…E foi só eu me atrever a escrever um tempo atrás sobre falta de criatividade dos cientistas para aparecer algo que me contradissesse completamente. Hoje recebi pelo correio um calendário de palestras para um Congresso de Biologia Molecular aqui em Seul. Seria apenas mais um calendário, se não tivesse começado a folheá-lo. E perceber, pelo título das palestras, a notável criatividade dos cientistas para nomear… genes.
Nossos genes têm uma maneira oficial de serem nomeados, de acordo com o comitê de Organização do Genoma Humano – o HUGO. E são mais de 21,000 conhecidos em nossas células. Pois bem, Hugo estabelece normas específicas para a nomenclatura dos genes humanos (e por consequência, todos os genes de seres vivos seguem praticamente a mesma regra). Evita-se, assim, que os mais narcisistas saiam por aí fazendo auto-homenagens infundadas. (Já pensou se existisse o gene “Malla” em cada um de nós?) E, como diria Arnaldo César Coelho, a regra é clara:
E assim, organizaram-se os PTPs, JNKs, MPMs, PKAs… Todas abreviações vindas do nome em inglês. E que trazem um significado intrínseco de sua função, localização ou algo que o valha.
Já as proteínas (o produto final de cada gene) têm uma nomenclatura variada – a regra não é tão clara ainda. Algumas estabeleceram-se pela tradição (ninguém vai querer mudar nessa altura do campeonato o nome da insulina, né?). Outras foram batizadas com nomes derivados de sua função. Fica bem fácil, por exemplo, imaginar quando no ciclo da vida a cadaverina toma conta do corpo. As mais novas proteínas identificadas em geral seguem regras aleatórias, que vão desde o uso do mesmo nome do gene (como a PTP) ou de referências à sua localização no organismo (como a endotelina).
A humanidade, como todos sabemos, prima pela criatividade em momentos adversos. E é claro, nomes e apelidos de genes e proteínas saíram desse mundo de sopa de letrinhas sem graça para virarem uma verdadeira competição de exotismo e humor contidos em uma abreviação. Sabe o projeto experimental dos mini-contos? Pois bem, a sensação é de que existe algo assim rolando nos bastidores dos laboratórios, tamanha viagem na maionese em alguns casos. Por exemplo, entre as palestras do Congresso citado acima, um grupo falará sobre o gene POLTERGEIST.
Arregalei os olhos. Existe um gene chamado POLTERGEIST? Sim, e é um gene de planta. Comecei a fuçar no Pubmed (o diretório mundial de artigos científicos). E achei outros genes e/ou proteínas com nomes pra lá de hilários.
Separei abaixo alguns exemplos para um divertido estudo sobre a natureza humana dos cientistas (ou pelo menos sua “criatividade”).
CHIP (um CHIP dentro de cada um de nós, que coisa mais Matrix!). Hip e hop. Mad e Max (seria a continuação do filme?). Saxophone (um gene não só de músicos). Osterix (como se não bastasse o Pokemon para “invadir” os laboratórios…). Teashirt (auxiliado pela proteína Grunge). Swiss cheese (hmmm!! Esse gene me deu fome…). Secret agent (que trabalha com o gene Spy). PICKLE. Tigger (a fera dentro de nós!). Lamp. Id e Ego. Aurora (Brilhando no horizonte terapêutico?). Mustang. Smurf (mais quadrinhos… esse exemplo eu pincei num artigo entitulado “Um novo Smurf na Vila“, que termina com a pérola: “(…) it seems likely that the world will be an even “Smurfier” place in years to come.” Por um mundo mais Smurf – whatever this means.).
Depois tem quem diga que cientistas são pessoas sisudas, sem senso de humor, que só falam pra si… uma coisa é certa: na ciência, ganha-se pouco, mas muito se diverte!
Tudo de bom sempre.
PS: Alguns médicos tiram toda a graça dos geneticistas…
Ontem foi aniversário da mulher mais maravilhosa do mundo: minha mãe. Parabéns, minha linda!! Você é a minha inspiração diária para sempre batalhar pelos meus objetivos com muita singeleza e alegria.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
Ver Comentários
Procurando alguma informação a respeito da nomenclatura dos genes deparei-me com este texto bem humorado da Lucia Malla.
Fiquei decepcionado com a realidade demonstrado factualmente pela autora.
Eu imaginava que as letras apontariam os cromossomas onde os mesmos exerciam as suas múltiplas funções e os números, os lócus.
Seria muito mais instrutivo, pois nos nomes estariam contidas informações singulares. Peninha...
Parabéns pela inteligente crítica.