Na última sexta-feira, as Filipinas sofreram um dos maiores desastres naturais da história recente. O super-tufão Haiyan (Yolanda, para os filipinos), um dos mais fortes já registrados, fez landfall em Tacloban, cidade costeira da ilha de Leyte. Antes de fazer landfall nas Filipinas, Hayian passou por cima de Palau, um dos países mais naturalmente lindíssimos do mundo – o superlativo aqui não é à toa. Por combinação das condições do mar local, Haiyan ainda chegou ao Vietnã forte o suficiente para causar estragos significativos. Tudo isso é uma tristeza só, e me deixa de coração muito apertado, com vontade de doar todo o amor às Filipinas. Eles precisam, afinal, neste momento.
Tenho um carinho muito grande pelas Filipinas. Não é um país fácil, extremamente religioso, muito arraigado a diversas tradições das quais não compartilho. Com problemas ambientais consideráveis. E muito pobre economicamente, fruto de mazelas políticas e consequência da desigualdade sem fim. Mas também um país muito cheio de vida, de uma diversidade marinha assustadora, de uma riqueza submersa que deixa a gente sem palavras. E principalmente, um país rico de recursos humanos, onde as pessoas são mestres do improviso, muito criativas na solução de problemas do dia-a-dia, e onde elas abrem seu coração e seu sorriso com a mesma facilidade com que tomam suco de calamansi. Um país onde a gente aprende a cada olhar.
Por seu calor humano e criatividade evidentes, apelidei os filipinos carinhosamente de “brasileiros da Ásia”. Foram estas características tão especiais que me deixaram marcas, e que me fazem hoje ficar de coração apertado com o choro engasgado, pensando no quanto estas pessoas estão sofrendo. Elas me ofereceram tanto nas vezes que fomos lá. Me deram uma hospitalidade inesperada, uma sensação de tranquilidade e paz, de sorriso aberto verdadeiro, sem interesses, cheio de curiosidade. O povo filipino fez a diferença nas viagens que fizemos para lá.
Me sinto profundamente compelida a retribuir de alguma forma a essas pessoas tão calorosas. Afinal, foi nas Filipinas que vivi momentos fenomenais em cima e embaixo d’água. Apo Island e Malapascua, lugares para voltar mais um milhão de vezes, para mergulhar até dizer chega. Uma das minhas ilhas favoritas do mundo está lá, Malapascua, minúscula, tema do meu primeiro post neste blog em 2004, e onde tive a oportunidade de nadar com o tubarão mais incrível do mundo, o tubarão-raposa (thresher shark, Alopias vulpinus). Malapascua do relax total, das estrelas e do luar lindo, dos peixes-mandarim e da diversidade incrível de nudibrânquios, do happy hour no bar flutuante e do tempo sem pressa. A Malapascua dos problemas com a pesca desenfreada, com a corrupção local, do povo humilde sofrido que agora sofre ainda mais.
Pois a ilha de Malapascua estava na rota direta do olho do tufão. Teve ventos de mais de 250km/h e ondas gigantescas, numa praia que normalmente é uma piscina. A ilha foi bastante afetada, muitas construções destruídas, mas felizmente nenhuma fatalidade. Mas este não é o mesmo caso de outros pontos de Leyte ou Cebu, ou outras das centenas de ilhas que estão ali no mar de Visayas. Tacloban foi praticamente toda destruída. O número oficial fala em mais de 1000 mortos, mas acredita-se que este número chegará rapidamente a dezenas de milhares.
Por irônica coincidência, ontem, 11 de novembro, começou em Varsóvia a COP19, a 19ª sessão da Conferência da ONU para discutir Mudanças Climáticas. Mais uma tentativa provavelmente frustrada de engajar os países em fazer algo urgente pelo clima. Frente a Haiyan, um dos maiores desastres climáticos já sofridos pelo seu país, o representante filipino fez um discurso emocionante:
Não vou entrar aqui na discussão sobre os efeitos das mudanças climáticas na intensificação de tufões e furacões. Gente muito mais competente e embasada vem discutindo há décadas sobre isso, com conclusões científicas bem pertinentes.
O que eu quero deixar aqui neste post é todo meu amor às Filipinas neste momento, meus sinceros sentimentos às inúmeras famílias que sofrem, sem comida ou água, por conta da devastação causada pelo Haiyan. A tragédia humana, perdas sem precedentes. Independente de quem ou o que causou, o que se precisa agora é arregaçar as mangas e começar a reconstrução das cidades e da sociedade. O imediato fala mais alto.
Se você quiser ajudar, o Guardian trouxe uma lista muito útil de links de instituições idôneas que estão aceitando doações para ajudar as Filipinas. Um amigo também me enviou o link do Médicos Sem Fronteiras, que já está na região ajudando no que é possível e que também aceita doações. E há uma angariação de fundos direto para Malapascua, organizada pela principal operadora de mergulho da ilha, a Thresher Shark Divers. Para que a ilha reconstrua sua estrutura básica, e volte a ser o pequeno paraíso escondido de tantos.
O povo filipino é muito resiliente, e sei que sairão dessa – com cicatrizes, mas sairão. Afinal, não são novatos nos desastres naturais. Mas, enquanto a situação de emergência ainda prevalece, acho que não custa a gente que não pode estar lá, ajudar da forma que for possível.
Todo amor às Filipinas nesse momento duro e triste. 🙁
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Muito triste o ocorrido! Não tem como não se comover com a dor e as dificuldades que os filipinos vêm passando. Só com muita força e fé mesmo para superar.
Muita força - e muita ajuda internacional, porque passou do limite de que só a comunidade local consegue lidar com a situação, infelizmente. :(
Tb fiquei com o coraçao apertado com o q aconteceu nas Filipinas, estive lá esse ano e tive q mandar um mail para a pousada que fiquei para saber se estava td bem. Na Ilha q estive, Camiguin, por um milagre nada muito grave aconteceu!
Vi algumas cenas nos jornais que me deixaram muito deprimida, Claudia. Um desastre de proporções enormes, num país de infra-estrutura complexa (mtas ilhas, fragmentação aos montes).