Dos passeios que fiz durante meu período de trabalho na Austrália, um dos mais espetaculares foi um day tour pela chamada Grande Estrada do Oceano, ou Great Ocean Road. Um dos cartões postais da Austrália está ali: o conjunto de rochas conhecido Doze Apóstolos. Já havia visto um milhão de vezes fotos desta paisagem, e sinceramente, nunca tinha me impressionado. Aquela paisagem, na minha imaginação de tantas costas espetaculares do mundo, parecia overrated.
Pois não é. É que esta paisagem é um destes lugares que só vendo ao vivo para a gente entender a grandiosidade da coisa, sua beleza. Fotografias não conseguem nem pinçar o quão linda toda essa costa é. Na parte onde ficam os Doze Apóstolos há inúmeras paradas, cada uma com uma vista mais espetacular que a outra – e aí a gente tem vontade de dar uns puxões de orelha no Google Images por mostrar quase sempre o mesmo ângulo da paisagem, quando na realidade há uma infinitude de outros mais bonitos.
Para conhecer a Great Ocean Road, o ideal é ir com calma. Principalmente, ficar pelo menos uma noite hospedado em algum ponto da estrada, em uma das cidadezinhas costeiras que encantam. O trecho parece curto, de Torquay a Warrnambool. Mas a paisagem é tão linda, e há tantos pontos para você aproveitar e fazer um piquenique, que realmente é uma tristeza correr.
Entretanto, nosso grupo só tinha um dia livre mesmo. Resolvemos então fazer o day trip para lá. Afinal, melhor ver um pouco do que não ver at all. O tour de um dia vale a pena, portanto. Mas é corrido.
Nosso tour de micro-ônibus saiu de Melbourne num sábado de manhã cedinho. São cerca de 2hrs até chegar na primeira parada da estrada, em Bells Beach. Bells é uma das praias do circuito mundial de surfe, e no inverno ali a água chega a temperaturas inacreditáveis de frias – todos os surfistas precisam enfrentar as ondas em neoprene de 7mm pelo menos. Por incrível que pareça, aquela água gélida não assusta essa galera: centenas aproveitavam na água o swell do dia.
De Bells para Point Addis Marine Park, um ponto da costa com uma visão do alto de diversas prainhas e reentrâncias. Mas, mais importante, um recife de coral temperado espetacular. Ali, pode-se mergulhar por exemplo com o dragão-marinho-folheado (leafy sea dragon, em inglês; Phycodurus eques), uma espécie da mesma família do cavalo-marinho, Syngnathidae. Esta espécie aliás só existe na costa sul e leste da Austrália. Anotei essa informação num cantinho especial da minha cabeça. Afinal, quero voltar pra mergulhar ali. Mas no verão, com água um pouco mais quente.
A viagem continua por diversas praias, cada uma mais bonita que a outra. Por alguma razão, aquela paisagem costeira me lembrou o Big Sur californiano. O que é um baita elogio, aliás, convenhamos. O que me fez pensar também que esta estrada, no verão, deve ser muito mais interessante que no inverno, quando fui. As curvas são muitas, enfim. Mas nada que alguém que já tenha se aventurado por Hana (Maui) não possa enfrentar tranquilamente…
Nosso guia era um hippie-surfista, e a cada curva da estrada em que uma onda boa quebrava, ele diminuía a velocidade do ônibus para que pudéssemos acompanhar o espetáculo do swell – às vezes um surfista deslizava na parede de água. Acostumada que sou a assistir ao surfe no Havaí, curti à beça estes momentos de slow down do guia. Embora meus companheiros de ônibus pareciam não entender ou não curtir tanto assim. Por isso, o guia camarada foi logo podado. Oh well.
Em uma das paradas na beira da estrada perto de Kennet River, entretanto, a surpresa fofa do dia: diversos coalas (Phascolarctos cinereus) em suas árvores de eucalipto (ou outras), descansando! Aliás, o coala dorme em média 16 horas por dia, portanto é muito provável que você o veja dormindo. Nas poucas horas do dia em que está acordado, estará invariavelmente comendo. Vida de coala é tipo férias em casa: come e dorme non-stop.
Neste mesmo local, além dos coalas, vimos uma série de papagaios-reis da Austrália (Australian king parrot, em inglês; Alisterus scapularis), super-vermelhos e bem animados com a oportunidade de comida na mão. (Particularmente eu não curto alimentar animais, mas várias pessoas do nosso grupo o fizeram para tirar aquela foto chavão com o papagaio no braço.)
