ***************
    Fantástico.
    Lindo.
    Maravilhoso.
    Brilhante.
    Estupendo.
    Me fez chorar.
    Abs
    Homáley | 12.04.07 - 12:54 am | # "

  • Queria entrar em contato com alguem da cidade por que meu avo morou muitos anos ai.Já conheço a cidade sei que é uma cidade pacata,mais gostaria de conheçer alguma pessoa que pudesse me dar noticias dos familiares de meus avos José Neves e Altiva Rodrigues.Tambem tenho primo e prima Adernair e meu tio chama-se Milton,gostaria de ter noticias deles se alguem os conheçer por favor entre no meu e-mail e me comunique. Abraço

  • Nasci nesta cidade que eu jamais vou esquecer,pela sua hospitalidade.
    A praça da igreginha de Sto.Antonio tinha o nome do meu pai ( Antonio Anastacio )mas foi retirado e eu ainda não sei porque fizeram isto.
    Me mudei de Raul Soares em 1945,mas ja voltei la duas vezes e pretendo voltar la.

  • Sou de Raul Soares e atualmente moro em outra cidade, mas amo este lugar. Quando li este texto, consegui visualizar cada momento descrito... Parabéns pela linda mensagem e obrigada pela homenagem à minha amada cidade natal...

  • quero muito conhecer esta cidade pois o meu amor mora na redondeza.
    talvez nas férias de julho.
    acho que vou amar.
    bjs odete

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Lucia Malla

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