A Aline ficou curiosa quando sugeri, num post passado, que lessem o texto dela sobre conscientização de massa, “mesmo que não concordassem com tudo“. Nos comentários ao meu post, ela expressou sua vontade de saber em quê eu discordaria. Como considero o assunto deveras interessante e minhas “discordâncias” são na realidade poucas, decidi escrever num post. Assim sendo, chamar mais pessoas para essa conversa bacana cheia de perspectiva.

Dois pontos-de-vista

O texto da Aline em si criticava um ponto de um terceiro post escrito pela Paula sobre a hora do planeta – evento do qual também escrevi aqui. A Paula escreveu:

“(…) a campanha está errada porque não ensina como continuar a ação de uma hora. Não dá dicas de como transformar seu estilo de vida, nem sequer pede para que você se preocupe com consumo de energia. (…) E nessas, toda a ideia já se perdeu, toda a chance de conscientização em massa virou demagogia, ficou “para inglês ver”.”

A Aline discorda desse ponto. E, por conseguinte, foi a partir dessa discordância que escreveu seu texto. Nele, o primeiro grande questionamento é em que a “massa” já foi conscientizada.

O exemplo do cigarro

De imediato, ao ler o texto, me veio um exemplo na cabeça: malefícios do cigarro. Afinal, na década de 40 era chiquérrimo fumar, símbolo de status, etc. Foram muitos anos de campanha para que finalmente a informação “cigarro faz mal” sedimentasse para a massa. As pessoas ainda fumam? Lógico. Porque o fato de que houve conscientização não significa que o comportamento não exista.

Mas é interessante notar que mesmo fumantes hoje sabem que fumar faz mal à saúde física. Por quê fumam são outros quinhentos. O que interessa aqui, para fins de argumento, é que a informação fruto da conscientização geral está lá, incutida.

É claro, há diferenças entre conscientizar sobre cigarro e conscientizar sobre reciclagem de lixo, por exemplo. Porque, afinal, a reciclagem requer não só a vontade individual. Requer também uma parcela de estrutura administrativa, sob a forma de coleta periódica, instruções de como reciclar, regulamentação sobre onde reciclar (e para onde levar o reciclado), latões sinalizados pelas ruas etc.

(Aliás, lembrei que tenho um texto pré-histórico sobre o lixo pelo mundo, onde fica grifada a importância da existência de um sistema regulamentado para o gerenciamento do lixo.)

Embora a questão de saúde pública do cigarro requeira uma carga de estrutura do governo para auxiliar na “conscientização”, ainda acredito que esta carga é muito maior na questão da reciclagem e outros tópicos ambientais.

Conscientização e culpa

Mas a Aline também levanta um ponto crucial do qual concordo muito. Ela diz:

“Você produz lixo, a culpa é sua. Temos embalagens pra cada vez menos quantidade de produto, mas a culpa é sua. Que deve consumir menos (sem deixar de estimular a economia nacional, claro), escolher materiais reciclados e recicláveis. Individualmente. Pra ser consciente e escapar dessa coisa amorfa e não-pensante que é a massa.”

À parte a contradição básica que ela pontua e em que vivemos (devemos consumir menos MAS não podemos desaquecer a economia que depende do consumo para se “animar”), a Aline deixa claro algo que também noto no discurso geral de temas “controversos” (como política energética, aborto, etc.): a culpa individual. É preciso que a preocupação com lixo, gasto energético e outros quejandos da questão ambiental sejam amplificados para além do indivíduo.

Não digo para rasgar o manual de faça a sua parte nem acharem que isso é uma grande baboseira. Eu, mais do que ninguém, acredito muito no efeito formiguinha, de cada um fazendo um pouco para que o resultado seja maior que a simples somatória de cada ação. Mas há de se convir que não é jogando culpa para cima do indivíduo que a roda vai girar mais rápido.

O xis da questão é informação

Uma vez que você tenha informação, você tem livre arbítrio e embasamento para tomar a decisão que quiser. E, por conseguinte, vestir a camisa da sua escolha. Seja ela a favor ou contra.

Entretanto, de nada adianta a informação se não houver uma política governamental engajada em ajudar a ação individual. Também não adianta colocar a culpa no indivíduo que não faz xixi no banho, enquanto o governo “esquece” (por causa da economia, talvez…) de cobrar menos desperdício de água da indústria de papel, que gasta horrores de água para cada tonelada de celulose produzida e está levando regiões consideráveis à desertificação.

Ou seja, há um equilíbrio necessário de ações. De um lado, cada um fazendo a sua parte da forma que melhor lhes convier, sem culpa. E, por outro lado, a sociedade como um todo, sob a forma de governos, instituições, indústria etc. fazendo também a parte que lhes compete. Todos com o mesmo objetivo. E aí é que mora a grande dicotomia de novo: será que dá para ter nesse caso objetivos comuns?

Idealmente, todos deveríamos nos preocupar com o ambiente em que vivemos, torná-lo o mais saudável possível, etc.

