Hoje é um dia de conscientização e discussão na nossa saudável blogosfera, e o tema da vez é a descriminalização do aborto. Uma ação combinada aberta a quem quiser participar, cujo objetivo é levantar este assunto de morte e vida que é um desses “nós na rede“. Principalmente levantar a opinião e a reflexão das pessoas que passeiam pela blogosfera. Vale a pena dar uma olhada com calma e atenção em cada um dos blogs que estão postando sobre o tema. A lista está gentilmente hospedada na Verbeat e atende pelo singelo nome de… “Nós na Rede“.
Quando me decidi a escrever sobre o tema, não sabia como poderia abordá-lo. E talvez o texto que vocês estão prestes a ler por aqui ainda não seja sequer razoável. Na realidade, acho a decisão de submeter-se a um aborto de fóro totalmente íntimo. O que se discute, portanto, é apenas a garantia do amparo do estado para que tal ato seja feito de forma segura e eficiente, com o mínimo de sofrimento humano e o máximo de dignidade.
As razões que levam a pessoa a decidir por um aborto não são discutíveis nem cabíveis de discussão pelos legisladores. Afinal, são questões pessoais, muito íntimas, particulares. Ninguém tem condições de julgar ninguém por isso. Deve-se lutar portanto pelo amparo do estado no caso da decisão pelo procedimento de um cidadão.
Segundo o Medline HealthPlus (um dos sites mais confiáveis sobre medicina), o aborto é “um procedimento cirúrgico ou médico para terminar uma gravidez através da remoção do feto e sua placenta do interior do útero.” (Reparem que não se trata aqui do aborto espontâneo, ok? Porque esse a legislação não tem o que discutir.) O site cita também as 3 razões pelas quais a mulher pode (à luz da medicina, entenda-se) ter a sua gravidez terminada.
As formas de execução de um aborto variam de acordo com o estágio da gravidez. Quanto antes, menos invasivas, é claro. Se o aborto for requisitado até 49 dias após o último ciclo menstrual, a mulher pode pedir ao médico para se utilizar de pílulas bloqueadoras de progesterona (RU-486). Ou ainda pílulas de prostaglandinas, moléculas que induzem o útero a contrair-se em excesso, expelindo portanto o feto.
Após esse período, entretanto, é necessária a presença de um cirurgião, pois os métodos vão da curetagem simples a uma cirurgia de retirada. Um procedimento não muito simples que sem dúvida requer um aparato médico. Mas que é renegado a clínicas de décima categoria ou a agulhas de tricô pela terra brasilis afora por devaneios do mundo político – o desamparo da lei.
Milhares de mulheres arriscando sua saúde todos os dias porque o estado, essa instituição etérea e distante, não as concede um direito de escolha sobre o próprio corpo físico delas. Reflexivo, sem dúvida.
E aí, sábado passado, enquanto eu pensava como escreveria algo decente sobre o aborto (e não as viagens na maionese que normalmente escrevo; afinal aborto é assunto muito sério), decidimos ir à exposição do Sebastião Salgado em Seul. Meu segundo fotógrafo predileto, o mestre mineiro do preto e branco. É o próprio Salgado quem diz em seu site:
“I hope that the person who visits my exhibitions, and the person who comes out, are not quite the same.”
Saí da galeria do Centro de Imprensa (onde a exposição acontecia) chocada, em lágrimas. De verdade, não era a mesma pessoa. Afinal, sou como Salvador Dalí: “Everything alters me, nothing changes me.” Sebastião Salgado é um fotógrafo fenomenal. Mais que isso, é um ser humano de coração compreensivo e benevolente, profundamente preocupado e engajado nas causas sociais da humanidade.
As fotos que tira expressam de forma crua uma realidade humana dolorida, impactante, trágica – e extremamente verdadeira. Salgado é um artista de quem o brasileiro deveria ter muito orgulho. É representante especial da UNICEF. É além disso um desses cidadãos do mundo de verdade, que viaja a uma terra desconhecida de forma simples. Que prefere viver a realidade do povo que fotografa para exercer com plenitude sua fotografia engajada. Um cidadão que faz a sua parte pela melhoria do mundo.
Possui um trabalho reconhecido nos 5 cantos do planeta como da mais alta relevância e poesia – tragédia poética, assim dizendo. O branco e preto das suas fotos torna-se o retrato maniqueísta da realidade de um mundo cruel, o conflito diário da vida com a morte, da luz com as trevas.
É dramático.
E de uma certa forma, ciente de sua essencial força criativa, Sebastião Salgado nos faz viajar com ele por terras áridas, esquecidas, povos em desespero, sofridos, conformados com a pobreza, o subdesenvolvimento, a miséria da alma. Povos tristes. Povos que sofrem por não terem o devido apoio governamental ou do sistema. Por serem dizimados por doenças. Por não terem a oportunidade de sequer discutir sobre questões básicas, como saneamento, educação, saúde, alimentação, aborto ou qualquer outra coisa, enjaulados que estão na luta pela sobrevivência diária mais animal possivel. Povos sem esperança da dignidade humana.
