Parece que há uma campanha mundial para que se apague as luzes hoje, sábado, por uma hora. Li comentários sobre a iniciativa por tudo quanto é lugar na internet. Embora aqui no Havaí, por uma coincidência interessante, não tenha ouvido nada. (Ou talvez não prestei atenção o suficiente, vai saber. É a tal “hora do planeta”.

Acho uma iniciativa louvável, confesso. No papel, pelo menos. A intenção de mobilizar tantas pessoas a apagarem as luzes – e se tocarem da importância e do gasto de energia pessoal – são a meu ver bastante inspiradoras. Seria o simbolismo do efeito formiguinha multiplicado, mostrando que dá certo. Mas confesso também que há algo na iniciativa que me incomoda. Um quê de utopia; de hipocrisia até. Foi a Fal quem melhor definiu a situação, há alguns dias:

“Lá vai a classe média aplacar a consciência pesada apagando luz por uma hora num sei quando. Depois volta a usar carro pra ir pra padaria.”

A Hora do Planeta na prática

Nesse texto da Ana Freitas, a exata dimensão do que o movimento na prática é, infelizmente:

“Mas as pessoas são mesquinhas, e mesmo que muita gente entre na onda da Hora do Planeta, a maioria esmagadora dela vai fazer isso pra aplacar um pouco da culpa por nunca ter feito nada e depois vai voltar pra vida normal.”

É exatamente por essa dimensão apaziguadora que fico triste. Porque o ideal, óbvio, seria que o fulano que nunca se preocupou com isso, a partir dos resultados da “hora do planeta” (se é que serão divulgados…), tornasse energia uma preocupação real na sua vida. Porque o ideal seria que todos se interessassem em “apagar as luzes” todos os dias, voluntariamente. Melhor dizendo, economizar energia, um recurso que é um verdadeiro jogo de xadrez político mundial, gerador de conflitos sociais e tensões econômicas, mas que a maioria de nós take it for granted e não parece se importar em seu cerne de existência de onde ele vem ou como é consumido.

As pessoas deveriam ficar felizes ao diminuírem o consumo de energia, até do ponto de vista do próprio bolso. Eu pelo menos fico, quando a conta de luz cai. Mas não: é preciso marcar dia e hora para que haja um esforço. Que, por isso, soa quase sobre-humano. Esforço que leve um indivíduo racional, Homo sapiens, com polegar opositor e telencéfalo desenvolvido, a fazer algo que deveria ser tão natural quanto escovar os dentes ou andar.

Meu ceticismo a essa estratégia

Para aqueles que nunca se preocuparam com energia, talvez a “hora do planeta” seja uma interessante primeira motivação para atitudes mais ecoconscientes no futuro. Talvez. Mas infelizmente, dado o estado que a banda toca no geral, ando cética. Acho que a maioria vai se sentir tendo “feito algo” e fim. Ponto final na história toda de “se preocupar com o ambiente”. Na próxima hora, depois de acenderem as luzes, voltarão a ser os mesmos esbanjadores de energia. (Muitos ainda dirão de boca cheia: “porque sou eu que pago a conta, ora, então deixa eu ligar a luz na hora que bem quiser”. Quando obviamente o ponto de toda a questão energética não é bem esse. Ou seja, em que esse indivíduo foi educado sobre energia depois de participar da hora do planeta?)

Sorry, galera, mas pra mim, hora do planeta é 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Hoje, manterei o mínimo de luzes acesas, tentarei gastar o mínimo de energia, economizarei água, como faço todos os dias da minha vida. Se não for assim, pelo menos para mim, não adianta a brincadeira.

Tudo de bom sempre.

P.S.

Esse post é a resposta a um questionamento amigo da Liliana, madrinha e inspiradora deste blog, deixado nos comentários do último post. Aliás, Lili, que bom que você está de volta! Saudades dos seus “desejos do dia”. 🙂

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Oi, Lucia!
    Eu sabia que vc, como ativista de todos os dias ia ter uma visão mais crítica, por isso perguntei. Até porque eu penso bem parecido. Mas estou curiosa para ver o poder de mobilização de uma idéia quando ela alcança a mídia. Coisa que o Greenpeace domina. Além da pequena "luz" que a idéia pode começar a dar na cabeça das pessoas, o quanto estamos preparados para fazer alguma coisa em conjunto? Ou a pensar que talvez, um dia, se todo mundo fizer a sua parte, as coisas podem realmente mudar. É esse lado da idéia que me intriga, porque foge daquela coisa da teoria dos jogos, "se ele não vai fazer porque eu vou?". Imagino que grande parte vai pensar que é bobagem e nem vai dar bola, mas pelos motivos contrários aos que vc colcocou aqui. Vou ver o que acontece por aqui e depois eu conto. Bj

  • tua reflexão é exata, Lucia.
    ao mesmo tempo, eu acho que sempre tem o 1,5% que realmente consegue tirar uma reflexão do ato - e uma nova atitude. é o mínimo do mínimo, mas numa iniciativa de custo zero, tudo é ganho.
    sem falar que é mais um evento a gerar a conversa, polemizar, manter o assunto em pauta. sem dúvida que muita gente vai usar pra expiar um pouco de culpa - mas se não faz diferença, então ao menos 1h esses sanguessugas vão dar descanso ;)
    [não que eu seja um entusiasta da ideia, veja - mas também fico pensando porque tanta gente ficou tão p$*¨ com ela? como diria a autora do blog, tudo de take it easy sempre ;D]

  • Amplio a reflexao: será que muita gente que mantem blog ambientalista nao o faz para compensar o peso na consciencia?
    Eu entrei na onda do apagar as luzes por uma hora, desligamos todos aparelhos e acendemos uma vela pequena.
    Durante uma hora conversamos com nosso filho de 8 anos, sobre a semana dela, a semana de provas que chega, sobre os tempos nossos (sem computador), do tempo dos avòs (sem TV), de tempos sem eletricidade,...
    Foi muito bom, quem sabe vire um hábito.