Mas será que isso é viável no mundo real?

O meu ponto é que a sensação que tive, tanto no texto da Paula como no texto da Aline, é que eles são no fundo um mesmo argumento. Ou melhor, uma mesma tangente. A Paula acha que a “massa”, essa “abstração” retórica composta pelos indivíduos, é responsável para no final das contas “fazer acontecer”. A Aline acha que o “governo, a indústria etc.” são responsáveis, pela ingerência do sistema e que é deles que deve vir o suporte necessário. Nenhuma delas está errada, pelo contrário. Mas, em ambos, há uma entidade abstrata. Algo que em geral quando citado, leva ao esvaziamento da estratégia prática, até a um certo comodismo. E aí, por consequência, nós, que não somos nada abstratos, nos esquecemos de que muitas das “respostas” do governo e das instituições são advindas da mobilização da “massa” (ou parte dela) para as diferentes questões.

O que acho é que a gente precisa dos dois níveis de conscientização e mobilização. Por um lado, pessoas (que formam as instituições e a “massa”). Por outro lado, instituições (que são formadas por pessoas e muitas vezes representam a “massa”). Tentar entender melhor essa dinâmica, até educar – as pessoas não acham que são parte do governo, já perceberam? Agir em colaboração.

De volta à hora do planeta

Nesse sentido, a campanha da hora do planeta (assunto que apertou o botão de start de todo esse papo) falha. Porque só olha para um lado da equação, o indivíduo. E, mesmo assim, nas coxas, porque não educa para a questão energética, foco principal da ação. O indivíduo é um lado importante de se olhar? Sem dúvida. Mas esquece de apertar o outro botão sem o qual a máquina não funciona: o botão das instituições. De como elas devem fazer a sua parte dentro da conjuntura que vivemos. Nesse ponto, concordo com a Aline. Uma campanha mais efetiva seria de mobilizar as pessoas a cobrarem ações do governo. Mas aí daria sono, infelizmente.

É isso. 🙂

(Aline, espero que não tenha se decepcionado com minha resposta cheia de aspas – meio confusa, admito – às suas questões…)

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • dia desses li um dado - na Superinteressante, se não me engano: apenas ~10% do consumo global de água é o causado diretamente pelo indivíduo.
    diante disso, posso viver minha vida sem ter que fazer xixi no box? :P
    concordo muito contigo - informação. tendo informação é possível tomar decisões claras, e efetivamente ocorrer uma conscientização, seja em que nível for. e mudar os hábitos passa a ser mais simples - até prazeroso - porque se compreende que, afinal de contas, fazemos por nós, e pelos nossos filhos e por onde vivemos, por nos sentirmos parte. e é disso que pode surgir uma coletividade diferente - mais do que uma campanha externa e "punitiva"m falsamente agregadora.
    acho :)
    obrigado pela discussão. um beijo!

  • Recado de um velho que já se desgastou muito buscando "conscientizar as massas":
    Em primeiro lugar, sempre dá vontade de desistir... Não foi à toa que São Francisco foi fazer sermão para os lobos. Por mais que você repita, explique, tatue na testa das criaturas a mensagem escrita ao contrário para ser lida no espelho, sempre vai aparecer um palerma que, ou acha que aquilo não se aplica a ele(a), ou acha que não se aplica a uma determinada situação...
    Segundo, as pessoas não são, de modo algum, lógicas. O exemplo do cigarro que você usou, é perfeito (eu sei... eu sou safenado e tabagista...) A compulsão fala mais alto.
    Terceiro, as campanhas devem ser sempre dirigidas ao bolso das pessoas, não a suas consciências. "Cidadania" é uma abstração à qual poucos conseguem chegar. Aponte sempre as vantagens individuais para um determinado procedimento que se quer ver adotado (um bom departamento de marketing é essencial...)
    E — last, but not least — nunca desistir! Não deu certo de um jeito, tente de outro... ;)

  • Olá, Lucia. Belo post. Seria viável sim tornar o mundo mais saudável, desde que haja consciência, educação, informação e continuidade das ações. Claro que não seria da noite pro dia que isso aconteceria, assim como exemplo do cigarro que você deu.
    Bater na mesma tecla, diariamente, é necessário.
    Abraços

  • Comportamento de massa x comportamento individual... polêmica sem fim, como duas paralelas que se encontrarão no infinito (ou não?). O exemplo da 'conscientização' indidivivual e social dos malefícios do fumo é ótimo: prova que é preciso estrutura de 'propagação de uma idéia' e o respectivo insight pessoal. Mas como provocar uma resposta mais efetiva? Além de fazer doer no bolso dos resistentes, poderia também se criar um meio de 'prêmio", "bônus" para quem fizer a 'coisa certa'. Outro exemplo? O uso do cinto de segurança só pegou quando vieram as multas. De qualquer modo, nao recuar nos bons propósitos, claro!

