Quando morávamos na Coréia do Sul, sempre tentávamos aproveitar o fim de semana para fazer um roteiro diferente do país. E nossa primeira viagem para fora da grande Seul foi para uma ilha (claro!): Ulleung-do.
A razão pela qual escolhemos um roteiro para lá foi a mais “malla” possível. Porque queríamos conhecer Dok-do, uma ilha que na época estava nos noticiários da Coréia do Sul por conta da disputa política com o Japão. Para chegar em Dok-do, só de barco saindo de Ulleung-do.
Entretanto, à medida que fomos lendo sobre Ulleung-do antes de irmos, mais a ilha parecia interessante para uma visita, não só como ponto de parada. Então que no primeiro feriado que apareceu, voamos para Pohang, na costa leste da Coréia do Sul. Em Pohang, pegamos o ferry que leva até Ulleung-do, a 120km da costa. Era início de maio de 2004.
A viagem de ferry é um capítulo antropológico à parte. A travessia leva 3h e meia. Embora o ferry seja bem grande, o mar por aquelas bandas é relativamente agitado, de modo que uma galera passa mal. Quando fomos, éramos os únicos não-coreanos a bordo. A maioria dos visitantes são ajumás e seus respectivos maridos, ouvindo o indefectível trot – uma música tão “boa” que é usada como arma psicológica contra os norte-coreanos.
Depois de quase 4h ouvindo trot e barulhos de chama-raul, chegamos à cidadezinha de Dodong. E aí a viagem realmente começa.
A visão de Dodong aparecendo por entre dois penhascos enormes lindíssimos já é de tirar o fôlego e te fazer esquecer todo o “sofrimento” da ida até lá. Dodong é a maior cidade da ilha de Ulleung-do, e é dali que saem a maior parte dos barcos de pesca de lula e sépia, que são a base da economia local.
A época de pescas de lula é entre julho e outubro, portanto havia poucas lulas quando fomos em maio. Mas mesmo assim ainda se pescava. Alguns barcos de lula ainda estavam ancorados no portinho. Cada barco de lula tem uns “varais” cheios de luzes poderosas. A pesca da lula e da sépia é feita à noite e os pescadores usam as luzes fortes para atrair os animais das profundezas para a superfície. A lula e a sépia de Ulleung-do são famosas na Coréia do Sul inteira, e em geral, depois de pescadas, são secas pelas ruas da cidade e empacotadas pra venda no continente. Nós, como estávamos in loco, aproveitamos para comer um prato de lula fresquinha num dos dias, uma delícia.
Fizemos este roteiro sem planejamento algum prévio. Então, assim que desembarcamos, fomos atrás de um hotel/pousada/paragem para nossa estadia. Procuramos os chamados minbaks em coreano, que nada mais são que hotéis bem simplezinhos e baratos. No que ficamos, por exemplo, dormia-se num tatame no chão, como manda a tradição coreana. O turismo de Ulleung-do é basicamente interno, dos próprios coreanos, então não esperamos nenhum tipo de conforto ocidental. Não nos decepcionamos neste pedaço do roteiro.
Chegamos de manhã e depois de nos acomodarmos, saímos para uma caminhada básica de “reconhecimento” das redondezas. Na praça central perto do porto, vários senhores jogavam um jogo parecido com bocha. Enquanto isso, outros nas barraquinhas vendiam seus produtos de frutos do mar. Ou limpavam frutos do mar.
Há um quiosque de informação turística nesta praça, mas quando fomos ninguém falava inglês ali, e tudo que conseguimos no quiosque foi um mapa em coreano da ilha – o que ajudou bastante, já que eu leio coreano, pelo menos não fiquei completamente perdida.
De ambos os lados do porto, saem trilhas pela base do penhasco, de onde pode-se ter uma visão muito mais ampla da cidade e do marzão lindo que a cerca. Decidimos percorrer as duas antes da nossa saída para Dok-do, que seria no começo da tarde. Porque a razão primordial de estarmos ali era a curiosidade por Dok-do, e assim que desembarcamos, compramos passagem pro ferry-tour da tarde para lá.
A trilha pelos penhascos laterais já deu pra sentir o gostinho do quão jóia rara vulcânica era Ulleung-do. Trilha super-fácil, toda cimentada e com áreas onde dá pra cair na água tranquilamente – se você aguenta o frio do oceano ali. Habitantes locais fazendo piquenique pelo caminho. Vários pássaros.
