Mallices

O que você vai ser quando crescer?

Acho que todos já ouviram essa pergunta alguma vez na vida. Vinda dos pais, parentes, amigos ou conhecidos. Na escola, em casa, ou na festinha de aniversário da vizinha. De alguma forma, o futuro incerto não tem vez: as pessoas precisam de definições. E parece que enquanto você não veste a camisa de uma “profissão” qualquer, as pessoas ao seu redor não sossegam – principalmente, você não sossega. Precisa saber qual xiszinho marcar no formulário de inscrição do vestibular. Expectativas, expectativas.

Para mim, ao terminar o segundo grau na escola, não havia dúvida alguma: eu faria Biologia. Nunca sequer cogitei outro curso ou rumo. Já havia feito vestibular como treineira antes, aprendendo os macetes da prova mais dor-de-cabeça que o sistema educacional criou. No auge dos meus 17 anos, tinha certeza de que queria entender de moléculas, de genes e de plantas. Mas sei que essa decisão toda é algo raro entre aborrescentes, e muitos dos meus amigos calouros de faculdade eram “médicos frustrados” – alguns largaram a Biologia para tentar Medicina de novo, outros se acomodaram, a maioria terminou aprendendo a gostar mais do curso e encarar a Biologia como profissão mesmo (e em geral estão felizes com a decisão).

Se não tive muito medo do vestibular, no último ano de faculdade, comecei a me preocupar de verdade. Afinal, até então, eu tinha absoluta certeza do que gostaria de fazer. O futuro era sempre “certo”. Mas depois que você se forma, parece que o futuro depende mais de variáveis que não sabemos controlar – como o mercado de trabalho, por exemplo – e a incerteza brota. Além do mais, fui comodamente estudante a vida toda, e estudar era a única coisa que eu sabia fazer. A formatura representava a entrada em um mundo novo, desconhecido.

Muitos dos meus amigos, ao se formarem, continuaram suas carreiras acadêmicas, entrando no mestrado, depois no doutorado. É, aliás, a sequência lógica. Mas eu não queria naquele momento continuar na academia científica. Tinha uma formiguinha no meu ouvido dizendo: “Vá conhecer o mundo!” Embora todos pensassem que eu, uma apaixonada por biologia desde sempre, tinha como certa a ida pro mestrado, resolvi no último ano surpreender a todos, e começar a me acostumar com as incertezas reais do futuro que estavam por vir.

Primeiro, apareceu uma proposta de emprego numa indústria de alimentos. Dezenas de candidatos para uma vaga. Fui fazer a entrevista em Belo Horizonte, e não passei nem da primeira fase. Claro, estava acostumada com o ritmo da faculdade, não sabia como me portar numa entrevista, responder de forma correta às questões, e principalmente, dancei feio naquelas dinâmicas de grupo psicológicas que até hoje não entendo bem o que analisam. Encarei essa “derrota” como um grande aprendizado: precisaria me esforçar mais para garantir minha vaga, entender melhor as regras do jogo. Comecei então a olhar em anúncios de emprego o que eles pediam mais, e esbarrei no óbvio: inglês fluente. Estudei inglês desde meus 9 anos de idade, mas sempre soube que fluência você só adquire quando submerge na cultura da língua estrangeira, dormindo e acordando com pessoas ao redor falando a língua a ser apre(e)ndida. Foi aí que veio a segunda oportunidade.

Li em algum lugar (não me lembro onde) sobre um programa de estágios no exterior, para estudantes em final de curso. Era tudo que eu queria naquele momento. O programa (chamado IAESTE) baseava-se em pontuação, e o candidato adquiria os pontos através de uma prova básica de inglês, de seu currículo e da oferta de um estágio e/ou alojamento no Brasil a um estrangeiro – era um programa de reciprocidade. Não consegui oferecer estágio nem alojamento algum (o que me fez perder pontos), mas não desisti. Fiz a prova de inglês, e aguardei o resultado ansiosamente. Eis que alguns dias antes da minha formatura, veio a resposta: eu estava selecionada, e tinha 3 opções de estágio – Alemanha, Croácia e Argentina. Só um problema: na época, eu trabalhava com genética de plantas. Na hora de preencher o formulário, eu tinha “simplificado” as coisas, e coloquei apenas “biologia de eucariotos”, que engloba praticamente tudo em biologia exceto bactérias e vírus. E as opções que vieram nada tinham a ver com plantas. Escolhi um laboratório de tecido adiposo na Alemanha pela razão mais patética possível: queria conhecer Berlim que, desde a queda do muro em 1989, tinha se tornado um sonho adolescente. Ou seja, minha escolha nada tinha a ver com biologia em si.

