Numa conversa sobre divulgação científica esses dias (criticava-se a falta de informações para o público geral do site de um instituto de pesquisa X), um renomado cientista opinou o seguinte: para melhorar a divulgação científica e o conhecimento sobre ciência das pessoas em geral, basta que os pesquisadores sejam extremamente bem pagos. [Viajamos em algo em torno de 250 mil dólares/ano como exemplo de um salário médio satisfatório para a categoria.]
Será?
A gente sempre fala em aumentar salários para cientistas para melhorar a ciência em si, o ato de pesquisar e suas ramificações mais próximas (congressos, colaborações, etc.). Minha pergunta interna foi: será que aumentando absurdamente os salários, isso traria melhoras para a divulgação também?
Mais: seria a capenga mídia científica que temos atualmente em última análise uma consequência do desinteresse pela carreira em si, gerado por sua vez pelo fato notório de que se ganha pouco (e se trabalha muito) na ciência? Ou seria uma característica da média das pessoas (média no sentido estatístico do termo) de não se interessar por ciência? A tabela deste post do Rafael pode ser extrapolada para a vida real também?
O que vocês acham?
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Tenho a impressão que a divulgação científica pode interessar a um grande número de pessoas, se for feita de uma forma acessível, que consiga se aproximar do senso comum geral para promover o entendimento de questões mais complexas.
Eu acho que a segunda opção é mais válida; é a maioria das pessoas que não se interessa pela ciência.
Bom ponto!
Lúcia,
Eu penso que existe um outro problema sério ai... a questão da educação, do ensino de ciência nas escolas. Fala a verdade, como é que um jovem que tem aquelas aulas que são pura decorebas de nomes, que mal chega ao que se considera uma alfabetização científica funcional, vai se interessar por essa carreira?
Às vezes me pergunto qual é a fatia da população que realmente entende o que é divulgado? para quem essa divulgação é dirigida?
bjo
Acho que não precisa de haver um aumento tãão exorbitante assim. Mas que deve haver um aumento grande, isso deve.
Fato é que muitos das pessoas potenciais super-cientistas largam esse ramo pela falta de incentivo (salário). Eu mesmo trabalho em uma área que não tem nem um pouco ha ver com a minha. Porque na minha eu ganharia bem menos e com isso não dá pra eu pagar minhas contas e tal.
Com certeza, Lucia. Isso não quer dizer que o fator "renda" seja motivador exclusivo das pessoas (e dos pesquisadores), mas basta vermos a ocorrência dos termos "pesquisa pura" e "mercado de trabalho" para termos alguma idéia de quanto a primeira e o segundo são ou não "atrativos".
Aliás, é interessante notar que até mesmo na técnica avanços tecnológicos são considerados secundários em detrimento a questões econômicas maiores. Lembra-se do pró-álcool? Se não me engano, estava pululando lá nos idos de 1979. Mas só agora, mais ou menos ligado ao 11/9, o etanol "estourou".
Eu trabalharia como divulgador de ciência com um salário bem menor, inclusive até bolaria um blogue de assuntos aleatórios com curiosidades e fontes alternativas, de graça. (lol)
Mas tua pergunta esconde outra questão, mais profunda: será que a pesquisa pura, e tudo aquilo que ela pode dizer e indicar, enfim, será que o PENSAMENTO atual não é desmerecido em função de critérios exteriores, pouco pensantes?
O comentario da Miriam esta bem proximo do problema. As crianças tem curiosidade, naturalmente. Por que nao manter o pique? Parte do problema pode ser o entusiasmo do professor(ou falta dele). Os professores tem pouco incentivo, tanto profissional quanto financeiro.
Marcus, o problema q eu vejo é q existe um limite tênue entre divulgar de forma correta mas simples, e rolar ladeira abaixo nivelando por baixo e prestando ao final um desserviço ao próprio conhecimento das pessoas. Quem aqui não conhece um exemplo de péssimo jornalismo científico? Só de cabeça eu me lembro de umas 5 besteiras recentes (entre elas notícias de astrologia na seção de astronomia de um portal online...). Essa é minha preocupação: o quanto simplificar?
Marília, às vezes eu penso que essa é a melhor resposta, sabia? Encarar o fato de q as pessoas intrinsecamente não se interessam por ciência. E bolar qqer estratégia para ser mais eficiente na divulgação com isso em mente. Por isso a questão da grana...
