Biomédicas

Mal de Alzheimer: uma doença metabólica?

Recentemente, um estudo foi publicado na revista Neurology associando diabetes tipo 2 e o aparecimento do mal de Alzheimer – que chamo simplesmente de Alzheimer para facilitar. A ligação destas duas desastrosas patologias já é sugerida há algum tempo na comunidade científica e médica. Ambas são consideradas “doenças do envelhecimento”. Mesmo que a diabetes tipo 2, uma doença metabólica, seja cada vez mais comum em pessoas jovens.

A diabetes pode, se mal-cuidada, afetar a microcirculação sanguínea em diversos órgãos (incluindo o cérebro). Isto aumentaria o risco de desenvolvimento de lesões locais. O que, no final das contas, pode gerar um certo nível de demência, dependendo de onde a lesão se encontre. Sabemos que demência é a característica aparente mais marcante do Alzheimer’s. Além disso, já se sabe que a diabetes pode diminuir a quantidade de transportadores de glicose no cérebro, o que diminui a inserção de glicose em moléculas ligadas ao desenvolvimento do Alzheimer.

Para jogar mais água no feijão, a insulina nasal já é sugestão de tratamento de demência leve. O que mostra mais uma vez que, hmmm… Pode haver afinal uma correlação entre as duas como doença metabólica. Pelo menos, o tratamento de uma deu resultados na outra. Coincidência ou causalidade?

Alzheimer nos japoneses

O estudo publicado foi além. Mostrou que, num grupo grande de diabéticos tipo 2 japoneses (que possuem características um pouco diferentes dos diabéticos ocidentais, vale ressaltar), houve associação dos níveis de glicose no sangue com o aparecimento das placas neuríticas de amilóide*. Estas placas são típicas da progressão do Alzheimer’s. Os dados foram ajustados para uma série de fatores, e os pesquisadores conseguiram obter significância estatística na associação entre as duas doenças. Para desespero dos 220 milhões de pessoas que sofrem com diabetes no mundo (dados da OMS).

*Amilóide (na realidade, beta-amilóide) é um peptídeo, ou seja um pequeno pedaço de proteína. Quando falamos em amilóide no Alzheimer’s, são agregações destas proteínas formando as placas.

Mas, queria divagar um pouco sobre algumas questões que este estudo levanta.

Questão 1: a população estudada

Em primeir lugar, o grupo experimental: japoneses. Há sabidamente uma diferença no desenvolvimento da diabetes em diferentes etnias, principalmente japoneses. Ocidentais em geral apresentam obesidade como causa primordial da diabetes tipo 2. Já os asiáticos tendem a ter a maior parte de suas complicações relacionadas ao sistema cardiovascular, mesmo se diabéticos. Eles, aliás, não são geralmente super-gordos (para nossos padrões, entenda-se). Não se sabe ao certo como estas diferenças étnicas podem ser relevadas num estudo de associação como este publicado no Neurology.

Será que a correlação glicose-aparecimento das fatídicas placas de amilóide no cérebro é uma característica de todos os diabéticos independente de sua etnia? Ou é mais prevalescente entre os diabéticos orientais? O estudo não tem como responder isso. Pelo menos, enquanto não houver um grupo experimental de diabéticos não-orientais. Ou seja, estudos em não-orientais precisam ser feitos para esclarecer tal correlação com esta doença metabólica.

Questão 2: a dificuldade de aferir em tempo real

Em segundo lugar, a dificuldade de se estudar Alzheimer’s na prática. A complicada coleta de dados decisivos, que pode passar por anos de espera, já que a doença é de progressão lenta em boa parte dos casos. No estudo da Neurology, por exemplo, os cérebros só puderam ser analisados em detalhe depois do falecimento dos pacientes. Aí então os pesquisadores puderam se certificar da existência ou não de placas de amilóide e das fibras características da doença. E finalizar a associação desejada.

Além dos testes psiquiátricos, não há muito disponível no mercado para confirmar o diagnóstico de Alzheimer’s. Há pessoas com Alzheimer’s que desenvolvem demência e têm grandes placas de amilóide, visíveis por PET scan, e essas são de fácil diagnóstico. Mas há aquelas (e não são poucas) que, ao invés de grandes placas, formam múltiplos depósitos de amilóide microscópicos e de fibras neurotangliares dentro do cérebro. Não há como detectar essas microdiferenças histológicas em exame laboratorial comum.

Para piorar a situação, há indivíduos que desenvolvem Alzheimer e não têm tantas placas assim. Ou ainda, pessoas que já possuem placas visíveis e não têm sinal algum de demência. O que deixa os pesquisadores então mais confusos ainda. Muito da pesquisa de Alzheimer é feita em linhagens celulares de laboratório. Estas linhages são apenas o primeiro passo embrionário no processo de desenvolvimento de drogas que curem a doença, ou em animais. (E pense nos 2 anos em média que se espera para um camundongo ficar velho e desenvolver Alzheimer.) Só então é cabível uma analogia com humanos. Quando o animal pode oferecer enfim dados utilizáveis em pesquisa.

Ou seja, uma eternidade em termos de ciência biomédica. E esses são apenas os primeiros passos para o desenvolvimento de uma droga que funcione contra qualquer doença.