Até que chegou a hora do nosso tour para Dok-do – lotado e mais uma vez, ao som do trot. A ilha, disputada pelos japoneses, está a 90km de Ulleung-do, no mar do Japão. O ferry leva cerca de 2h e meia pra chegar lá.
Não pudemos desembarcar em Dok-do, por motivos militares. Mas deu pra pelo menos conhecer o local e ver a bandeira coreana hasteada. Dok-do é um nada no meio do mar, disputada por razões outras muito mais profundas que a sua simples geografia física.
De volta a Dodong, já era de tardezinha, e resolvemos subir o pico lateral da cidade, cujo acesso é por um bondinho. Lá de cima, a vista com um pôr-do-sol encantador – a cidade se serpenteia pelas entranhas dos morros que a circundam. Muito única e linda.
No dia seguinte, depois de explorarmos a cidade de manhã, decidimos então fazer um tour de barco ao redor de toda Ulleung-do à tarde. Assim poderíamos conhecer os demais lados da ilha.
O tour saía do portinho de Dodong, e portanto dava a volta no sentido horário. E é aí que você percebe o quanto essa costa é linda.
São diversos paredões rochosos impressionantes, e láááá no alto, a estrada que faz a volta na ilha. Às vezes um vilarejo aparece. Passamos, por exemplo, por um grande porto.
(Eu imagino que o guia coreano estava contando tudo isso no microfone durante o tour, dando todos os detalhes. Mas como não entendíamos coreano, tínhamos que confiar no que as pessoas ao nosso redor conseguiam traduzir. Divertido.)
Impossível não fazer analogias americanas: se Jeju é o “Havaí da Coréia do Sul” (como os coreanos mesmo chamam), Ulleung-do seria com certeza o “Big Sur da Coréia do Sul”.
Até que chegamos na atração principal do tour, a Elephant Rock. Precisa explicar por que tem esse nome? 😛
O tour é acompanhado por diversos pássaros (as pessoas os alimentam, por isso eles acompanham) e terminou com um belo pôr-do-sol sobre as rochas que despontam do mar.
À noite, andar pelas ruas de Dodong é uma atração à parte. As lulas secando, o cheiro da comida coreana em cada esquina, as pessoas conversando nas calçadas… uma cidadezinha de ruas estreitas e sorrisos largos.
No dia seguinte, André quis se aventurar num snorkel pela costa. Fomos de ônibus até Songgot, perto da Lion’s Rock, na ponta sul da ilha, em frente a um suposto bar abandonado. O local parecia um trecho da route 66 no meio do nada. Mas tinha o mar, lindo, clarinho.
André entrou na água e eu fiquei sentada numa rocha curtindo a paisagem, já que aquela água super-hiper-ultra-gelada não é pra mim mesmo. As fotos do local falam por si, do bucolismo do lugar – até embaixo d’água.
(Dá pra mergulhar em Ulleung-do. Há operadoras que organizam mergulhos por lá. Mas, tudo em coreano, vale lembrar. Mergulho era uma das coisas que a gente planejava fazer ali. Voltar no verão, para conhecer a vida sub de Ulleung-do, que parece ser bem bacana. Mas o mundo dá voltas… Três anos de Coréia se passaram, outras viagens apareceram, e enfim esta vontade ficou só na base do quemsabeumdia mesmo…)
Depois de um tempo, voltamos para Dodong. Como o ônibus parecia não passar nunca (os horários são impossíveis de saber), resolvemos pegar um táxi. O taxista passou pela famosa ponte – que lembra também a Bixby Creek Bridge, do Big Sur. Lá embaixo, o mar azul-lindo
De tarde, era hora de pegarmos nosso ferry de volta. Se na ida, o trot incomodava, na volta ele era principalmente o ritmo da saudade. Saudade de um desses pontos do mundo nos confins do tempo, pitorescos e únicos. E cheio de belezas naturais a serem descobertas.
Ulleung-do certamente é uma jóia asiática.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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Ninguem pôde descer em Dok-do ou só os estrangeiros são impedidos? Quanto tempo o barco fica na proximidade da ilha?
Valeu, Guilherme!
S. Wayne, todos foram impedidos. Na época, não deixavam descer em Dok-do. Ouvi uns tempos depois no jornal local que o 1º tour iria desembarcar, lá pelos idos de 2006. Não sei se desembarcam ainda ou não.
O barco fica aproximadamente 1h ao redor da ilha, dando a volta.
Lucia,
Que legal o post. Tb gosto de conhecer as curiosidades de cada país, ainda mais com a cultura tão diferente como a Coréia.
Abraços