Mas o alívio foi inacreditável. Fui para a formatura sabendo que em breve, estaria saindo do país pela primeira vez, realizando um sonho e estagiando temporariamente num laboratório, meu hábitat. Não estava empregada efetivamente, mas estaria aprendendo um pouquinho – na época, achava que era só um pouquinho, hoje vejo que foi simplesmente fundamental para meu crescimento profissional e pessoal. Fui para o estágio sem muita expectativa, porque todas minhas expectativas estavam no fundo resumidas em andar por Alexanderplatz ou atravessar o portão de Brandemburgo.

Momento de alegria, a formatura também é um momento de transição e inseguranças. Nessas horas, correr atrás de uma boa oportunidade foi a melhor opção: realizei o sonho de atravessar o Portão de Brandemburgo, em Berlim. (A foto abaixo foi tirada do lado ex-oriental, em frente a embaixada da Hungria, às 7 da manhã. Repare no guindaste à direita: Berlim era um grande canteiro de obras quando lá estive. Immer Baustelle.)

Fui. O estágio era em Potsdam, a inacreditáveis 30 minutos de Berlim. Fiz vários amigos na Alemanha, e pelo menos 5 foram depois me visitar no Brasil. Ainda mantenho contato com a maioria. Vi de perto a dinâmica de um laboratório no exterior, experiência que por si só já veio de bônus para meu currículo, mas principalmente vi a dinâmica da vida num país diferente. Vi o comportamento de outra cultura. A primeira vez em que se é estrangeiro é inesquecível, sempre. Os choques culturais, as dificuldades, as pequenas alegrias, as grandes conquistas do dia-a-dia. A Alemanha, por questão de oportunidade, foi a minha porta de entrada para uma nova visão da realidade, um outro lado da moeda.

Quando voltei pro Brasil, veio a insegurança de novo: “E agora, o que fazer?” O medo de não conseguir emprego, a dificuldade para se inserir no mercado de trabalho, de ter perdido o pique de estudo (estava em ritmo de mochilagem pela Europa, dormindo no meu saco de dormir por quase 6 meses…), tudo isso passou pela minha cabeça. E o acaso me trouxe mais um obstáculo: uma doença grave na família. Larguei tudo, por mais um ano. Não pensava na minha carreira objetivamente, não lia jornais científicos, mas continuava estudando por conta própria o que passava pela frente. Nos intervalos da fisioterapia, sempre estava lendo um livro ou tentando entender o que se passava com o organismo naquele momento difícil. Discutia com o médico, aprendia um pouco de neurologia na prática. Converti um tempo “perdido” em tempo ganho de conhecimento que, embora naquele momento não enxergasse, me ajudou a trilhar os meandros da ciência com mais sutileza.

Quando a situação se estabilizou, percebi que era hora de voltar a focar na minha carreira, e voltou a pergunta: “O que fazer?” Eu já estava há quase 2 anos fora do mercado de trabalho tradicional – na realidade, nunca havia me inserido nele direito. Mas tinha alguma experiência de vida – “mas isso todos nós temos, de um jeito ou de outro”, pensava. Resolvi arriscar o mestrado num campo novo, numa cidade nova, com pessoas que nunca tinha visto na vida. Recomeçar de novo – mas não do zero, e sim a partir da experiência acumulada no período em que para muitos eu parecia ter “perdido tempo”. E deu certo.

Sair do país foi para mim a melhor experiência possível, porque, muito mais que aprender inglês (meu objetivo inicial), foi o contato com uma nova realidade, com comportamentos e hábitos novos, sentindo tudo na pele, ao vivo. Mas foi principalmente a realização de um sonho pessoal. Cada um constrói seu futuro com as suas experiências pessoais, com seus pequenos sonhos. Cada um tem uma história para contar. Olhando para trás, agora, vejo que as oportunidades aparecem na vida da gente – e se não aparecem, a gente as cria. Saber aproveitá-las, e principalmente, saber transformar eventos negativos em resultados positivos depende de cada um, da sua forma de encarar o mundo, do seu jogo de cintura perante as dificuldades. Críticas e elogios fazem parte do jogo, mas o xeque-mate, quem arquiteta e planeja é somente você. Choose life, always.

Tudo de bom sempre.