Questão 3: a causa do Alzheimer

Em terceiro lugar, a causa do Alzheimer’s. Ninguém sabe ao certo. Há suspeitas e indícios fortes de componentes genéticos, de diferentes estilos de vida, de hábitos nutricionais, de estímulos mentais ausentes no correr dos anos. Mas ainda não há um martelo certeiro para dizer “é isso”. Não se sabe o que leva uma pessoa a começar o processo de acúmulo de amilóides, que impedem a formação e/ou manutenção de conexões neuronais, e iniciar a demência. O fato de ter se confirmado um fator de risco – a existência de diabetes – já é um enorme passo para começarmos a entender esta complexa causalidade.

Neste momento, essa é uma área “quente” dentro do ramo das neurociências. Porque se confirmado que em humanos o Alzheimer’s é na realidade uma disfunção do metabolismo da glicose, ou um defeito da sinalização de insulina… Aí a corrida do ouro vira corrida dos diamantes para a pesquisa biomédica. Porque se matarão duas patologias que afetam milhões com uma cajadada só.

Alzheimer e diabetes tipo 2

No cérebro, a glicose entra na célula de uma maneira diferente, independente de insulina. Faz sentido: o cérebro é o órgão que mais precisa de açúcar no nosso corpo, não pode ficar dependente de insulina. Entretanto, há mecanismos que achávamos “secundários” neuronais que dependem da insulina. Pelo visto, não tão secundários assim com relação ao aparecimento do Alzheimer. É fascinante aos meus olhos de cientista saber que é uma mesma via metabólica, a absorção e uso da glicose, em uma célula diferente, gerando uma doença metabólica completamente diferente. Mostra o quanto realmente nosso conhecimento é um grão de areia na praia.

E pode facilitar a busca de uma solução, para ambas as doenças, que já vou viajar na maionese, puxar a sardinha pro meu lado e chamar aqui, diabetes e Alzheimer, de “doença metabólica”. Afinal, para uma pessoa endocrinocêntrica como fui treinada, tudo na vida passa pela comunicação hormonal. E o hormônio insulina, nessa via de comunicação entre células, é a mais básica unidade elementar de linguagem dos animais: a molécula gutural que garante energia para a gente agir, pensar e viver.

Tudo de bom sempre.

(Ou até o Alzheimer’s chegar…)

P.S.

  • Eu juro de pé junto que não sabia de tal data comemorativa. Quer dizer, mais pra discussão e conscientização sobre o tema que “comemoração”, já que em geral não se celebra doença. Enfim, 21 de setembro, é o dia Mundial do Alzheimer’s. Coincidentemente, publiquei este post dois dias antes sobre o tema. Então, com esta serendipidade, fica aí a minha contribuição bloguística à causa. Valeu, Sibele, por me lembrar da data!
Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Adoooooro seus posts científico-biológicos! Eu já falei que eu tenho um hobby bissexto que é ler sobre neurologia? Uma coisa assim beeeem amadora mesmo, de quem lê Damasio e Oliver Sacks, basicamente (e agora tem umas autoras brasileiras que trabalham nesse rumo da divulgação científica também, a Suzana Herculano e a Ana Beatriz silva).
    Acho que também já te falei que meu caçula, hoje com 16 anos, está cogitando cada vez mais seriamente encarar Biologia como curso universitário. Por enquanto, a fascinação dele é com felinos. Euzinha, como mãe, secretamente alimento a esperança de que ele acabe se apaixonando pelo mar e seus habitantes. Mas isso é a projeção de uma fantasia minha, deixa o garoto fazer o que ele gostar.
    Bom, acabei tergiversando. Eu leio o que você escreve e isso abre portas na minha cabeça, por onde eu vagueio peripatética. Vou mandar teu post pro meu filhote. Beijo grande,
    Ana Paula

  • Opa, antes de mais nada deixa eu me apresentar. Sou o filho caçula do qual minha mãe, Ana Paula, falou ai em cima =D
    Eu também adoro tudo que tenha algo a ver com cérebro, apezar de não ser tão fãn de hormônios, mas os reconheço como peça importante XD
    Passei só pra dar um oi, dizer que gostei muito do site (botei ele aqui nos bookmarks), e que vou dar uma olhada no post dos felinos que vc mandou minha mãe me passar, que ela provavelmente não viu ainda e não me passou. Bem é isso, capaz de eu deixar um comentário no post dos felinos. Fui =D

  • Gabriel, sinta-se à vontade e convidado de honra dessas viagens na maionese que este blog fomenta.
    E um viva aos felinos, q eu tb os adoro! :)
    Beijos!

  • Olá Lucia!
    Fantástcos seus comentários neuroendocrinos! Sou, também, entusiasta dos hormonios na relação com patologias tão distintas (aparentemente...). Minha cabeça de cientista também voa nesses estudos ainda incompletos , mas que levantam hipóteses e dados significativos bem relevantes para próximas pesquisas entre diabetes tipo II e a demência de Alzheimer. Vamos aguardar os próximos estudos!
    Abraços
    Cibele

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Publicado por
Lucia Malla

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