Este artigo conta minha experiência para aprender a língua e o alfabeto coreano, ou hangul, durante os 3 anos que morei na Coréia do Sul.
Eu sempre fui uma apaixonada por línguas. Filha de professora de francês, aprendi desde cedo a prestar muita atenção às diversidades sonoras dos idiomas. Minha mãe murmurava francês dentro de casa e mesmo eu não entendendo nada, adorava repetir algumas das frases feito papagaio. O som me encantava. Na adolescência, me empolguei e entrei na Aliança Francesa – já fazia curso de inglês desde os 9 anos.
Por isso, quando soube que iria morar na Alemanha, qual foi a primeira ação que tive (antes mesmo de olhar passagem e passaporte)? Matriculei-me num curso de “alemão de sobrevivência”. Quando cheguei no Havaí anos depois, o que fiz? Assisti a aulas de havaiano por 1 ano. Eis então que em 2003 soube que iria me mudar para a Coréia do Sul e meu primeiro pensamento foi: preciso aprender coreano. Fucei e achei aulas de coreano básico na Universidade, e lá fui eu me aventurar pela nova língua.
Existe um abismo enorme entre aprender uma língua que usa os mesmos caracteres que os de sua língua nativa (no nosso caso, os caracteres romanos) e aprender um novo sistema completamente diferente. Você precisa ser alfabetizado novamente, e a percepção desse desafio é o que faz muita gente desanimar no início. Mas para mim, era mais empolgante ainda. Matriculei-me no “coreano de sobrevivência” e seja-o-que-silla-quiser.
Um universo novo desabrochou na minha cabeça. Afinal, o coreano é uma língua completamente peculiar. A única falada (e adotada oficialmente por um país) 100% inventada por uma pessoa, o rei Seojong. Com data de surgimento precisa: 09 de outubro de 1446.
Seojong era rei da dinastia Jeosong (ou Choson), cujo território engloba o que são hoje Coréia do Sul e do Norte. Interessadíssimo em cultura e artes, durante seu reinado viu-se um florescimento de diversas invenções e tecnologias avançadas para a época. Além disso, Seojong também foi o responsável pela expansão do império coreano. Mas tinha preocupações militares que o inquietavam. Uma delas era a questão da comunicação.
Antes de inventar o alfabeto coreano, o povo daquela região falava uma língua que advinha do chinês, com modificações de estrutura gramatical e ordem das sentenças. Escrever, entretanto, era privilégio dos nobres, que se utilizavam da complexa escrita de caracteres chineses. Assim, qualquer ordem estratégica militar escrita que caísse em mãos chinesas era facilmente decodificada pelo inimigo. Seojong então resolveu criar uma forma de escrever única, que apenas os habitantes do reino de Jeosong entendessem. Inventou o alfabeto coreano, o hangul (ou hangeul).
O hangul foi imediatamente institucionalizado por Seojong, que obrigou todos os habitantes do reino a aprenderem a lê-lo e escrevê-lo. Portanto, unificou a linguagem e facilitou a disseminação da informação para toda a população. De quebra, fortaleceu ainda mais estrategicamente a região, pois era um “código” único que só a península falava, desconhecido pelos invasores. Isso garantiu sua soberania política por mais de 100 anos. Os intelectuais da época foram contra a mudança (“Por que tanta honra aos trabalhadores braçais? Ler e escrever são privilégios da elite, oras!“). Tanto pressionaram que a utilização do hangul em documentos foi proibida no início do século XVI. Entretanto, já estava imortalizado entre as pessoas: era a língua do povo.
Desde então, houve uma série de “proíbe-permite” do ensino do hangul nas escolas. Até que depois da 2a Guerra, o hangul se estabeleceu definitivamente como o idioma da Coréia.
