Torre de um dos muitos navios afundados.
Última atualização do post “Truk na Mergulho” sobre Chuuk: 07/agosto/2019
A revista Mergulho de abril/2009 (n. 153) teve uma reportagem escrita por mim, sobre o mergulho nos naufrágios de guerra da laguna de Truk, em Chuuk. As fotos são do André Seale.
Falei um pouco aqui antes sobre esta oportunidade de mergulho em Truk. É um museu de guerra subaquático, muito interessante. Como a revista Mergulho acabou, deixo abaixo a reportagem que foi publicada para os interessados.
Tudo de bom sempre.
Chuuk é um desses locais perdidos no meio do Pacífico que ficaram famosos por uma combinação fortuita de metal, vida e tempo. Foi um dos palcos de batalhas na Segunda Guerra Mundial entre Estados Unidos e Japão. Ali, naufragaram em sua laguna vários navios, que tornaram a ilhota hoje um dos melhores locais do mundo para mergulho em naufrágio.
Chuuk é uma das ilhas que formam os Estados Federados da Micronésia, país do norte do Pacífico. A Micronésia se fez independente em 1986, através de um Pacto de Livre Associação com os Estados Unidos. O nome atual significa “montanha” em chuukês, uma das diversas línguas de origem micronésia. Entretanto Truk, o nome antigo, continua sendo utilizado, agora mais para indicar a laguna principal do atol, onde os naufrágios estão.
Apesar da ajuda econômica americana muito forte, a população de Chuuk é um pouco diferente das dos demais países-ilhéus do Pacífico com os quais os americanos lidam. Apesar de viverem do turismo, esforçam-se pouco para agradar os que lá chegam.
As estradas são poucas e mal conservadas por um motivo no mínimo curioso. Chuuk recebeu uma verba americana para melhorar suas estradas e desenvolver a cultura do carro, característica tão ianque. O governo decidiu fazer então um plebiscito para saber se a população gostaria de ter melhores estradas nas ilhas. Para surpresa de todos, venceu o “não”. Com isso, o governo decidiu aplicar a verba de forma inusitada. Comprou então um barco a motor para cada família do país. Hoje, a cena mais comum no arquipélago são barquinhos cruzando a laguna, com famílias em seus mais diversos afazeres, num indo e vindo contínuo.
Mas, enquanto barcos zumbem na superfície, é embaixo d’água que o local conquista os turistas. Estes são em geral mergulhadores ávidos por aventuras subaquáticas.
A história de Chuuk, como todo país-ilhéu, está intimamente ligada ao mar. Estima-se que há cerca de 2000 anos os primeiros navegadores micronésios chegaram ali para colonizar. Vieram de Kosrae, a ilha vizinha.
Durante os séculos seguintes, o atol passou por vários conquistadores. Espanhóis, portugueses, franceses, ingleses, alemães, russos, japoneses e americanos, além de pescadores diversos (principalmente baleeiros) e dos missionários religiosos, todos passaram por ali. Mas foi na Segunda Guerra Mundial que fez Chuuk entrar no mapa do mergulho do futuro. Porque uma frota japonesa inteira naufragou na laguna do atol. Naquele momento histórico, Chuuk estava sob domínio japonês. A laguna de Truk era, portanto, o principal porto de apoio logístico, local de abastecimento bélico dos navios de guerra japoneses. Dali, enfim, as armas eram redistribuídas para os demais navios no Pacífico para combater as forças aliadas.
Muitos navios de apoio juntos logo se tornaram um excelente alvo. Em 1944, os Estados Unidos bombardearam os navios japoneses em Chuuk. Este evento estratégico ficou conhecido nos livros de história como “Operação Hailstone”. Neste ataque, sucumbiram 40 navios e cerca de 200 aviões japoneses, muitos deles ainda dentro dos navios. Além disso, ataques subsequentes americanos levaram a pique mais uma dúzia de navios. Apesar da destruição, é nesse ponto que a história de Chuuk colateralmente se volta para o mergulho.
