Já se vão alguns anos em que estive por dois dias na Île des Pins. Ou Ilha dos Pinheiros em português. Isle of Pines em inglês. Ou ainda Kunié na língua kanak local. Gosto de usar o nome em francês. Torna-a ainda mais poética e saudosa. Apesar da passagem do tempo, esta ilha da Nova Caledônia não me saiu da cabeça. Por um motivo simples. Das tantas ilhas que já visitei na vida (e não foram poucas, dada minha islomania), esta é a que achei a ilha mais bonita do mundo, dentre todas as ilhas.
Claro, esta é uma escolha extremamente pessoal. Resultado talvez do impacto da chegada, sobrevoando um mar azul como nunca vi antes. Talvez por tê-la conhecido no meu aniversário. Ou ainda talvez seja a discrepância da paisagem, mistura de mar tropical do sul do Pacífico com pinheiros/araucárias que mais parecem temperados.
Não sei explicar, mas a Île des Pins me pegou de jeito pelo coração. E nunca mais me largou, aliás. Sonho em lá voltar. Espero que um dia este sonho se realize.
A Île des Pins é uma pequena ilha ao sul da Grand Terre, ilha principal da Nova Caledônia, um protetorado francês que já é por si só uma pequena jóia do Pacífico sul. E dentro desta jóia, a Île des Pins é um diamante em estado bruto, desconhecida e esquecida pela maioria. Quer dizer, menos por quem a visita.
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O vôo até lá já foi um espetáculo, prelúdio enfim do que nos esperava na ilha. Saímos do aeroporto doméstico de Magenta em Noumea ao meio-dia, num vôo da Air Calédonie. Este vôo sobrevoa um pedacinho da costa do níquel. Além disso, sobrevoamos a barreira de recifes de corais que forma a maior laguna do mundo, patrimônio da humanidade por sua biodiversidade estupenda.
À medida que o vôo vai se distanciando da Grand Terre, começam a pincelar ilhotas douradas, com suas minúsculas praias de água azul cristalina.
São inúmeras, a maioria delas desabitada. E me pego sonhando em uma viagem de barco que vá parando por cada uma delas…
Quando o avião começa a descer, começamos a ver os famosos “pinheiros” que dão nome à ilha. A visão dos mesmos é estonteante, contrastando com o azul lindo do mar ensolarado.
Estes pinheiros eram, para mim, a atração principal da ilha. Apesar de, na verdade, não serem “pinheiros” per se. A maioria são de uma espécie de araucária endêmica da Nova Caledônia, a Araucaria columnaris. Ao longe, lembram padrões de um sismógrafo, ziguezagueando por toda a costa. Mas as araucárias não anunciam um terremoto. Anunciam, contudo, a discrepância surreal e lindíssima desta paisagem tropical única. Principalmente quando se misturam aos tradicionais coqueiros.
Depois de aterrisar na Isle of Pines, entretanto, as araucárias passam a ser um pano de fundo para o que realmente encanta: as praias incríveis da ilha. Cada praia mais linda que a outra, mansas e de água quentinha, com corais e vida marinha incríveis, além de uma pacatez relax contagiante. Île des Pins é o melhor lugar para esquecer dos problemas da vida moderna.
A ilha tem 3 estradas principais. Saímos do aeroporto em direção ao Aquário Natural, considerado em qualquer guia um dos pontos mais lindos da ilha. Entretanto, a maré estava alta, inviabilizando a visita naquele momento. Depois de investigar o caminho pelo braço de mar que se forma, decidimos nos encaminhar para um rolê pela costa.
Pegamos a estrada para Vao, vilarejo ao sul conhecido por sua igrejinha. Além da estátua de St. Maurice à beira-mar, entre diversos totens kuniés. No passado remoto, na Île des Pins havia diversas tribos indígenas, todas de origem kanak (melanésia).
Já no século XIX, virou uma colônia penal francesa que recebia criminosos da França, aos moldes do que o império britânico fez com Austrália e Nova Zelândia. Algumas estruturas históricas desta época nefasta da colonização ainda são vistas, como a prisão e o cemitério em Mo. Neste cemitério, a maior parte das tumbas não têm nome. Eram considerados a escória da sociedade francesa, afinal, sem direitos a nada. Mas em Vao, a lembrança deste passado não se destaca. E o que predomina decerto é o bucolismo da igrejinha central.
De Vao, continuamos pela rodovia litorânea até a baía de Kanumera, um dos pontos cênicos da região. Em Kanumera, é possível fazer um snorkel relax, rodeado de rochedos incríveis. Estes rochedos são sagrados na cultura local kanak. Portanto, é proibido subir neles. Paramos ali para snorkelar e curtir a praia.