*Maitê, espero que esse texto tenha respondido a sua pergunta… 😉

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Comentários que estavam neste post quando o blog ainda estava hospedado no blogspot:
    "Entendi sim Lúcia. Ainda bem que eu pde falar com pessoas como vocês, que tem uma vivênmcia importante.
    Vou convencer meu pai e em setembro de 2006, após a formatura, vou me mandar. A gnete fica numa escola lá, estudando, trabalhando... Vai ser legal poder ir pra África tbém!
    Obrigada Lúcia!
    Um bjão
    Maitê | Homepage | 11.18.05 - 12:44 am | #
    *******************
    oi Déia
    Parece q escreveu não só p sua amiga, mas p mim tb. Antes de entrar no seu blog eu ia começar a olhar linhas de pesquisa para o mestrado. Estou aqui no lab sozinha tentando trabalhar, mas com a cabeça a mil e com a mesma pergunta:"o que vou fazer daqui p frente?". Fora dúvidas como se tento mestrado p UENF e continuo fazendo o q faço, mas sem vontade de ficar em Campos, ou se tento mestrado p fora e com linhas de pesquisa q eu tb goste...
    P.S.:hj consegui algumas fotos com as meninas q foram p o chile cmgo e te mando algumas.
    beijão, com saudades beta.
    Roberta | 11.18.05 - 4:45 am | #
    *******************
    Lúcia, Belíssimo post e lição de perseverança. Estou indicando pra minha filha (que está fazendo vestibular este ano) com a recomendação que o repasse para seus amigos.
    Viva | Homepage | 11.18.05 - 5:29 am | #
    *******************
    Ah Déia esqueci de te contar q estive em Viçosa de domingo a quarta e só imaginava vc por lá. Fiquei impressionada com o tamanho da Universidade e com o tamanho da cidade!Até andei a cavalo lá pelos lados do "fundão" ou são josé do triunfo. Vc conhece?perto da estação de reciclagem.
    Bjs Beta.
    Roberta | 11.18.05 - 5:40 am | #
    *******************
    Ih, mas agora você criou uma outra pergunta - como, depois disso, você foi parar na Coréia do Sul?
    É, acho que a vida profissional de muita gente não é uma linha certinha, ascendente, é sempre cheia de desvios, interrupções... A minha tem as curvas mais loucas, decisões erradas, portas que se abriram quando eu menos esperava... No momento não estou fazendo nada para avançar minha vida profissional, priorizando o filho e a estabilidade, mas daqui a alguns anos com certeza quero dar uma mexida grande.
    Beijão.
    Leila | Homepage | 11.18.05 - 5:59 am | #
    *******************
    Ai estou agoniada... Consegui consertar o blog, mas acabou não dando tempo de postar sobre o dia do diabetes (e eu odeio postar atrasada, então desencanei). Saco! =[ Na verdade nem consertei totalmente, está tendo vários erros... Vou acabar deletando tudo! Beijos.
    Roberta de Felippe | Homepage | 11.18.05 - 6:31 pm | #
    *******************
    Bom, vamos lá:
    1) Eu escuto essa pergunta TODO dia...
    2) Eu desde os 13 anos sabia o que queria fazer. Acabei fazendo vestibular p/ Letras/Tradução na UnB por outros motivos...
    3)Vestibular foi uma das coisas mais FDP pelas quais eu já passei na vida. Se não tivessa passado até hoje me sentiria um...sei lá...
    4)Parabéns, Malla! Isso veio de muita coragem, mesmo que na época você não estivesse consciente disso...
    5) Entrevista é o seguinte, né? Além de te ensinarem macetes, no 2º grau deveriam ensinar técnicas de entrevista também. Ou na facul...
    6) VOCÊ PODIA TER IDO P/ A ARGENTINA E NÃO FOI ??????!!!!!!!!!!!!!
    7)Surpresas (agradáveis) são das coisas boas da vida, é ou não é?
    Se sentir um peixe fora d'água é uma experiência inigualável. É pena que pouca gente o faça...
    9) Por que é que as pessoas, quando nos vêem lendo acham que não estamos fazendo nada?
    10) Levanta, sacode a poeira, etc, etc...
    11) " Críticas e elogios fazem parte do jogo, mas o xeque-mate, quem arquiteta e planeja é somente você."
    Guilherme | Homepage | 11.18.05 - 6:58 pm | #
    *******************
