Ecologia & meio ambiente

Wetlands: onde o ecossistema terrestre encontra a água

Hoje, 02 de fevereiro, é o dia mundial das Zonas Alagadas ou Wetlands. Prefiro o termo em inglês, que é o que utilizarei no decorrer do post. Mas podemos usar também o termo zonas “alagadas”, que não é o mais adequado – porque, afinal, há wetlands que não são muito “alagadas”.

Definido na Convenção de Ramsar, no Irã em 1971, o Brasil só ratificou a data em 1993. Desde então, o país declara perante o mundo possuir 7 áreas cruciais de wetlands. Digo cruciais porque dentre elas está a maior área contígua de wetlands do planeta, o Pantanal Matogrossense, além de uma área úmida imprescindível à saúde do planeta, a Amazônia inundada – cujo exemplo mais claro está na reserva de Mamirauá, no estado do Amazonas.

Características dos wetlands

A principal característica das wetlands é o óbvio: a umidade natural, em períodos do ano ou próxima ao solo no ano inteiro. São locais onde ecossistemas terrestres se encontram e se permeiam com ecossistemas aquáticos, ou seja são regiões “de fronteira” ecológica. Só que diferente da separação que o termo fronteira sugere, o wetland se torna um misto dos dois mundos, e os seres vivos que lá se estabelecem precisam se adaptar à constância da água ao derredor, ao regime de marés e/ou chuvas que trazem a intensa umidade ao ambiente. A biodiversidade nessas áreas é, como consequência, gigantesca.

Wetlands no Brasil

Em comum às duas principais zonas alagadas brasileiras, há o fato de serem planícies “no interior”, longe do litoral – na Flórida, os Everglades chegam ao Golfo e fazem um verdadeiro emaranhado de trajetos inundados. A água, elemento abundante nos wetlands, “percola no Everglades; “escorre” pela Amazônia; já no Pantanal, ela “transborda” da bacia. Em ambos, é o regime anual de rios que geram a umidade peculiar. No Pantanal, o rio Paraguai e o Paraná fazem com que a bacia encha de água, sendo que o ecossistema atua como se fosse uma “esponja” desses rios. No Amazonas, o rio Solimões (que vira Amazonas depois) fica mais caudaloso com as geleiras derretidas dos Andes durante o verão e com a drenagem dos rios da região.

Área inundada da floresta Amazônica, wetland fundamental do Brasil.
Dois jacarés caimans (Caiman crocodilus yacare) do Pantanal., outra área de wetland fundamental do país.
Um maguari (Ardea cocoi) em seu ambiente pantaneiro
Cena típica do Pantanal Matogrossense ao pôr-do-sol, na estação chuvosa.

Wetlands ameaçados

Ambos são ecossistemas ameaçadíssimos. Aliás, assim como todas as demais áreas de wetlands do planeta, da região polar aos trópicos, da Alemanha à China. Calcula-se que 400 milhões de pessoas dependam de áreas de wetlands para sua sobrevivência, aproveitando os recursos fartos que em geral elas oferecem. Muitos ainda acham (ou achavam) que wetlands são áreas “terminais”, onde dejetos podem ser jogados sem problema algum (chamavam-nos de “wasteland“). Essa visão preconceituosa acarretou uma demora enorme para entender as reais leis naturais que regulam esse complexo ambiente.

Hoje, mineração, abuso das indústrias, criação de represas, agropecuária indiscriminada, e mais recentemente, aquecimento global, são as maiores ameaças aos wetlands. Pior: já há quem pense qual o valor de preservar uma área que provavelmente desaparecerá com a subida dos mares. Salvar animais que se extinguirão de qualquer jeito? Gastar dinheiro resguardando a flora que ficará submersa? Principalmente nos wetlands litorâneos, como os estuários, essa é a questão mais complexa que as organizações ambientais e governos ambientalmente engajados enfrentam.

Apesar de serem questões válidas, não dá para simplesmente “deixar acontecer” a destruição dessas áreas, seja por uma causa ou outra, já que tanta gente depende hoje de wetlands saudáveis. Ações sociais e ecológicas que mantenham vivo esse ecossistema são fundamentais e devem ser discutidas por todos, mas principalmente deve-se repensar estratégias, de preservação e de exploração. Discussão delicada, mas necessária. Ou vamos ficar só observando enquanto o ecossistema úmido apodrece pela ação humana?

Fica a questão.

Tudo de bom sempre.

P.S.

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Pois é, a ideia equivocada de que nao adianta fazer nada porque vai acabar de qualquer jeito é absurda. É o mesmo que não nos cuidarmos porque vamos morrer de qualquer maneira.
    Ótimas informações, Lucia, obrigada.
    beijo, menina

  • Lucia, obrigada por estas explicações tão claras e detalhadas sobre as wetlands. Sobre a questão de como protegê-los que você colocou, talvez um elemento de resposta seria o tema da data de hoje, divulgar a importância destas zonas para a sobrevivência e a saúde dos seres humanos.
    Beijos.

  • Lucia, que texto maravilhoso! Mas agora tô encafifada com o termo (bom, terminologia é algo importante para mim), e queria entender melhor por que você prefere usar o termo em inglês do que traduzir!

  • Denise, exatamente. É muito inútil sentar e cruzar os braços, seja pro ecossistema ou para a morte. Todos vamos morrer: o problema é o quanto de sofrimento vc quer passar nesse processo... a mesma analogia cabe pros wetlands.
    Maria Augusta, é o q a gente precisa, essa resposta que mostre sua importância social e econômica para muitas pessoas - pq precisa mexer no bolso, infelizmente.
    Silvia, eu prefiro wetlands pq acho um termo mais completo. Não sei qual o termo oficialmente usado em português pelos estudiosos dessas áreas, mas eu gosto mais de wetlands. Isso deve ser influência aqui de casa, onde falamos um quase-dialeto do português miscelaneado com inglês. :P
    Beijos a todas.

  • Lucia, a convenção foi traduzida utilizando o termo "Zonas Úmidas" e é assim, por exemplo, que o Minitério do Meio Ambiente tem se referido a essas áreas nos seus textos. Acho que um caminho é esse que fazemos: escrever para que não esqueçam.

  • Pois é, nem só de Amazônia vive o planeta e a gente se esquece dos outros ecossistemas, tão ricos quanto nossa floresta (embora a mesma seja uma Zona Úmida).
    Beijo!

  • Afonso, obrigada pelo esclarecimento! :)
    Edu, essa blogagem é uma tentativa em meio a folia de lembrar dessas áreas esquecidas - e tão importantes. Obrigada por participar!
    Beijos aos 2.

  • Então Lúcia, vi seu nome a primeira vez no blog Pensar Elouquece. Que bom saber de seu trabalho. Ainda sou nova por aqui, mas o que puder fazer, conte comigo.
    Até mais.

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Publicado por
Lucia Malla

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