Depois de um tempo na água, continuamos pela estrada de árvores até a baía de Kuto. Que é outra baía idílica. Já havia perdido a conta de tantas baías e reentrâncias paradisíacas havia visto naquela tarde.
Era meu aniversário. Para comemorar, decidimos tomar um champanhe à beira-mar no bar do hotel Kou Bugny, o único desta região da ilha. O sol se pondo, a calma e a paz das marolinhas do oceano, com crianças e pássaros brincando na praia e… Ah! Me dá uma paz de espírito imensa só de lembrar esta cena.
Seguindo os conselhos da minha amiga que morava na Nova Caledônia, íamos acampar em uma das muitas praias desertas da ilha. A escolhida foi uma prainha próxima à baía de Kanumera. Ali, portanto, montamos nossa barraca e passamos a noite estrelada de verão. A área era um suposto camping. Há inúmeros na Nova Caledônia, porque eles aparentemente adoram acampar.
De manhã, o nascer do sol da praia foi outro espetáculo dourado de que me lembro como se fosse hoje.
Em nosso segundo dia na Île des Pins, o objetivo era fazer o snorkel no Aquário Natural. Desmontamos então nosso acampamento e nos encaminhamos para a baía D’Oro de novo. Desta vez, com a maré baixa, era possível entretanto deixar o carro no início da trilha. Chegamos à pé tranquilamente até o Aquário.
A caminhada não é longa, mas a paisagem estonteante gritava na minha cabeça. “Parece um rio da costa oeste americana… Mas você está numa ilha melanésia do sul do Pacífico com peixinhos coloridos!” Até hoje, este paradoxo tropical-temperado ainda é o que torna a Île des Pins tão especial para mim.
Ao chegar na mini-prainha do Aquário, André foi logo para a água, começar sua exploração subaquática. Eu não conseguia parar de fotografar, entretanto. Porque a cada segundo, um pedaço da paisagem parecia ser mais incrível. Nenhum barulho humano. Apenas o som do vento e das marolinhas que a pequena corrente trazia. Depois de um tempo embasbacada, me toquei que ~precisava~ também aproveitar os corais dali, e caí na água. E gente… O paraíso mesmo está embaixo d’água!
O nome Aquário Natural já diz tudo, mas não custa reforçar. São inúmeros peixes tropicais coloridos, entre enormes cabeços de coral, muitas ostras e anêmonas. Vimos até uma cobra-do-mar. A riqueza da biodiversidade daquele ponto do mapa, aliás, é estupenda.
O Aquário é protegido das ondas por um complexo de rochedos. Estes rochedos fazem a água do mar entrar por um tortuoso caminho que desemboca no Aquário. Que vira praticamente um piscinão de água salgada. E que piscinão…
Depois de algumas horas nadando no Aquário Natural, era hora de voltar. A maré, enfim, aos poucos enchia. Uma dor no coração imensa me arremeteu. Mal saí do Aquário e só conseguia pensar: “Quero voltar aqui um dia”.
Aproveitamos que estávamos por D’Oro para andar um pouco pela praia desta baía. Ali fica o luxuoso hotel Méridien. Na praia, uma pirogue, canoa tradicional kanak. Aliás, um pouco mais à frente, na baía de Upi, há passeios em que os visitantes podem navegar nestas canoas.
Na volta da Baía D’Oro, em direção já ao aeroporto, paramos na Gruta D’Oumagne ou Gruta da Rainha Hortênsia. Uma pequena caminhada na matinha cheia de samambaias leva da estrada até a entrada da gruta.
Este era o lugar onde a rainha da tribo local Ouatchia, Kaoua Véndegou, se escondia por meses durante os conflitos entre sua tribo e outras da ilha. Kaoua adotou o nome Hortênsia em homenagem à Napoleão. Além disso, foi a primeira pessoa de sua tribo a falar francês. Aliás, este fato provavelmente ajudou muito nas negociações políticas da época. Dentro da gruta, água e escuridão, pincelada por estalactites e muita umidade. É um passeio super-rápido. Dali enfim rumamos para o aeroporto.
Era hora de dar tchau para a Île des Pins. 🙁
Em diversos momentos daqueles dois dias, me peguei pensando em quão grata eu era por viver e ter a oportunidade de conhecer este verdadeiro paraíso terrestre. E me prometi: um dia voltarei. Para aproveitar a Île des Pins do jeito que ele merece. Sem hora pra acabar, sobretudo deixando a cabeça se esvaziar. De preferência, debaixo de uma araucária à beira-mar.
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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Um privilegio seu conhecer um local como esse.
Um privilégio mesmo, e sou 100% grata pela oportunidade. :)
Uualllll me imaginei lá! Estou sem fõlego.
O lugar é sensacional, Mirian! Merece a visita MESMO! :)