Wildlife Photographer of the Year 2012.
É interessante notar o rumo que a fotografia de natureza vem tomando nos últimos anos. Aliás, a fotografia em geral, de certa forma. Talvez pela facilidade de acesso a câmeras, onde a realidade já está registrada em inúmeros cliques a cada segundo por mais e mais pessoas. Ou pela própria característica da mente humana de “retornar às raízes” em algum momento. Fato é que as fotos marcantes e vencedoras nos concursos de fotografia cada vez mais não refletem apenas o momento do clique: elas se esforçam para se distanciar da realidade, e cada vez mais ressaltar o caráter de ilusão, de surrealidade e até mesmo de sonho. Ou seja, elas não são mais o momento: elas pretendem ser o que se sonha do momento.
Claro, ainda assim são fotos, clicadas, pensadas e trabalhadas. Mas o sentimento que elas exaltam é do distanciamento da realidade, da sofisticação, da pintura. O que é extremamente interessante, já que a fotografia quando surgiu era exatamente a substituta da pintura, e permitiu à pintura de se libertar do rigor de ter que retratar a realidade. A fotografia agora o fazia.
E é nesse sentido que estamos agora nessa viagem de “retorno”, libertando a arte da fotografia dessa necessidade de retratar fielmente a realidade. Mesmo quando a retrata, ela se esforça para manter a ilusão, deixar o caráter surreal e onírico mais em voga que a própria realidade em si. A fotografia passou a ser a arte de transformar a realidade em sonho. Acho isso simplesmente fenomenal.
A meu ver, nenhum concurso fotográfico tem caminhado mais nessa direção que o Veollia Wildlife Photographer of the Year (WPY), que acompanho todos os anos desde 2006, quando André venceu. A cada ano, mais e mais a fotografia de natureza prestigiada no WPY exalta a distância da realidade – mesmo sendo a foto o retrato da mesma. Cada vez mais, a fotografia animal se aproxima da arte e se distancia do registro simples de um comportamento ou bicho. O que conta conta é a arte envolvida no clique. Imagino caminhos extremanente interessantes vindo por aí, no futuro da fotografia de vida selvagem. É animador e ao mesmo tempo, um desafio delicioso.
Mas, vamos ao que interessa. O resultado do Wildlife Photographer of the Year 2012 saiu hoje, em Londres. Mais uma vez, Paul Nicklen foi o grande vencedor, e já é o fotógrafo número 1 de gelo e polos. Dessa vez, uma foto movimentada de pingüim foi a vencedora geral (e vencedora da categoria “Underwater worlds”). Confesso que eu preferi a outra foto do próprio Paul Nicklen que ficou em segundo lugar, muito mais majéstica.
Já que tocamos no assunto, começarei então minha lista de fotos prediletas do Wildlife Photographer of the Year 2012 com ela.
Apesar da foto ser rapidamente entendida como o pinguim nadando para a abertura do gelo, ainda assim, a sensação de que ele “voa” até o céu é presente, com o gelo formando “nuvens”. Pinguins são aves, então a percepção é coerente com a realidade, e ironicamente reforça mais uma vez o borrado da linha entre a realidade e o que queremos da realidade. Fora a técnica, que é mais-que-perfeita. Paul Nicklen não é à toa o número 1: a foto é superba.
Talvez a melhor surpresa da competição este ano foi ver o fantástico fotógrafo brasileiro Luciano Candisani premiado vencedor na categoria “Behaviour: Cold-blooded animals” do Wildlife Photographer of the Year. Já há tempos Candisani é um nome querido de destaque na fotografia de natureza no Brasil. O prêmio, enfim, o consagra como um dos melhores do mundo. O que eu e mais um monte de gente sempre achamos que ele era, by the way. Fora a simpatia e humildade de Luciano, características que o tornam um fotógrafo pra lá de especial. A foto com que ele venceu o concurso é estupenda: os peixes parecem pintados na “tela” da imagem. E, de acordo com o depoimento do próprio Luciano no site do WPY, é a realização de um sonho dele mesmo: a imagem está em sua cabeça há mais de 25 anos. Agora, executada e merecidamente premiada. Parabéns demais, Luciano! 🙂
Mais uma vez, é a idéia que impressiona mais nessa foto. O conceito por trás da imagem é extremamente poderoso. A foto de Owen Hearn foi a vencedora na categoria “11-14 years old”. Isso mesmo, o fotógrafo é um pré-adolescente, já com uma visão fotográfica invejável. Amei.
Na minha opinião, a categoria que mais impressionou este ano foi a de fotos em preto & branco, a “Nature in Black & White”. Todas as imagens seriam minhas escolhidas pra entrar nesta lista de prediletas. E dentre todas, a vencedora foi a foto acima, que também foi dentre as fotos em pb a minha predileta. Composição perfeita, contraste impressionante, o centro focal meticulosamente arranjado, arte 100%. Robert Zoehrer tirou esta foto na Áustria, sua terra natal, num cenário que poderia ser inexpressivo. Mas que, por fim, sua visão tornou muito belo.
À primeira vista, tive dificuldades em entender esta foto. Mas, uma vez que percebi a imensidão de pássaros que ela engloba, e como eles formam esse padrão de onda grafite, tive que tirar o chapéu muitas vezes para a criatividade fotográfica de Thomas Hanahoe. Afinal, o fotógrafo enxergou uma abstração sensacional numa paisagem confusa dessas. De uma beleza inacreditável.
Esta não é uma imagem preto & branco, mas quase. No estilo dos melhores logos atuais, com áreas vazadas. Só que naturalmente é uma foto, o que torna a perspicácia de Hugo Wassermann ainda mais evidente. Foi uma das escolhidas na categoria “Creative Visions of Nature”. Simples e incrivelmente bela.
A composição moderna, a textura de aquarela na parte superior, contrastando com o mar claramente em fúria na parte inferior. Além disso, no centro, onde as linhas e o mar começam a virar pintura, o pássaro. Sensacional é pouco. Mark Tatchell para mim merecia ter vencido a categoria “Animals in their environment”.
E vocês, quais fotos mais gostaram? Vão lá no site da competição escolher suas favoritas também! 🙂
Tudo de foto de natureza sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
Ver Comentários
Incríveis. O primeiro lugar não é o mesmo fotógrafo já premiado, com aquela foto do leão marinho tentando alimentar o próprio fotografo com um pinguim?
Dentro dos nossos papos, talvez o último post do Catatau contribua com algo.
Abraços, Aloha!
Exatamente, Catatau. É o mesmo fotógrafo. Esse cara é fantástico.
Vou lá ler seu post. :)