  • Eu sinceramente não vejo nenhum mal em tentar, mesmo que de uma maneira cheia de erros e com pouca profundidade, abrir as cabeças e tentar fazer as pessoas entenderem o que está acontecendo.
    Ainda acho também que é assim que se muda pensamentos, comportamentos, que mudam as ações, que ajudam a pressionar quem realmente tem o poder de criar políticas apoiadas pelos seus cidadãos.

  • Meus caros, entendo as desconfianças de que a "hora do planeta" seria apenas uma forma de tranquilizar nossas consciências. A visão crítica é sempre necessária... Mas, tudo tem o outro lado (ainda bem).
    Além de uma manifestação como essa ter algum poder de provocar reflexão, o que me chama atenção e, confesso, me entusiasma, é ver uma manifestação local começar em Sidney em 2007; conseguir a adesão de mais de 2 milhões de australianos; no ano seguinte (2008) se alastrar por 35 países e em 2009 chegar a mais lugares como o Brasil e o Kuwait.
    A mobilização global possibilitada pelos atuais meios de comunicação, em particular a Internet, me deixa emocionada de verdade...
    Acompanhei no twitter, o que vinha acontecendo em cada momento, links de fotos e vídeos como o de italianos iluminando com velas a belíssima Veneza em vias de submersão; informações do que vinha acontecendo aqui e ali... Se isso não é a cibersociedade, o que é, então? :)))
    Na minha opinião, foi uma manifestação linda!!! E meus filhos conversaram sobre o que poderiam fazer no dia-a-dia. Pelo menos aqui em casa, a manifestação nos fez pensar. Mudar de atitudes é outro passo, mas só se dá um passo, após outro... :)
    Abraços, Alessandra

  • Lili, interessante sua colocação. Mas, pelo menos pelo q vi por aqui e no blog d'O Primo, a adesão foi baixíssima. Uma pena. :(
    (Embora já ache interessante q pelo menos os grandes landmarks do mundo apagaram as luzes. Já é um sinal interessante de mobilização.)
    Tiagón, eu acho q pensaria em 0.5%... ando pessimista com mobilizações. Mas concordo imensamente contigo: se pelo menos uma ínfima parcela já entender o processo todo, terá valido a pena. O problema é a ínfima...
    Mahai, não posso falar pelos outros, pq não sei das intenções de cada um. Falo por mim: gosto de escrever no Faça e aqui para compartilhar opiniões, experiências q passam na minha vida e viagens na maionese q vagam pela minha cabeça. Compartilhar tb soluções interessantes q vejo no dia-a-dia e q não são vistas pela grande mídia, talvez. Discutir assuntos q gosto. Não uso o blog como um "alívio" do peso na consciência: aliás, jamais poderia fazê-lo. O peso, aliás, é uma constante necessária, de certa forma saudável até, pois nos ajuda a refletir mais e por consequência, compartilhar e discutir mais. Pelo menos, eu acho.
    Stephani, legal!
    Mô, eu tb não vejo mal. Só acho q a coisa precisava de uma divulgação mais direcionada, entende? Explicar q apagar as luzes deveria ser um gesto comum a todo momento. Evitar o desperdício, etc. Não vi isso na campanha.
    Alessandra, 2 pontos: 1) pelo twitter, tb, o q eu vi foi a maioria das pessoas q eu sigo relatando q as luzes estavam todas as acesas em seus devidos bairros/condomínios. Ou seja, adesão pequena. 2) vale exatamente pelo q vc relata com seus filhos: se há uma tentativa de conscientização para o futuro. Mas duvido q seja o caso p/ a maioria das pessoas. Concordo c/vc q foi bonito ver os grandes monumentos apagados, e isso tem uma simbologia interessante.
    Mas como vc, gosto da cibersociedade. Acho q é a partir dela q atingiremos boas conquistas daqui pra frente. Entretanto, primeiro, devemos incluir a todos nela, não? A África em peso ainda está longe de estar inclusa digitalmente... um grande amigo meu esteve no Chade por 6 meses e ficou num vilarejo em q ninguém sabia o q era google, por exemplo. Daí temos uma ideia da longa jornada q ainda há.
    Beijos a todos.

  • Exato, ninguem sabe das intençoes (ou falta delas). Nossas intençoes sempre parecem ser as mais corretas.
    No predio onde eu moro a adesao foi grande. Ja no predio ao lado foi nula. Pouco antes das 20:30 h saí para o terraço e vi quem estava em casa.

  • Tu achas que se deve apresentar o google a quem nao o conhece? Google no sentido de tecnologia. Acho que é o excesso de tecnologia que aumenta os consumos, as necessidades e lá adiante as açoes de reduçao.

  • No fim das contas, acho que o resultado da idéia vai ser cada vez mais positivo. Aqui em Floripa eu sai pela Beira-mar e pude ver que muita gente aderiu. Muitos amigos meus também. Uma amiga minha disse que desligou todas as luzes do quarto e o computador, mas o pessoal da casa dela não. Ela fez mesmo assim. Vamos ver o que o futuro nos reserva. Beijocas.

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Lucia Malla

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