Miriam, hj a divulgação é voltada para pouquíssimos. Se vc fizer uma pesquisa rápida sobre os interesses das pessoas ao abrirem um jornal de papel, verá q poucos contabilizam o caderno "ciências" como seu favorito. A resposta passa sem dúvida por educação básica. Mas acho q passa tb por um melhor incentivo (entenda-se $$$$) para a profissão. Adolescentes não querem ser modelos e jogadores de futebol só por causa do glamour: há o fator dinheiro pesando substancialmente. Sabe-se q se bem-sucedido nessas profissões, a recompensa é imensa. Meu pai lida com escolinhas de futebol e repete isso incessantemente: todo pai/mãe acha q tem um Ronaldinho em casa. Mas não apenas acha por conta do talento com a bola: pela grana q o filho pode gerar se for bem-sucedido, pelo conforto q ele pode trazer pra casa.
Cleber, quis exagerar no salário ideal exatamente para elevar a profissão de cientista a um patamar quase-glamouroso. Para expor essa falha do sistema: paga-se mal e consequentemente divulga-se mal, pq poucos são os que se interessam em perpetuar esse conhecimento, e até mesmo fazê-lo encantador, despertando interesse de outros.
Catatau, renda não é exclusivo mas pesa muito. Imagine a cabeça de um moleque de 15 anos, tendo q se decidir sobre o q fazer de seu futuro hj. Em meio à crise, vendo pais se sacrificando para pagar a mensalidade de uma escola particular (qdo isso é possível...). A chance de q esse moleque escolha uma profissão q lhe dê um retorno financeiro mais substancial para aliviar esse peso é imensamente maior, a meu ver.
Sua pergunta spin-off é excelente. Eu tb acho q o pensamento é deixado de lado em prol de externalidades outras.
S. Wayne, concordo, as crianças são curiosas, mas falhamos muito ao fazer essa curiosidade morrer - e fazemos isso talvez pq nossas carreiras na ciência são desintere$$antes.
Abracos a todos.
Entao Lucia, nao acho q aumentar o salario dos cientistas melhora a divulgacao cientifica. Médicos nao ganham mal e nem por isso a divulgacao de doencas e afins é muito melhor. Tenho amigos médicos q detestam o q os jornalistas falam sobre medicina.
Tudo gira em torno do dinheiro. E as pessoas querem sempre mais. Um mundo onde todos ganham muito dinheiro é insustentável, com toda essa população. A sociedade, infelizmente (ou felizmente), é feita na maioria de pessoas que são pilhas (ou gado, como se costuma chamar), trabalhando para fazer a economia funcionar, produzir dinheiro, para, além de outras coisas investir na ciência! E muitas pessoas só se interessam pela ciência se for útil para o homem. Já não sei quantas vezes me perguntaram para que servem o meu trabalho!!
Será que muitas crianças tem o perfil para se tornar cientista? Não basta ser curioso, tem que ter iniciativa, persistência, capacidade de aceitar críticas...Talvez a categoria cientista também possa ser um nicho para pessoas que estão interessadas em ser ricas e ganhar muito dinheiro, principalmente na área da biologia. Isso eu já ouvi de um aluno, que escolheu seguir essa profissão.
E o nível de educação da população vem decaindo a cada geração e no mesmo ritmo o nível das reportagens, porque simplesmente os leitores não conseguiriam entender.
Viajei demais...
Mas aí que está, melhorar o salário de pesquisadores melhora tb a divulgação não apenas porque o salário é motivador individual, mas porque o próprio papel social, a "voz" que uma pesquisa pode ter, é valorizado.
O problema da pesquisa é semelhante ao da educação, e vários outros: em outros países vemos também divulgação científica ruim, mas sobretudo vemos substancialmente coisa boa (e muito da brasileira é apenas requentado disso). Isso porque existe financiamento massivo, e um bom pesquisador não se define apenas pelo talento individual.
Por aqui temos excelentes pesquisadores, em todas as áreas. Mas infelizmente muito desse sucesso não se refere a financiamentos massivos, valorização pela pesquisa pura, desenvolvimento próprio de tecnologias... o que se vê é o contrário: privilégio de financiamento apenas em matéria "aplicada", importação de tecnologia, e o tema corriqueiro da fuga de cérebros.
É claro que no Brasil existe pesquisa, boa pesquisa, e financiamento para pesquisa. Mas deveríamos perguntar o quanto isso é "estrutural", o quanto a pesquisa pura, por exemplo, é prioridade (pois a aplicada é apenas desenvolvimento da pura, grosso modo), o quanto se valoriza pesquisadores em relação às valorizações de outras profissões, e assim por diante. Isso difundiria a divulgação científica, e faria com que um bom pesquisador não o seja somente porque superou os perrengues e desenvolveu individualmente seu talento.