    Oi, Lúcia! Nossa...esse post me fez pensar muito. Eu desde menina queria ser dentista. Tive um problema sério de saúde e a convivência com médicos só me fez ter mais vontede em fazer algo na area de saúde. Antes diss o, escrevi algumas linhas para um fórum de de discussão da revista "Marie Claire", mas nem lembrava mais disso. Até que veio a reprovação em Odonto e aquele desespero de não saber o que fazer. Até que chegou uma carta que clareou tudo: Era da Marie Claire, perguntando se eu era da area. E por que não? Resolvi fazer Jornalismo, e sabe? Hoje não me imagino fazendo outra coisa.Tanto que vou fazer mestrado em História da Arte- uma outra paixão- em Bh. Me interessei bastante por esse programa de que falou. Poderia dar detalhes? Vc precisou aprender alemão ou o inglês bastou?Melhor parar por aqui...escrevi demais...rsssBjo.
    Manu | 11.18.05 - 10:13 pm | #
    *******************
    Lindo post, realmente nem todo mundo sabe o que "quer ser quando crescer" quando sai da escola, até porque ainda é muito cedo... eu tô sempre redescobrindo o que "eu quero ser"... sua história foi muito bacana, Malla! beijoca
    ps.: é fofo como a gente já fica conhecendo nossos amigos blogueiros, né? na primeira frase, eu sabia que o comentário era do Gui... hehehe... (beijo pra ele também!)
    Denise Arcoverde | Homepage | 11.21.05 - 3:01 pm | #
    *******************
    Maitê, de nada! É um prazer ajudar!
    Beta, minha filha, depois vc vai me contar tintim por tintim essa história de passeio de cavalo... sei, sei...
    Viva, esse texto só não pode virar powerpoint presentation, que eu colaboro com a campanha do Inagaki. hehehehe!
    Leila, essa história aí é mais longa ainda... quem sabe um dia eu conto...
    Roberta, don't worry, be happy. Problemas acontecem.
    Gui, o seu comentário animou meu dia!!!
    Manu, às vezes quando a gente menos espera encontra o caminho...
    Denise, redescobrir-se sempre é uma delícia, não é?
    Beijão a todos!
    Lucia Malla | 11.21.05 - 11:15 pm | #
    *******************
    Agora já posso comentar aqui! hihihi
    tô adorando seu blog e ser sua amiga agora não-mais-secreta. Sua inxirida!
    Beijoks
    Flavia | Homepage | 11.22.05 - 9:40 am | #
    *******************
    Eu queria ser cientista, usar um guarda-pó branco e trabalhar em um laboratório. Mas eu tinha 3 anos e ainda não sabia das coisas. Depois cresci (não muito) e decidi que queria ser rico. Continuo querendo, mas acho que falta empenho.
    Allan | Homepage | 11.22.05 - 6:48 pm | #
    *******************
    Flavia, fico feliz q a gente tenha se "esbarrado" pelo amigo X - com tantas coisas em comum no passado! Muito legal!
    Allan, eu tenho 30 anos hoje, e ainda não sei das coisas. Sou cientista, de guarda-pó branco num laboratório.
    Beijos aos 2.
    Lucia Malla | 11.22.05 - 10:56 pm | #
    *******************
    Muito legal vc falar da sua vida no dia do meu aniversário. Brigadinho!!!
    P.S.:Eu sou a filha da Patricia, de Vitória, lembra? Visita meu blog!
    Tchau...
    Carol | Homepage | 08.24.06 - 11:23 pm | #
    *******************
    Ola, eu estou pensando em fazer IAESTE, mas estou com muitas dúvidas.
    Primeira quanto tempo dura o estágio? Segunda você realmente trabalhou na area ou fez serviço de empregada?Terceira foi dificil conviver com o pessoal do trabalho ou te aceitaram numa boa? Quarta foi facil conseguir um alojamento ou voce ficou em casa de familia? Quinto qual compensa mais casa de familia ou alojamento? SExta e Ultima qual foi o total que voce gastou pagando todas aquelas taxas contando com os extras de passagem, visto etc???
    Obrigada por sua atenção
    Carla
    Carla | 11.23.06 - 10:19 pm | #
    *******************
    Carla, se vc me passar um endereço de email eu posso responder a suas questões... ou me escreva em particular, no meu email q está no final da página. Como o próprio post diz, eu trabalhei na área, mas acredito q o mais importante de tudo é a sua mentalidade antes de sair do Brasil, ou seja, o q vc quer com o seu estágio, os seus objetivos, etc. A possibilidade de sucesso fica maior quando seus objetivos são mais claros. Os meus foram alcançados plenamente.
    Obrigada, Lucia Malla.
    Lucia Malla | Homepage | 11.26.06 - 10:53 pm | #"

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Lucia Malla

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