“Blog é liberdade.”
Foi com essa frase simples e direta que o grande Ina começou há uns tempos um post sobre a blogosfera. Uma definição tão clara que não dá para esquecer.
Mas eu também gosto muito do mote “Blogs são conversações”. Porque não dá pra definir melhor a filosofia blogueira que um grande bate-papo – sério, alegre, melancólico, artístico, seja o que for e como for, mas um grande bate-papo entre seres humanos.
E é com base nessas 2 frases simples que hoje resolvi comentar um pouco sobre algo que venho matutando: o zunzunzum sobre as blogagens coletivas.
Acabamos de sair de uma blogagem organizada pelo Faça a sua parte (blog coletivo em que colaboro com muito carinho) sobre o dia mundial da Água. Uma blogagem de sucesso a meu ver, pois trouxe uma gama de informações relevantes sobre as condições desse recurso no planeta em blogs bastante variados – a participação de dois blogs do curso de jornalismo da Unip me surpreendeu positivamente, confesso. Uma blogagem que agregou pessoas em torno de um ideal. Mais que agregar: multiplicou a mensagem.
Mas essas iniciativas “de um dia só”, como dia da mulher, dia da água, dia do submarino amarelo, etc. parecem não empolgar a todos. Particularmente, eu acho que cada um é livre para gostar do que quiser, e participar do que bem entender. Ninguém é obrigado a escrever nada que não queira, ainda mais num blog, cuja premissa básica é a liberdade – na forma, no estilo, no conteúdo, enfim, em praticamente tudo. Entretanto, fico triste quando ouço falarem das blogagens com um quê de vilanização. Por 3 motivos:
1) porque gera mal-estar e culpa em muitos que até se disponibilizariam a participar. Essas pessoas deixam de lado sua boa intenção inicial influenciados pela não-coolzice do ato que outros apedrejam. Tudo que é feito com culpa é ruim, e pior ainda se feito por obrigação. Termina-se por fim desestimulando a ação, o que deveria ser uma decisão estritamente pessoal;
2) porque eu particularmente prefiro que as pessoas parem e pensem sobre um tema relevante pelo menos uma vez no ano do que nunca pensarem (se pensarem durante o ano todo, melhor, mas eu sei que essa minha polianice tem um quê de utopia). Viver no mundo cor-de-rosa da ilusão de que problemas/idéias muito mais abrangentes não existem fora da sua rotina cômoda de propaganda de margarina é algo que pessoalmente me deprime. Aliás, comodismo intelectual me incomoda, em geral. Encarar a realidade é, para mim, sempre a melhor solução, em todos os aspectos da vida, e toda iniciativa que mostra realidades/idéias/construções interessantes vale a pena ser propagada de alguma forma, a meu ver;
3) porque não dá pra ninguém querer resolver todos os problemas do mundo ao mesmo tempo. Há de se ter um compartilhamento de ações, funções e afins, e parece que essa é a parte menos entendida pelas pessoas, que parecem exigir que você se envolva com todas as causas da galáxia ao mesmo tempo. Não dá, simples assim. A gente tenta se ajudar um pouquinho para ganhar força, que assim fica mais fácil. Partir do indivíduo pro coletivo faz parte desse processo. É aí que entra a função replicadora das blogagens: espalhar a sementinha de cada um para reverberar no todo.
Ninguém é obrigado a participar de nada, e eu espero que essa seja a premissa básica de todos pela vida a fora – os blogs só refletem o mundo real, afinal. Há de se reconhecer a hora do sim e a hora do não. Mas o que eu realmente não entendo é a “crítica pela crítica”, vazia, sem fundamento, a algo que não cheira nem fede, que apenas acrescenta. Então, o resultado dessas 3 conjunturas é uma situação triste: o fulano acha que escrever um post numa data dessas precisa ser super-ultra-elaborado-tese-de-doutorado e desiste (com razão) por cansaço de procurar – e esquece que a melhor contribuição é aquela feita com espontaneidade, com o background que cada um tem de vida. Ou pior: o fulano acha que escrever numa blogagem é “se converter ao rebanho” ou “se comprometer com unhas e dentes por uma causa que não é minha”, quando a idéia é exatamente o contrário, é ressonar e/ou indicar àqueles que realmente fazem sua parte por aquela causa, que a amam e lutam por ela. Eu, por exemplo, não entendo nada de amamentação, e fico feliz que existam pessoas como a Denise para virarem referencial na luta pela divulgação do tema. Tenho certeza que ela pensa o mesmo em relação a mim com outros temas. Mas não custa eu participar de uma blogagem sobre amamentação, nem que seja só pra reafirmar aos poucos viajantes desse nanoespaço internético que “o assunto é importante, mas eu não entendo e remeto vocês a quem merece ser lido” – colocando a minha perspectiva ou não, que cada um é livre pra fazer o que quiser nessa blogosfera sem porteira. Mas deixando enfim a informação lá, ao belprazer do receptor da mensagem, o leitor. É o leitor afinal quem decide o que absorver – e todos somos leitores, uns dos outros e de mais um tanto, portanto nós estamos a toda hora escolhendo.