Povos que são abortados do básico direito de viver.
Povos que mostram muito bem o quão desesperadora pode ser a vida. É mais cômodo simplesmente fechar o olho para essa realidade.
Nas palavras de Salgado sobre as fotos na África:
“I was injured in my heart and my spirit. For me, it was terrible what I saw. I came away from this with incredible despair.”
It’s insanely true.
O mais recente trabalho de Sebastião Salgado chama-se “Genesis“, e tem como objetivo fotografar áreas do planeta que são talvez os últimos redutos pristinos e intocáveis, menos ameaçados pela interferência humana. O trabalho é uma espécie de luta pela esperança no futuro, como ele define.
Seu trabalho anterior, o “Exodus“, marcou-o deveras. Segundo suas palavras que reproduzi acima, deixou uma marca de descrença na bondade da humanidade muito grande. Para remover essa mancha (como eu, ele quer acreditar nas pessoas a qualquer custo…), planejou esse projeto de 8 anos pelo mundo. Onde fotografará o que ainda resta de belo na natureza.
E desde 2004, as fotos desse projeto belíssimo estão semanalmente aparecendo no Guardian inglês. Já esteve por 3 meses em Galápagos, passou um tempo nos vulcões da tríade Ruanda/Congo/Uganda, outro tanto de tempo com as baleias na Patagônia, e agora está na Antárctica. Suas fotografias do mundo animal são tão emocionantes quanto as humanas, dramáticas em sua esperança, e mais uma vez eu não contive as lágrimas. Sebastião Salgado é pura emoção, das mais profundas e belas que se pode imaginar num ser humano. E fica mais uma frase dele próprio narrando a experiência de encontrar-se com as baleias em seu hábitat natural. Como conclusão desse outro lado da moeda da vida.
“When you have them in front of you, you do feel the power of life.”
It’s insanely true.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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Comentários que estavam neste post quando ainda hospedado no blogspot:
Lúcia, perfeita a sua defesa da descriminalização. Assino embaixo. Abraço,
Leila | Homepage | 09.28.05 - 12:13 pm | #
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Certíssimo, Lúcia, as razões sempre serão de foro íntimo, o resto é a realidade tão bem retratada pelo Sebatião Salgado. bjs
Afonso | Homepage | 09.28.05 - 2:21 pm | #
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Oi,
Post maravilhoso, eu sempre me perco quando leio seus post, quero conferir todos os links e acabo esquecendo de voltar para comentar e agradecer por tanta coisa legal que voce nos proporciona!!!
Um super dia para voce!!
BEIJOS
Aleb | Homepage | 09.28.05 - 5:53 pm | #
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pena que nem todos pensam assim.ainda ha aquela velha discriminacao que aborto em qualquer situacao é ruim. Pra mim tanto faz qual foi o motivo da pessoa ao decidir abortar (ate pq essa decisao nao é das mais faceis), mas o respeito que a sociedade deveria ter perante essa pessoa, nao existe. enquanto a religiao for mais forte do que a razao, acho que o tema continuara sendo polemico.bjs!
Mi | Homepage | 09.28.05 - 8:08 pm | #
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Você tocou em um ponto fundamental que é a questão do foro íntimo. A pessoa tem que ter o direito de decidir entre querer e poder levar uma gravidez a termo. Religião também é questão íntima. Beijus
Luma | Homepage | 09.28.05 - 9:44 pm | #
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Muito bom !
Curiosidade: seu primeiro favorito é o Bresson ?
As fotos da Antártida estão realmente lindas.
bjs
smart shade of blue | Homepage | 09.28.05 - 10:06 pm | #
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Os trabalhos de Sebastião Salgado retratam com perfeição a realidade da maioria dos países onde o aborto é crime. Nas suas palavras "os povos abortados do direito de viver". Acrescento: e de escolher viver. Paradoxalmente na maioria dos países desenvolvidos o aborto é entendido como uma escolha da mulher. Nestes, se tem direito de viver e de escolher viver...
Abração e parabéns pelo post!
Túlio Vianna | Homepage | 09.28.05 - 10:41 pm | #
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Leila e Afonso, valeu! Daqui a pouco passo pela "casa" de vcs...
Alê, sabe q eu estou começando a me preocupar com isso? Eu tenho uma certa "mania" de querer fundamentar tudo q eu escrevo com links que acho interessantes e/ou explicativos para q as pessoas tenham a mesma alegria e diversão q eu quando estou escrevendo, ou pelo menos entendam como a minha mente caminhou para uma conclusão. Mas às vezes acho q essa linkação mais atrapalha q ajuda. O Allan já havia falado comigo a mesma coisa. Vou matutar uma forma de melhorar isso... Beijão!
