Este livro sobre “sede” me “caiu” em mãos via propaganda no Kindle. Não li sinopse nem crítica ou comentário algum. Mas resolvi encará-lo mesmo assim. Tive uma grande surpresa.
O livro aborda uma faceta muito mais complexa e virulenta. Conta diversos casos (e alguns “causos”) de gerenciamento e administração pública da água. Enfatiza o quão prejudicial para as próprias cidades é o poder corporativo incentivando a chamada parceria público-privada. Nesta parceria, as prefeituras em geral são “convidadas” a arrendar parte da administração do sistema de água e esgoto para grandes conglomerados privados, em troca de dinheiro, claro. Num primeiro momento, uma suposta economia, já que o governo não precisa mais arcar com os gastos deste serviço, folha de pagamento, etc. Mas a longo prazo, um verdadeiro desastre, dadas as consequências sociais, ambientais e políticas de tal escolha.
Porque pense bem: se uma empresa vende a água, o que ela mais quer é mais clientes, para que seus lucros sejam garantidos – e só aumentem. Mais clientes = mais gasto de água. Numa época em que a água é vista como um recurso precioso, incentivar seu gasto desmedido não me parece sensato – embora nenhuma das empresas o faça abertamente, o fazem indireta e/ou discretamente, incentivando mais empreendimentos imobiliários e industriais de forma desenfreada = mais clientes. Há alguns exemplos citados no livro de locais onde ocorreu desmatamento e/ou destruição de mananciais e áreas de proteção ambiental para a ampliação do número de clientes e maior geração de lucro, em diferentes estados americanos.
“Thirst” é parcial e não esconde isso. Não mostra em momento algum a tentativa de nenhuma empresa de se “explicar” perante seus erros e maracutaias. Mas acho que nem precisa. Porque todos os exemplos dados são de casos que, ou foram à Corte americana, ou foram extensamente noticiados pelos jornais. Ou seja, as pessoas de alguma forma ouviram o outro lado. O capítulo discutindo o sistema de água da cidade de Atlanta – e o desastre completo que foi quando tal sistema passou a ser propriedade de uma multinacional francesa – é particularmente interessante. Principalmente pela abrangência de problemas que uma cidade de porte maior numa empreitada destas pode expôr.
Não sei se no Brasil há alguma lei que permite (ou não) a formação destas parcerias público-privadas no gerenciamento de água de uma cidade. Mas aqui nos EUA é comum, e várias cidades entregaram tal “problema” (sim, as prefeituras foram levadas por campanhas de marketing bizarras dos grandes nomes do business a crer que gerenciar um recurso do qual a população toda depende só gerava gastos inúteis) nas mãos de um conglomerado – e o que o livro mostra é que todas as cidades que o fizeram se arrependeram amargamente. E é aí que meu lado malla começa a coçar: não houve nenhum caso de cidade que não se arrependeu? Porque de acordo com o próprio livro, há milhares de cidades pelo mundo usufruindo de sistema de água privatizado. Enfim, senti falta deste contraponto, pelo menos para a parcialidade não ficar tão desproporcional.
Por conta deste livro, me animei a procurar informações sobre o sistema de água aqui de Honolulu, onde moro. Felizmente, a cidade controla e gerencia todos os recursos de água, via Board of Water Supply, um órgão do governo da cidade. Os diretores deste órgão são escolhidos pelo prefeito. Por causa da situação delicada e única do estado do Havaí, onde toda a terra é pertencente aos havaianos (a ‘aina), a água é considerada um recurso de propriedade do povo havaiano. E para os demais habitantes, “invasores brancos e asiáticos”, nos é dado porém o direito de usufruir. E como tal, somente o governo pode gerenciar. Interessante.
Apesar do tom bem ativista, gostei bastante do livro. Afinal, a privatização da nossa conta de água é um lado da moeda que a gente discute muito pouco a meu ver, preocupados que estamos com as garrafinhas de água mineral em embalagens plásticas. Talvez, aliás, uma estratégia de desvio de atenção que as empresas propositalmente deixam correr para que não nos foquemos nas questões mais ameaçadoras do patrimônio delas. É instigante e fundamental perceber como a política está ali, coladinha com a questão ambiental. Sob formas e em momentos que a gente pouco imagina – e se imagina, não parece se importar tanto. Devíamos, pois, pensar no atacado da questão da sede. E “Thirst” decerto abre os olhos para essa necessidade.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Não sei se no Brasil há alguma lei que permite (ou não) a formação destas parcerias público-privadas no gerenciamento de água de uma cidade.
Existe e, o que é pior, não são as cidades que administram esse serviço público: são os Estados. As cidades podem reclamar à vontade que não são ouvidas.
João, mas, mesmo sendo o Estado, vc sabe se é permitido a ele entregar o serviço de abastecimento a uma empresa privada? Ou se há alguma lei q proíbe?
Lúcia, ontem tentei ler esse artigo, mas não consegui. Mas hoje voltou a funcionar 100%!!
Então se voce se interessa pelo tema recomendo voce dar uma olhadinha no livro "Água doce no século XXI: serviço público ou mercadoria internacional?"
A autora Maria Lúcia Navarro Lins Brzezinski, fez a o mestrado e esta terminando o doutrado sobre o tema. Ela é super minha amiga, fomos juntos para Alemanha em 2005 com uma bolsa do DAAD.
Bjos
Pelo pouquíssimo que sei de leis ambientais, como no Brasil a água é um bem de todos (a água não tratada), creio que essas parcerias ocorram quando uma empresa do governo que gerencia o tratamento e distribuição de água necessite, mas somente para auxílio técnico. Pois uma empresa só têm direito de vender a "água" uma vez que possui propriedades com tal recurso natural, (assim como as empresas de água mineral). Mas novamente, posso estar errada.....mas uma coisa é certa de tudo isso: No Brasil, a briga por levar água a populações que não tem acesso, (velho caso do "nordeste"), é sem dúvida a questão mais relevante, pois quem está de olho nessa água toda são os grandes fazendeiros, que querem aumentar suas produções = lucros (aí entra a questão da transposição do Rio São Francisco). Ou seja, de um jeito ou de outro, caímos na ambição de um grupo pequeno de "pessoas".
Lucia, no Estado do Rio de Janeiro as cidades é que tem o controle e aqui em Campos existe a concessão para uma empresa privada. O mesmo ocorre em algumas cidades do litoral fluminense.
Antes da concessão não se tratava esgoto na cidade que tem cerca de 500 mil habitantes. Agora já alegam tratar mais de 60% do esgoto.
Enquanto estava no comando do Estado não acontecia nada.
Mudando de assunto, sempre dou uma passada por aqui e adoro o seu blog!