Assim vai acontecendo com um monte de gente e de iniciativas que pipocam por aí. As blogagens coletivas de datas específicas servem, a meu ver, para que as pessoas se reúnam em torno do tema que um ama e o outro não consegue se dedicar com afinco – ou por falta de tempo, de vontade ou de conhecimento. É como se esse mesmo outro, com seu post, acenasse de seu bote inflável no mar virtual e dissesse: “ei, eu sei que esse problema existe!”. Já está lindamente maravilhoso essa sincronicidade: é o conhecimento reverberado. A pessoa não precisa estar focada naquilo em sua vida, mas compartilha a preocupação, e quem sabe, leva pra mesa de boteco da semana que vem com os amigos uma informação sobre o mundo que antes nunca pensara existir. Ou mais extraordinário: é o fulano que cai aqui procurando por “foto de tubarão mordendo pessoas” e termina lendo sobre o problema do consumo das barbatanas. O fulano leu, absorveu algo diferente, aprendeu talvez, e isso é lindo. Nessas datas coletivas, o que a gente vê em geral é propagação, nem que seja por um dia, do comum interesse do grupo ou de todos. E os assuntos podem ir de quadrinhos a ecossistemas, que há espaço para todos os gostos e tons. Essa é a grande característica que eu prezo da rede: o vai e vem do conhecimento, a conversa, a troca. Muitos universos se juntando. E a facilidade com que blogagens coletivas trazem à tona percepções diferentes do mesmo problema/tema, com que agregam visões e emoções, com humor e coração limpos, que trazem à superfície a diversidade de opiniões, acima de qualquer egolatria desvairada que possa haver, é que me faz acreditar que elas devem ser iniciativas boas na sua concepção mais básica e crua, que merecem existir, e que, havendo-as, nos tornamos mais livres ainda para elaborarmos nossas próprias opiniões exercitadas por meio da ferramenta chamada blog. Crescer como ser humano – afinal, você nunca sabe se a partir de uma ação assim, uma pessoa passa a se interessar e agir na vida real em prol de uma causa ou paixão.
Eu adoro saber que existe essa probabilidade em cada esquina da rede.
E para finalizar, roubo o ótimo desfecho do Afonso, escrito no post de análise da blogagem da água:
“Alguns mais céticos talvez possam dizer que apenas escrever em blogs não resolverá o problema. Nós, do Faça a sua parte acreditamos que sim, pois escrever e transmitir o que se escreve espalha consciência. E é de consciência sobre os problemas que causamos ao meio ambiente que precisamos.
(…) O meio ambiente humano é isso: relação humana e consciência.”
Com um pé na realidade e outro no idealismo necessário para construir um mundo melhor, a consciência da diversidade.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
Ver Comentários
Belo post!
Otimo post, Lucia. Nao sei quem nao gosta de blogagens coletivas. Nao percebi isso por aih ainda, mas concordo contigo em tudo. E acrescento o fato de que conheci muita gente legal e blogs legais por causa de blogagens coletivas. Sem elas eu talvez jamais tivesse a oportunidade de conehcer alguns blogs. Tambem nao vejo nem nunca vi nenhuma obrigacao de participar. A blogagem sobre a agua, por exemplo, eu queria tanto ter participado, mas nao deu. Na ultima hora nao consegui preparar nada, entao soh mencionei e li os posts de alguns participantes. Na minha cabeca, obrigacao de blogueiro eh ser educado e respeitar a opiniao alheia. E soh. Alias, se me obriga a fazer qualquer coisa, aih eh que eu nao quero mesmo. :-)
Beijos.
Olá Lucia!
Acho que boa parte do post dialoga com outro do Catatau, sobre Egolatria e campanhas de links. Pelo menos, acho que sim, rssss
Colocando como diálogo, o Catatau havia chamado a atenção sobre como certas proliferações discursivas (como campanhas de links) às vezes favoreceriam muito os ativistas da campanha, e pouco as próprias causas dela.
Por exemplo, a última campanha do Interney serviu para "trazer mais lucidez à blogosfera". Mas peraí: a blogosfera não é lúcida? E enfim, quem se beneficia com uma campanha episódica destas? É necessário que a lucidez da blogosfera seja radicalmente considerada, em termos de valorizar o caráter plano, democrático e não hierárquico do hipertexto, por exemplo. Daí o blog ter chamado a atenção não aos fins de uma campanha de links, mas aos meios atualmente empregados. Uma campanha de links é maravilhosa: totalmente informal, disjuntivamnete articulada, e em tese não-hierárquica (não deveria ser, pelo menos). Como maravilhosa, devemos sempre ter em mente seu caráter disjuntivo e democrático, o que vc bem chamou a atenção.
