A conversa rolou no twitter esta semana. Mas como senti que queria me “expandir” muito no assunto (140 caracteres para certas elocubrações prolixas minhas não dá), resolvi trazer pra cá. Sintam-se à vontade para pitacar sobre o tema. É sobre lixo eletrônico, consumidores e sonhos.
Tudo começou quando 2 twitts apareceram na minha timeline praticamente em sequência.
Se eles não tivessem aparecido no espaço de menos de 5 twitts de diferença, com certeza não teriam chamado minha atenção tanto. Mas, sou malla. E não deu pra resistir. Escrevi:
Talvez eu tenha incitado a beligerância, o que definitivamente não é algo do meu feitio – e peço desculpas sinceras ao meu amigo Ina se ele se sentiu confrontado. Mas veja, a dicotomia estava muito escancarada. Saltou aos meus olhos o fato de uma empresa de celular relatar os resultados de uma pesquisa que diz que 70% dos brasileiros querem trocar de aparelho em menos de 6 meses – entenda-se, jogar fora o velho. A eterna busca pelo mais moderno, funcional, etc. E ler logo em seguida que de acordo com um relatório da ONU, somos campeões em lixo de eletrônicos, incluindo celulares, que é para onde o link da @redeecoblogs nos direcionava.
O Inagaki, entretanto, discordou com a elegância que lhe é característica, mas infelizmente achou que minha “beligerância” matinal era com ele. Não era. Era com o fato que ele expôs.
(Aliás, se eu tivesse também praticado um pouco de elegância, teria apenas retwittado as duas mensagens sem os comentários pessoais atachados a elas, deixando apenas que os dois fatos se confrontassem. Mas a web é traiçoeira até com quem é gato escaldado dela… Enfim.)
Tentei explicar pro Ina o que havia me chamado atenção:
Porque o big picture da história continuava.
A Flávia então respondeu algo muito interessante.
O que é até bacana, mas… (de novo, a gata escaldada):
Ok, como vocês podem ver, eu estava num raríssimo dia cricri.
E é aqui que eu começo minha viagem na maionese reflexão.
Em primeiro lugar, fui fazer meu dever de casa. E li o relatório de sustentabilidade 2009 [link em pdf] da empresa referida. Cheio de jargões que eu chamo “pro business crescer feliz” (#cazuzafeelings), num estilo bem característico de empresa coreana – um estilo com o qual lidei in loco por quase 3 anos, diga-se de passagem. Claro, com meus botões de detecção de greenwash ligados em volume máximo, pesquei umas pérolas fascinantes. Exemplo:
Até hoje de manhã, eram os aparelhos de ar condicionado e refrigeradores os que mais preocupavam por conter materiais chamados “depletores de ozônio” (já há materiais substitutos inócuos ao ozônio – a empresa diz usar (parcialmente?) os agentes de refrigeração R-410A e R-600A – mas que têm índice de “potencial de aquecimento global” mais elevados). E são exatamente estes 2 eletrodomésticos que a empresa retira dos seus dados para mostrar o quanto diminuiu o uso de substâncias que causam danos ao ozônio.
Ora, se a empresa não usa mais os depletores de ozônio como diz em seu relatório, por que então retirar os eletrodomésticos que os conteriam das contas? Me lembra aquela velha piada de pós-graduando: esprema os números até que eles confessem estatisticamente o que você deseja falar. Intrigante.
Mas voltemos à história do lixo eletrônico. De acordo com o relatório, a empresa faz um esforço mundial de reciclagem. Coleta os aparelhos antigos dos consumidores e recicla, na Coréia, cerca de 80% do material contido neles (uma tabela na página 76 mostra isso). Não há dados mundiais sobre tal esforço. Mas digamos que esses 80% valham também para o resto do mundo. É um número de reciclagem saudável, digamos assim, e acho melhor 80% do que nada.
Vale ressaltar, entretanto, que a empresa caiu no último ranking de “eletrônicos verdes” que o Greenpeace organiza todos os anos. Por ter falhado em cumprir as metas a que se propôs, principalmente de eliminar os produtos tóxicos aos consumidores de eltrônicos.
Paremos com os dados por aqui. Porque há outro aspecto que gostaria de elocubrar. E é sobre vontades, desejos, sonhos.