Os navios que afundaram durante o bombardeio logo se transformaram em agregadores da vida marinha. A laguna de Truk de repente viu nascer uma série invejável de recifes artificiais a profundidades acessíveis ao mergulhador recreacional e tanto metal virou refúgio de uma grande diversidade de espécies. Os naufrágios japoneses sem resgate foram colonizados por cardumes de peixes, inúmeras espécies de corais, moluscos, esponjas e demais invertebrados.
A laguna central, mais de 60 anos depois do bombardeio, se transformou num imenso jardim colorido, com a estrutura metálica dos navios servindo de substrato para esta explosão de vida e biodiversidade. É essa combinação de vida exuberante e relíquia histórica que faz da laguna de Truk um verdadeiro parque de diversões para mergulhadores.
Há inúmeras tentativas de escolher qual seria o naufrágio mais interessante a ser mergulhado ali. Opções existem para todos os gostos, níveis de habillidade e interesse, incluindo-se aí o Rio de Janeiro Maru, que está deitado de lado no fundo do mar entre 12 e 35 metros de profundidade e é considerado um dos que atraem o maior número de tubarões da laguna.
Pela popularidade, entretanto, parece que o título fica com o Fujikawa Maru, o mais visitado do país. Um cargueiro de 132 metros de extensão, construído pela Mitsubishi e em sua sala de estocagem ainda há vários aviões Zero praticamente intactos. Além dos aviões, praticamente toda a carga de munição, combustível de aviação, substâncias cáusticas e torpedos ainda estão lá, no fundo do mar, num verdadeiro funeral de guerra. Nada pode ser retirado dali, já que a laguna agora é preservada pelo governo local como um museu da guerra submarino, sob regulamentação severa.
O Fujikawa Maru descansa a 34 metros e sua estrutura de cabines a 9 metros de profundidade, o que o torna ideal para mergulho recreacional. Há um canhão na proa e o mergulhador pode explorar a sala de máquinas, a cabine de comando, as cabines de tripulantes e até os banheiros do navio.
Já o Shinkoku Maru, naufrágio praticamente intacto, é considerado o mais belo de toda a laguna – como se fosse fácil escolher um dentre tantos… Dentro do Shinkoku, o registro de um momento: ainda estão afundados ali todos os apetrechos de cozinha, talheres, fogão e utensílios.
Mas o mergulho em Chuuk não é só feito de naufrágios. Há diversos recifes de corais nas ilhotas do atol.
No Shark Reef, uma área da laguna de Truk onde tubarões-de-recife residem, o mergulho pode se tornar pura adrenalina. Os tubarões-de-recife são frequentemente avistados ali, já que usam a área como estação de limpeza – budiões limpadores vêm se alimentar de parasitas e microorganismos que crescem na pele do tubarão. Um comportamento difícil de ser visto num ambiente natural.
Todas essas aventuras tornam o arquipélago de Chuuk uma pequena jóia do Pacífico, cheia de histórias de guerra e naturais pra um mergulhador curtir e contar. O tempo passou, a guerra acabou, o metal ficou e a vida se propagou. Ainda bem.
A única maneira de chegar a Chuuk é pelo vôo Island Hopper da United, saindo ou de Honolulu (EUA) ou de Guam.
O Truk Stop Hotel é um hotel simples e aconchegante, ideal para aqueles interessados numa estadia intensa de mergulho, e seu bar tem o propício nome de Hard Wreck Café. O hotel fica ao lado do Truk Lagoon Dive Center, cujo serviço é muito bom.
Essa é uma viagem primordialmente de mergulho. Não há muitas lojas nem restaurantes e nenhum grande atrativo terrestre no local. Portanto programe-se para muitas horas de diversão submerso. Alguns naufrágios merecem ser mergulhados diversas vezes, já que podem ser explorados de ângulos diferentes.
Booking.comMaioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…