Outro elemento que o Catatau chamou a atenção é sobre como, muitas vezes, proliferações discursivas como as dos blogues acabam se comportando como certas repartições públicas: milhares de cabeças pensantes pensando sobre algo que nunca chegará às vias efetivas. Ou em outras palavras, um excesso de pensamento não correspondendo à ação, via de regra contrária ao próprio pensamento. Obviamente, informação é essencial. Mas às vezes o excesso de discurso não corresponde à ação, como se o excesso de consciência sobre um assunto fosse inebriante, e não estimulante.
Obviamente, isso não serve de crítica nem às campanhas de links já feitas, e nem a essa sobre a água. Caso fosse assim, viraria apenas mais uma discussão, entre blogueiros pró e contra a eficácia dos blogs. Mas como temos sempre os dois lados (os blogs são sim emancipadores, pois são hipertextuais; e vivem sim sob o risco das hierarquizações, pois são feitos por pessoas), pelo menos os questionamentos do Catatau serviram como uma espécie de pergunta ao próprio blogueiro sobre como se conduzir.
um abraço,
Comentário da Georgia que estava no post abaixo e que replico aqui:
"Viemos aqui para te convidar para uma blogagem coletiva com o titulo:
O que voce pode fazer para acabar com o analfabetismo no Brasil?
Que acontecerá no proximo dia 18 de abril, dia nacional do livro.
O post convocatoria voce pode ler no blog da Georgia (http://saia-justa-georgia.blogspot.com/) e no blog da Meiroca (www.meiroca.com).
Caso voce tenha algo a dizer a respeito, deixe um comentario no blog da Georgia ou da Meiroca, para que possamos te incluir.
Participe e divulgue em seu blog.
Georgia e Meire"
Marilia, valeu! :)
Andréa, eu tbm tenho isso muito claro: respeitar a opinião alheia e ser educado são a base. Mas não há obrigação alguma. Esse papo surgiu em 2 listas de discussão de que faço parte, em contextos completamente diferentes, mas de certa forma com a mesma idéia por trás - e um certo cansaço.
Catatau, obrigadíssima pelo seu comentário ótimo. Eu concordo em boa parte do que vc escreveu lá, mas discordo com relação ao excesso de informação. A meu ver, o excesso de informação é "personificado" na web pelo santo Google. Ali, vc busca qualquer coisa e acha tudo meio espalhado em inúmeros sites, precisando filtrar, separar alhos de bugalhos. As blogagens coletivas fazem o trabalho de filtragem: agregam apenas a informação relevante que estava espalhada pela rede. Ou seja, são facilitadoras da organização e da disseminação do conhecimento. Elas podem ser cansativas pra quem faz (o blogueiro), mas são a meu ver muito úteis para aquele q busca a informação, pois acha o que procura em um lugar só. São eficazes nesse ponto, a meu ver.
Beijos a todos vocês.
Olá, como vai?
Antes de tudo, parabéns pela iniciativa de utilizar seu blog para unir pessoas em torno de alguma causa. Assim como você, acreditamos no potencial da blogagem coletiva como formato possível de união e mudança na sociedade.
Criamos recentemente o blogagemcoletiva.org (www.blogagemcoletiva.org). Trata-se de um agregador de conteúdo voltado à divulgação de mobilizações coletivas realizadas via internet.
A idéia é tanto auxiliar o blogueiro a potencializar suas manifestações como também divulgar os resultados obtidos através de sua iniciativa. O funcionamento é semelhante ao de indexadores como Uêba, Ocioso e Linklog. Tudo pode ser feito sem a necessidade de cadastro. O blogueiro nos envia sua manifestação por meio do link “envie uma blogagem” presente no topo da página e, se tudo estiver dentro das nossas políticas de publicação, ela será divulgada no site.
Ah, e para incentivar a adesão da blogosfera nós criamos um ranking, onde os visitantes podem declarar por meio do voto sua participação ou apoio à causa. A manifestação mais votada a cada semana ganhará destaque especial no site.
Podem ser blogagens coletivas, memês, petições, campanhas, protestos e toda e qualquer manifestação válida que busque contribuir de alguma maneira com a sociedade. Por isso, junte seus (suas) companheir@s de blogagem e faça da blogosfera um mais produtivo e engrandecedor. E conte com a gente para que sua iniciativa contamine mais e mais pessoas!
Se puder divulgar a gente em seu blog, seremos muito gratos!
Viva a democracia!
Michell Niero