Não gosto de apontar dedos, muito menos instigar consumo com culpa. Não vejo graça na forma como certas organizações/campanhas usam a culpa como arma fundamental para divulgar seus objetivos. Porque, por mais que seja realidade, esta forma de campanha vem carregada de uma desilusão psíquica inconsciente que desvirtua a caminhada. Isso vale pra tudo, até pra famigerada barbatana de tubarão, pra ficar numa causa que me é muito cara.
Sou favorável a distribuir a informação coerente, de maneira clara, de educar na melhor medida possível. A partir daí, cada um faça com a informação adquirida seu próprio julgamento, dentro das regras da sociedade em que vive. Esta é a razão pela qual parei já há algum tempo (ou faço o maior esforço possível para evitar) de evangelizar discussões sobre meio ambiente. Há pessoas que fazem isso melhor (ou pior) que eu. Prefiro dar o peixe; que cada um aprenda a pescar por si mesmo, com suas idiossincrasias, manias, visões, velocidades.
Mas é claro, tenho minha opinião pessoal, que é o que compartilho neste blog do jeito malla de ser.
Por isso, este mal-entendido, uma dessas mazelas do mundo dos 140 caracteres. Não estava apontando o dedo para o “sonho” consumista pessoal do Ina de ter um celular novo. Afinal, tenho inúmeros gadgets e produtos em casa que provavelmente não passariam em testes ecológicos. Portanto, meu telhado também é de vidro, como acredito ser o de todo os consumidores em algum aspecto das nossas vidas mundanas.
Mas quando vou consumir algo, pelo menos tento equilibrar diversas questões que considero relevantes aos consumidores antes de finalizar uma compra. E entre elas estão a necessidade (é realmente importante que eu tenha produto X?) e o custo ambiental do processo (como foi feito? de onde vem a matéria-prima? a empresa tenta ser ao menos um pouco ecoconsciente? qual o gasto energético a longo-prazo?). Penso nessas coisas quando vou comprar de palitinho de comida japonesa (ah, as florestas do norte da China…) a passagens aéreas, passando por absolutamente tudo no meio. Meu twitt à Flávia é a reflexão dessa postura instintiva que adquiri com o passar do tempo. Sou malla mesmo. Porque acredito que é nossa atitude como consumidor consciente e informado que pode fazer a diferença.
O que pretendi, sim, ao juntar os 2 twitts, foi apontar o dedo para uma característica da nossa sociedade, a descartabilidade, que é em minha opinião a mola propulsora pela qual nossos problemas ambientais vêm só aumentando. No fundo, quando 70% dos brasileiros querem trocar de telefone em 6 meses, sabemos que o que vigora na maioria dos casos é o mindset que a nossa sociedade ainda mantém: você “vale” pelo que você tem, não pelo que você é. Talvez a mais distorcida e cruel lógica da modernidade existente.
E quem quer destaque (whatever this means…), tem que “ter” o novo. Para a maioria, o novo simboliza inclusão. Não estão errados: muitas vezes o novo é uma ótima escolha, mais eficiente, menos poluidor, etc. Mas quando o “novo” é apenas uma muleta para sua inclusão… há de se pensar. A angústia toma conta, porque o novo de hoje já é velho amanhã, o que gera uma roda-viva de frustração. Então, sonha-se em ter sempre o novo, independente do que este novo seja. Vem aí outra preocupação minha: das coisas que mais me policio na vida real está o não interferir nos sonhos dos outros. Porque sonho é um assunto que eu levo muito a sério.
É a partir de sonhos que começam grandes mudanças. Que transformações se alicerçam. Muitos não saem do reino da utopia, mas os que chegam a virar realidade têm impacto (positivo e/ou negativo) na vida do sonhador e às vezes nos que estão ao seu redor. Quem nunca sonhou com um brinquedo de Natal, um novo gadget, uma sandália nova? Quem nunca sonhou em conhecer aquele lugar, em conquistar aquele emprego, em comer aquele prato especial num dia especial? Então, quem sou eu ou qualquer outra pessoa ou campanha de marketing para interferir no que alguém pode ou não sonhar em consumir? E os sonhos dos milhões que não têm quase NADA, vamos cair criticando só porque querem consumir como os de classes mais abastadas?