O coreano é um idioma de lógica muito simples. Composto por vogais e consoantes, como o nosso, e palavras formadas por sílabas, exatamente como as nossas. Embora a aparência pareça complicada (pelo menos aos olhos ocidentais), é das línguas mais lógicas do mundo. Seojong teve a preocupação de desenhar cada letra responsável por um som de acordo com o formato anatômico que a língua, a garganta, os dentes e a boca fazem ao pronunciarem aquele som. Ou seja, o hangul é um alfabeto totalmente baseado na fonética – suas letras (os jamos) são desenhadas pela fonética, usando tracinhos e bolinhas (essas últimas representam o som mudo, tipo “h” em “hotel”). Por exemplo, o som do “G” é representado pela letra “ㄱ”, que é um diagrama básico da anatomia da língua em relação à garganta quando sai o som “gá”.
O alfabeto coreano tem 14 consoantes e 10 vogais e 11 ditongos (considerados como 1 letra), e as sílabas são sempre formadas por pelo menos uma consoante e uma vogal, desenhadas dentro de um quadrado imaginário que delimita a sílaba. Há também as “letras duplicadas”, que seria mais ou menos como nossos “rr” ou “ss”, mas com outros sons (em geral dando mais força à letra única que representam). Por exemplo, o “ㄱ” que falei acima tem sua dupla escrita “ㄲ” e fala-se com um pouco mais de força e ar expirado, soando quase como um “ká”. Embora na Wikipedia comenta-se sobre a existência de 11 uniões consonantais, em 3 anos de Coréia eu não vi sequer uma palavra escrita com uma dessas letras. Portanto, em termos práticos do dia-a-dia, encontros consonantais são praticamente inexistentes.
Uma vez que você aprende as letras, você vira criança de 5 anos aprendendo a ler: para em frente a uma palavra e leva 30 segundos para falar uma sílaba, juntar letra a letra que acabou de memorizar com o som correto. Levei um bom tempo para conseguir ler um pouco mais rápido. Só a prática te permite isso e dado que o coreano é uma língua rara fora da Coréia (só nos bairros coreanos espalhados pelo mundo você tem contato com o hangul), meu conselho é que se você quer aprender coreano, vá passar um tempo por lá. Seul é legal e moderna, vale a pena.
Mas, uma vez que fui “alfabetizada”, mais uma vez igual criança, queria ler tudo que via pela frente.
Em termos gerais, se você sabe ler o coreano, já é o suficiente para se virar um pouco na Coréia (uns 30%, eu diria). Por uma razão simples: muitas das palavras utilizadas no dia-a-dia hoje vêm do inglês, e estão nas placas/avisos em inglês, apenas escritas com as letras coreanas.
Veja o exemplo da placa abaixo.
“Snack Car” é a exata fonética do que está escrito em hangul. Ou seja, não há uma palavra em coreano para designar “snack”. Então eles usam a palavra em inglês, apenas escrita com as letras coreanas. E isso se repete o tempo todo pela cidade, deixando mais fácil a vida pro estrangeiro que sabe ler o coreano.
(By the way, esse é um ônibus-lanchonete, que estava estacionado perto do rio Han. Tinha um debaixo do viaduto perto da minha ex-casa que era “ônibus-restaurante”, com aquário para peixes e lulas vivos, e de aparência mais dark que os filmes do Batman.)
Foi aprendendo coreano que percebi também outro abismo: entre aprender a ler e entender o vocabulário. Jamais me considerarei uma falante de coreano. Sei ler, mas não sei o significado das palavras lidas. Sou portanto uma analfabeta funcional do idioma. O vocabulário da língua, exceto o que vem do inglês, é completamente diferente de tudo que conheço. Algumas palavras têm raízes chinesas, mas maioria delas são únicas, criadas para e pelos coreanos. Isso sem falar da confusão dos números.
Há dois sistemas numéricos em vigor na Coréia do Sul, o coreano e o chinês. Ambos são utilizados corriqueiramente, com regras que não parecem fazer sentido. Na dúvida, meu professor dizia para usar o chinês (?!?!). Por exemplo, para dizer as horas é assim: 8:40 você fala o “8” em coreano e o “40” em chinês. Telefones: sempre use os números em chinês. Para contar coisas “palpáveis”, use o sistema coreano. O preço das mercadorias se fala no sistema chinês. Durma com uma matemática dessas.