Mi, é tudo mesmo uma questão de respeito, de todos os lados: do estado, dos grupos religiosos, da sociedade, das pessoas próximas.
Luma, é exatamente isso. Vale aqui para a descriminalização do aborto quase a mesma idéia q para a religião: há de se ter o direito de escolha.
Smart, não é o Bresson, não, hehehehe... fotos do meu fotógrafo número 1 aqui:
http://tinyurl.com/cxe3h
:D
Túlio, seu acréscimo à frase q escrevi no post é extremamente pertinente!!! Valeu!
Beijos e obrigada a todos pelos comentários!!
Lucia Malla | Homepage | 09.28.05 - 11:37 pm | #
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Lucia, concordo com voce quando diz que esta é uma questão de foro íntimo, porém não deixa de ser também no seu complexo um problema social, de saude pública e de direitos civis. O que acho deprimente é que toda a luta tem origem em interesses de poder da igreja católica que forjou a mentalidade sacralizadora de embriões e fetos. No mais, a inclusão do Salgado no teu post, garantiu mais sabor, sem dúvida. Beijos.
Flavio Prada | Homepage | 09.29.05 - 5:47 am | #
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Lucia, menina, como escreve bem você!
Qua categoria, seu blog!
Obrigada, pela visita, ao meu, e olha, não é fácil, fazer um aborto...
E qto. ao Sebastião Salgado, eu amo de paixão !
Já o prestigiei, aqui, nas terras mineiras e tembem em New York.
Adorei conhecer você!
Beijos!!!
jucimara | Homepage | 09.29.05 - 11:06 am | #
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muito bem andreia, parabens. no meu ponto de vista sebastião salgado, mineiro de aimores, cidade q morei na juventude, carrega através de sua peregrinação pelo mundo, os abortados que perambulam pelo planeta sem a minima condição de respeito ou dignidade humana . adoro sua postura.bjos marlene
marlene venturim c osate | 09.29.05 - 11:22 am | #
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Oi Lucia!
(ufs... só agora tô conseguindo visitar os posts da blogagem coletiva)
Tocaste nos pontos que acho dos mais essencias e que só unidos que levam à dignidade: o direito que a mulher deve ter de decidir sobre aquilo que diz respeito à sua intimidade; o amparo a essa decisão, seja ela qual for, sem discriminação baseada em preceitos, especialmente, religiosos.
Beijos!
Gejfin | Homepage | 09.29.05 - 12:25 pm | #
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Que ótimo post querida,
e que oportunidade maravilhosa estamos tendo de discutir esse assunto hoje.
Grande abraço
BethS | Homepage | 09.29.05 - 1:16 pm | #
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Lúcia,
E para falar do Gênese, de onde e quando tudo começou, nada melhor do que Sebastião Salgado, um dos poucos orgulhos dos brasileiros.
Visão bicolor mas cheia de nuances, como a vida.
Trazê-lo à discussão sobre aborto foi de uma sutileza própria de artistas: o não-dito tem mais força do que aquilo que é explícito.
Parabéns e beijo grande!!
Maria Helena Nóvoa | 09.29.05 - 3:53 pm | #
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Acho que tem mesmo que legalizar tudo..quem achar que deve fazer , deve ter o direito de escolha...boa semana
cilene | Homepage | 09.30.05 - 1:16 am | #
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Malla,
Bateu um bolão!!! Só que e o seguinte: o método científico perdeu essa, porque a paixão ficou evidente nos dois textos.
Parabéns!
Guilherme | Homepage | 09.30.05 - 2:57 pm | #
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Poxa amiga Lucia, u só concordo com dois tipos de aborto. Por patologia do bebê ou da mãe ou estupro.
Agora esse negócio da pessoa ter se descuidado, não sei. Pois se vc tem responsabilidade o bastante pra fazer sexo, tem que ter responsabilidade para arcar as conseqüências do ato! E isso não se refere somente para isso, mas para diversos assuntos. Abs
Maitê | Homepage | 10.01.05 - 6:14 am | #
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Flávio, acho q no ponto igreja-aborto, o post da Denise foi mais perfeito: mostrou que a Igreja só passou a condenar o aborto no século XIX, auge da revolução industrial - mais mão-de-obra, né...
Jucimara, valeu!
Ai, Marlene, vc me deixa sem graça com esses comentários maravilhosos... Obrigada!
Gejfin, parabéns a vc pela organização do site do Nós na rede!! Ficou um brinco!
BethS, ficou legal, né, a postagem coletiva! Iniciativa muito legal.
Maria Helena, obrigada pelos elogios! Fiquei vermelha agora...
Cilene, valeu!
Gui, às vezes o método científico é simplesmente deixado de lado mesmo... hehehehehhe!!
Maitê, obrigada pela opinião. O q vale é a discussão, né não?
Beijos a todos pelos comentários.
Lucia Malla | Homepage | 10.01.05 - 4:52 pm | #