  • Lucia, eu comecei a escrever um comentário, mas ficou tão grande que achei melhor fazer outro post. Eu concordo bastante com vc. Acho que a mobilização tem que se dar em todos os níveis, e é melhor apagar as luzes do que não apagar, afinal.
    O que me frustra é que eu não vejo reflexo desse discurso nas práticas institucionais, e como vc disse, realmente tenho dificuldade pra me ver como parte do governo. Mas enfim. a gente vai fazendo nosso trabalho de formiguinha, e no meu caso, escrever sobre o assunto já virou um pouco disso.
    Bem, o post está lá, e na medida que vc e outras pessoas quiserem, a conversa vai continuando.
    um abraço :)

  • Concordo com a Clarissa! isso precisa ser discutido diariamente para que as idéias não se percam no caminho. Ainda mais em uma sociedade cada vez mais individualista como a que vivemos. Bjos! Vivi.

  • Olha! Adoro quando os assuntos voltam, assim, inesperadamente.
    Então... logo que eu publiquei sobre o assunto eu li o post da Aline. Achei que ela discordava do uso da palavra "massa", do resto, ela até concordava, então, deixei pra lá. E também deixei pra lá porque ela me ofendia, sem me conhecer e sem conhecer o RdC.
    Assim como a Aline, muitas pessoas tem problemas com a palavra "massa", usada (pelo menos por mim) para descrever um movimento repetido por muitas pessoas, menos por atitude e mais por cópia (mais ou menos como olhar pra cima, se alguém está olhando - ainda mais se está apontando).
    Achei sensacional, Lucia, a sua percepção sobre um ponto crucial nessa história. Não é pq se critica uma campanha, ou se apela pela ação pessoal, que se "esquece" da ação necessária do governo, dos órgão "responsáveis", das instituições. O contrário tb não é verdade. Adorei a junção dos dois mundos. Acho que esse olhar é fundamental para que a gente possa atingir um equilíbrio.
    Grande beijo.

  • Tiagón, informação é tudo. E disseminar a informação, prós e contras, preto, branco e tons de cinza. Sem informação, só o que há é a "massa" de manipulação.
    João, mexer no bolso é o q ninguém quer. Nem governo nem indivíduo - embora eu veja momentos de extrema solidariedade dos indivíduos, em q as pessoas não se importam de doar de seu próprio bolso. Mas acima de tudo, mexer no bolso do governo e das instituições privadas... ah, q novela mexicana (pq a gente sai chorando de tristeza).
    E seu last topic é o q me move. Apesar dos pesares, desistir de compartilhar informações nunca! :D
    Clarissa, o único perigo de bater na mesma tecla é ser chato e cansar as pessoas. Mas eu já sou uma malla mesmo... :D
    Dr. Cláudio, seu comentário me fez lembrar de um ponto onde a interseção de tudo (indivíduo, governo, economia) acontece. Acho que merece virar post. :)
    Aline, eu li rapidamente mais cedo, mas agora vou ler com calma para debulhar poder conversar mais com vc. Estou adorando nosso papo. :)
    Vivi, precisa ser discutido diariamente, mas com bom senso, pensando em estratégias mais eficientes e que saiam um pouco do escopo só do esforço individual, vc não acha? As instituições precisam mostrar q tb fazem a sua parte por um ambiente melhor.
    Paula, seu comentário foi extremamente importante, pq elucidou para mim o seu conceito de "massa", o q vc quis dizer quando usou este termo. Eu entendi diferente, confesso, ao ler seu post. E agora percebo em q me equivoquei. O exemplo de olhar pra cima é interessantíssimo, pq é um comportamento humano claro - será q dá pra extrapolar pra atitudes ambientais? (Deve dar, mas esse exercício sociológico é coisa pro Guto entrar explicar mais detalhadamente...)
    Beijos a todos!

  • Eu acho que dá, sim! Quer dizer, sem nenhuma propriedade, só achismo mesmo. Tem muita gente por aí que não usou a "hora do planeta" (vou usar esse exemplo, pq foi o começo de tudo) para conscientizar-se ou conscientizar o outro sobre questões ambientais (que acho sempre necessárias, mesmo que malas e repetidas). Só foi pra rua ou apagou a luz porque o amigo fez, o vizinho chamou, o pai insistiu... meio como comportamento de cópia.
    E nessas, se aproveitando a imensa mobilização de pessoas (mesmo que em cópia), imaginava que o sensato seria passar uma mensagem mais forte sobre a questão - que poderia ser uma mensagem clamando atitudes pessoais (sim, eu acredito nelas) ou poderia ser chamando para "cutucar" o prefeito, o presidente da sede do bairro, o síndico, sei lá quem possa ser "governo" nesse caso.
    Agora... apague a luz, limpe sua mente e relaxe - não dá, né?

  • Puxa vida, Paula, se você se sentiu ofendida era mais fácil dizer a mim, que imediatamente me desculparia e retificaria meu post, pra deixar público que foi minha falta de jeito.
    Sinto muito se fui incisiva demais, não é nada pessoal. Embora sim, eu conheça você e seu blog.
    Um abraço,

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Lucia Malla

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