A parada pro almoço deste tour é em Apolo Bay. O almoço em si não teve nada especial, mas a sobremesa… fomos tomar sorvete na Dooley’s Ice Cream, uma lojinha com diversos sabores premiados nacionalmente. Tomei um sorvete de chestnut com tiramisu que, realmente, foi vencedor no meu ranking pessoal. Alguns corajosos do nosso grupo se aventuraram com sorvete de vegemite, aquela pasta de levedura tenebrosa que os australianos amam de paixão – não, obrigada, eu passo.
Depois do almoço, uma parada rápida para caminhada na mata tropical de samambaias e eucaliptos de Great Otway National Park. A trilha super-bem-marcada facilitou bastante, apesar da lama (chovera no dia anterior).
Depois da caminhada digestiva, chegou a hora de conhecer o trecho mais lindo e mais famoso da Great Ocean Road, a costa do Naufrágio no Parque Nacional de Port Campbell onde ficam os Doze Apóstolos.
Absolutamente nada te prepara para esta costa, que já entrou na minha lista pessoal de top 5 costões do mundo. Os diversos tons de amarelo do calcário já são inacreditáveis. Mas com a luz do sol que de vez em quando aparecia, tudo fica de uma claridade e beleza ainda mais indescritíveis. O dia meio nublado não conseguiu diminuir a beleza desta costa, cujo amarelo é simplesmente impressionante.
O mar super-violento, entrando nas pequenas e nas grandes praias, os muitos naufrágios, as rochas sedimentares tão bem “alinhadas” em seus 6000 anos de existência, os buracos e arcos formados pela erosão, o barulho ensurdecedor das ondas quebrando violentamente em cada penhasco, em cada esquina de pedra… Tudo ali se agiganta e transforma a paisagem a cada segundo, a cada olhar.
Fizemos duas pequenas trilhas na Great Oacean Road, a do Loch Ard Gorge e o Gibson Steps. Loch Ard Gorge leva a uma das praias “escondidas” pelo terreno, e se caracteriza por diversos “dedos” de terreno sedimentar avançando no mar.
À frente, o Island Arch e a Mutton Bird Island, onde um pedaço de naufrágio se destaca em dias mais calmos. A trilha completa tem cerca de 4.2 km e dá pra ser feita com tranquilidade em 1 hora e meia, parando para fotografar e tudo mais. Todas as vistas são espetaculares, e dizer que vale a pena é pouco: você não deve sair da Great Ocean Road sem fazê-la completa.
Entre uma trilha e outra, eu, que adoro uma vista aérea, não pensei duas vezes quando a oportunidade surgiu. Fui fazer o passeio de helicóptero oferecido pela 12 Apostles Helicopters. A empresa é muito profissional e relax, além de bons helicópteros. Só achei o tempo de viagem curto…
Minhas amigas de curso e eu fomos no último horário do dia. Com isso, tivemos o privilégio de ver a costa em tons ainda mais dourados, quase ao entardecer. Olha, não consigo nem explicar direito o quão emocionante foi!
Depois de uma parada rapidérrima na trilha dos Doze Apóstolos que fica em frente ao centro de informações do parque, parada esta apenas para fotografar os Doze Apóstolos por completo do seu ponto de vista mais conhecido – a foto chavão que aparece pelo Google Images -, fomos fazer a segunda trilha, o Gibson Steps. Que também era pequena, basicamente uma escadaria de calcário com 86 degraus que termina numa praia de frente para os Doze Apóstolos. E foi dali que vimos o pôr-do-sol mais lindo que o estado de Victoria poderia apresentar para a gente. <3
Pôr-do-sol na praia abaixo do Gibson Steps.
Esta overdose de terreno amarelo calcário com mar revolto (que eu amo ver) e de belezas naturais tão únicas, me deixaram meio estonteada. Acima de tudo, com a cabeça bem leve. O que foi fundamental para encarar as 3 horas de volta a Melbourne, já de noite. Quando acordei do meu cochilo, já estávamos enfim atravessando o rio Yarra, dentro da cidade. Depois de um dia intenso de paisagens incríveis pela Great Ocean Road, o sorriso canto a canto era difícil de sair do rosto.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
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Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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Trabalho ruim esse seu hein? Se não tiver ninguém pra fazer um dia, por ser tão chato, me convide que farei esse "esforço" rsrsrsrsrs