Apesar das dificuldades, o coreano é uma língua incrível. Afinal, a construção/criação do hangul é, a meu ver, simplesmente brilhante. O hangul pode até não se expandir mais militarescamente falando, mas veio pra ficar e dar orgulho a uma nação unida pela ancestralidade e pela territorialidade.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Ver Comentários
Se viajei!!!!! Putz. Só dá para agradecer!
Obrigado. Quando alguém partilha uma coisa assim com tanto carinho e personalidade é maravilhoso.
Na verdade, não dá para colocar em palavras o conjunto de percepções. Porque envolve muita coisa, em destaque: humildade, não-deslumbramento, solidariedade, informação adequada empacotada com carinho e emoção.
Vou recomendar a leitura para a minha esposa, que é da linguística, e para o meu filho Társis (9 anos), que é teu fã.
Uau!!! Lucia Malla também é (muita) cultura! Não tinha idéia de nada disso. Criar uma língua deve ser uma coisa complexa - coreano deve ser sistemático, porque eles também criaram o tae kwon do (bom, mas pensando bem, os japoneses e os chineses também criaram um monte de coisas, então estou falando besteira...). Adorei o texto!
bjs
Orlando, obrigada por tantas palavras elogiosas! Rapaz, assim vc me deixa vermelha hidrante! :roll:
Mande um beijo especial ao seu filho Társis. :)
Flavia, o coreano em geral é super-orgulhoso de ter criado o tae kwon do. Aliás, tudo que eles inventaram, têm um carinho muito especial, diferente do nosso na mesma situação. É muito interessante.
Beijos aos 2!
Adorei o post. Nunca imaginaria que o coreano seria uma coisa tão lógica, me parecia tão diferente de tudo... Me deu até vontade de ir para Seul agora.
Nossa Lucinha, realmente é cultura, nem imaginava, o que eu imaginava era como você se virou tanto tempo por lá.
O Gustavo contava que quando morou no Japão pegou várias vezes o trem errado, até que decorou os simbolos :)
Beijinhos
adorei o texto. não tem nada melhor do que viajar nas palavras de quem sabe conduzi-las. beijo!
Lúcia - em que pese o exemplo misto do horário - você se deu conta de que usam o chinês para números e o coreano para algarísmos (ou, mais exatamente, para os "numerais")? É perfeitamente lógico!...
(Reflexão pesarosa: como eu adoraria que adotassem um alfabeto puramente fonético para o português... Ensinar ortografia para crianças é um suplício!... "O que se escreve com 'c', com 'ss', com 'ç', com 'sc'?"... "Que maldito som tem a porcaria do "x" nessa palavra?"... "para que existe a droga do 'h' se ele é uma 'letra girafa'?"... Meu único consolo é que o inglês é bem pior...)
Wow, Lucia, mais uma vez eu VIAJO com seus posts. Que delicia esse sobre a lingua da Coreia. Eu nunca tinha pensado ou lido a respeito. Ja aprendi um bocadinho mais agora. Obrigada!! Beijao.
OLÁ Malla.
Seu blog é muuito legal. Gosto muito das postagens. Também tenho um blog. Sou mais nova no pedaço. Depois dá uma olhada se quiser.
Um Abraço
Carla, eu recomendo! Seul é uma cidade interessante. Pouco falada, meio q escondida do mainstream de turismo, mas com algumas peculiaridades fascinantes.
Ah, Patsy, nós tbm passamos por micos assim... é q eles estão espalhados pelas inúmeras histórias desse blog, hehehe!! É difícil achar tudo. ;)
Tiagón, vindo de vc, poço de criatividade, elogio q toca fundo. Obrigada, querido.
João, então, eu seguia mais ou menos a regra dos "contáveis" e "não-contáveis" do inglês p/ tentar usar o número certo... mas ainda assim me enrolava. Essa sacada dos algarismos é ótima, e deve funcionar p/ alguns casos. O problema é q as exceções são muitas! :D
Andrea, fico feliz q tenha viajado junto. Os amigos são sempre bem-vindos nessas viagens maluquetes por aqui. :)
Eli Sandra, olharei com carinho.
Beijos a todos.