Recentemente, um jornal coreano comentava uma gafe em um monumento recém-inaugurado em Seul. A gafe em questão estava numa pedra: uma frase entalhada que continha um erro gramatical de inglês. Um konglish, basicamente, uma mistura do coreano e inglês.
A pedra está num lugar onde será vista por inúmeros turistas estrangeiros que passam por Seul. E o jornal então reclamava do absurdo do texto não ter passado por uma revisão da língua inglesa mais cautelosa, antes de ser gravado “para sempre” numa pedra. Ou pelo menos do descaso de toda a confusão.
Faz sentido. Um ponto turístico é na maioria das vezes a imagem de um país que o estrangeiro de passagem leva para casa. Mais do que justo que se espere do governo (ou de sei lá quem construiu o monumento) um esmero maior na hora de apresentar o local para o mundo. Principalmente se extrapolarmos um pouquinho o que diz o artigo e lembrarmos de que há uma intenção clara da Coréia do Sul em entrar de cabeça no mercado mundial, em tornar Seul uma cidade totalmente internacional, em ser um grande “hub” para a Ásia, etc. etc.
I’m sorry to break the news, mas no mundo de hoje, uma cidade internacional, convergência de diversas culturas, precisa encarar o inglês sem preconceitos. E falar razoavelmente bem. Nem Paris com seu protecionismo francofônico consegue se isolar da língua anglo-saxônica, que dirá os demais lugares do mundo. Beijing, por exemplo, parece estar andando a passos mais largos que Seul nesse sentido. Acho que a última coisa que os coreanos querem é ser motivo de chacota por turistas estrangeiros.
Por outro lado, achei de certa forma engraçada a preocupação da reportagem. Porque, veja bem, qualquer pessoa que visite a Coréia e não fale coreano ou chinês, logo perceberá que o nível do inglês da maior parte da população deixa a desejar – e muito. A maioria, aliás, fala konglish. Aliás, de qualquer outra língua estrangeira ocidental – eu nunca encontrei um coreano que falasse alemão ou italiano, por exemplo. Deve existir, mas são raros. Basta ver exemplos de konglish como esses.
Esta “frase” estava na caixa de um bolo que comprei na padaria.
E esta está na capa do meu caderno de anotações caseiras.
São apenas exemplos, ambos ininteligíveis.
Se olharmos com rigor para outdoors, lojas, folhetos explicativos, websites… perceberemos deslizes muito piores, mais gritantes. Qualquer estrangeiro mais curioso que por aqui passe vai perceber que a comunicação clara em inglês ainda é um problema grave a ser resolvido pela Coréia do Sul. Aliás, eles estão tentando resolver de forma efetiva, incentivando cursos de inglês desde a pré-escola, criando colégios de imersão, entre outras táticas. Certamente a qualidade do ensino do inglês é papo para longas discussões, mas enfim, vamos assumir aqui que seja ok.
Seul já foi sede de Olimpíadas (em 1988) e Copa do Mundo (em 2002). A cidade tem todos os sinais de rua, metrô, ônibus, etc. em duas línguas. Aliás, a maior parte da cidade tem instruções básicas em pelo menos duas línguas, o que já é um avanço perante vários outros lugares pelo mundo.
O problema é mais profundo, sutil, reside na comunicação das pequenas perguntas, das informações pitorescas, questões como “o senhor sabe por gentileza onde fica o correio?” Uma pergunta dessas desaba qualquer coreano independente de classe social ou escolaridade, porque ele simplesmente não entende o que você está falando, por mais devagar que você se expresse. E, traço característico da cultura asiática em geral, dá uma risadinha de vergonha/constrangimento e sai de perto. Nessa hora, você, estrangeiro, fica com a carta na mão. É claro, o meu “se-virômetro” apita na hora, e logo tasco uma mímica qualquer para ajudar no entendimento. Mas em geral, é assim que la nave va.
De forma irônica, matutei que o monumento em Seul estava apenas mostrando ao turista uma das principais características culturais não-declaradas em folhetos turísticos da Coréia do Sul: a dificuldade de comunicação com o estrangeiro. No caso, pelo não-domínio da língua inglesa. Que gera a dificuldade de adaptar-se ao novo em que esse país se encontra.
Fiquei pensando se, caso ocorresse no Brasil, nós não daríamos um belo jeitinho na tal pedra…
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
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Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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ui mas caracteristicas da ttartaruga/? hahahhaa