Acho que mais faríamos indiretamente pelo planeta se cada um pusesse a mão na própria consciência e entendesse pelo menos individualmente o porquê daquela vontade de ter X. E incentivasse os consumidores ao redor a fazer o mesmo. Uma auto-análise – algo que me parece não é moda nestas paragens do universo conhecido. Consumir só por consumir deixaria de ser então um ato comum. O mainstream seria consumir por uma razão mais nobre que apenas a inclusão ilusória na sociedade. Consumir seria alimentar nossos ideais, refletiria as posições pessoais escolhidas, perpetuaria a saúde do planeta, traria mais tranquilidade e menos angústia. E geraríamos talvez menos lixo, como consequência. Enfim, seria diferente.
Quem disse que eu também não tenho meus sonhos utópicos viajandões? Afinal, sonhar não custa nada… Ainda mais pra uma otimista incurável como eu. 🙂
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Você apontou a 'ferida' maior de nosso tempo: "ter ao invés de ser" e a consequência do consumismo, mais e mais lixo, poluição, depredação.
Eis o engôdo do capitalismo desenfreado (lucro, lucro, lucro): oferecem "felicidade" embutida no objeto de consumo. Consumimos e... o vazio continua. Imagine comprar um kinder-ovo sem aquele presentinho lá dentro! Pois é, vendem-nos kinder-ovos sem brinde, hehehe. E continuamos a comprar!
Lucia
Eu penso como voce. Nunca troco um celular, ou um carro, por impulso de consumo... Os celulares que troquei, foi um que morreu afogado, outro foi perdido, e um que morreu de desgaste.... Não vejo porque comprar algo so para ter o mais novo, e consumir... Além disto este tipo de postura faz com que aprendamos a viver com menos, nao tenhamos dividas, nem que nos submetamos a um trabalho que não gostamos so para satisfazer a sede de consumo que nos é imposta pelo marketing.
Lucia, como você bem sabe trabalho com internet. Ter um smartphone que me possibilite consultar e responder a emails e tweets, abrir docs ou ppts e contatar pessoas a qualquer instante é, pois, instrumento de trabalho essencial para mim. E, por trabalhar com internet, também preciso me manter constantemente atualizado com as novidades do mercado, as novas redes sociais que surgem ou os novos aplicativos mobile. Não troco modelos pelo mero status, pois. Inclusive porque, como é bem característico do capitalismo, os produtos não são feitos para durar décadas; após alguns anos (ou meses) de uso baterias perdem eficiência, aparelhos desgastam-se, novos programas e softwares demandam mais e mais memória. Consumir meramente por consumir ou por questões tolas de status é, como bem pontuou o Cláudio, um engodo. Mas há que se discernir o consumo vazio do consumo por necessidades pessoais e profissionais, certo? ;) Um abraço!
Dr. Claudio, a analogia do Kinder ovo é PERFEITA!
Ernesto, acho q se vc compra sabendo por quê quer comprar aquilo, a funcionalidade e melhora na qualidade de vida q haverá em contrapartida ao recurso utilizado do planeta, não há grandes problemas. O q me entristece é ver o consumo pelo consumo, sem razão de ser, como a grande maioria fazem.
Ina, querido, acho q já está mais q claro q eu acredito q vc faz suas decisões de consumo de forma coerente e sem pensar em status, não? Ou q as faz baseado em necessidades profissionais e/ou pessoais q são de suma importância pra vc, certo? Vc não precisa se justificar. Elas são suas decisões, e eu gostaria q pelo menos 10% dos consumidores frívolos deste país tivessem a capacidade de consumir com equilíbrio q vc tem. O que quis ressaltar em todo o texto é o consumo frívolo, que imagino q vc sabe q é o q a maioria faz. É o vazio q essa eterna busca do novo pode gerar. E como disse no texto, há vantagens em se ter o "mais moderno"; o problema é qdo as pessoas compram um aparelho e não usam sequer estas vantagens, obviamente pq estão com o novo apenas por "estar" e não para ususfruir plenamente de suas funcionalidades. (E em geral tb não se esforçam pra aprender a usar estas funcionalidades novas...) Essa é minha questão.
Beijos a todos.