Ontem à noite, eu, Carlos Hotta e Érica tivemos a honra de sermos convidados a twittar a entrevista do Carlos Minc, Ministro do Meio Ambiente, no programa Roda Viva, na TV Cultura. Twittando o Roda Viva era, afinal, uma nova experiência para esta Malla.
Foi também a estréia da super-competente Lillian Witte-Fibe como apresentadora do programa, e ela parecia sentir um pouco a pressão do momento importante.
Aos interessados em saber o que foi twittado/comentado durante a entrevista, sugiro o twemes ou o tweetscan, ambos usando a tag #rodaviva, e ambos não tão eficientes – muitas mensagens que troquei com o Doni, com o Thiago e com Chico simplesmente não aparecem em nenhum dos 2 agregadores de twittadas. Ainda carecemos de uma boa busca pro twitter. Mas pelo menos, o twitter mesmo funcionou, o que dado o nível de fundo-de-quintalzice da coisa, até já está de bom tamanho.
A experiência de estar lá, ao vivo, participando de um programa de tão alta qualidade, é na realidade o foco do meu post. A TV Cultura mostra estar antenada com a “mudernidade” tecnológica ao abrir espaço pros twitteiros, embora devesse aproveitar melhor essa interação, talvez falando alguns dos comentários do twitter. Mas no final das contas, todo mundo pode ler e reler depois os comentários que eu e os inúmeros amigos conectados deixamos lá. Mas são os detalhes de bastidores que eu achei o mais legal de toda a experimentação.
Foi meu segundo encontro com um político de alto escalão. O primeiro foi com Lula em 2005, quando ainda morávamos na Coréia e ele foi em Seul participar de um fórum da ONU sobre governância. Comparando Carlos Minc e Lula, ambos têm a mesma qualidade essencial política da oratória, do discurso que convence, mesmo quando achamos vários problemas nele. Há um jeito de falar que quase impede o seu contraponto. Quase.
Chegamos eu e André na TV Cultura às 21:30. Fomos recepcionados pelo Mateus, que nos encaminhou para uma salinha onde uma mesa cheia de quitutes, refrigerante, suco e café nos aguardava. Na parede dessa sala pré-gravação, inúmeros cartoons maravilhosos do Paulo Caruso, em diferentes entrevistas. O Carlos Hotta já estava lá, e ficamos então conversando e comendo pão-de-queijo, até que o Min(c)istro apareceu. Aí não me contive, e fui puxar uma “conversinha” com ele.
A impressão imediata é do quanto ele é envolvente discursando. Sabe aquelas pessoas que contam que foram abduzidos por um OVNI olhando tão no fundo dos seus olhos que você até acredita naquela balela? Pois o Minc, com sua fala mansa, é assim. Por um lado, é uma característica política positiva: convence. Se abraçar a causa certa, mais fácil conquistar os louros. Mas também dá um certo medo, porque se ele abraça algo fora do consenso, falando daquele jeito, consegue abarcanhar um bom número de pessoas no lero. Ele conversa como se você fosse a única pessoa no mundo naquele momento, e não importa quem seja. Deu atenção igual a mim, ao Hotta e a Lillian nas oportunidades de conversa. Incrível.
Mas, é claro, como cientista, estou calejada de falar pro vento. Tentei ao máximo não cair na conversa de cerca-lourenço do Minc. Fui direto ao assunto, entre um quitute e outro: a questão dos mares no Brasil. Perguntei suas propostas para a atividade pesqueira. Ele, na já tradicional profundidade enroladora, disse que o Brasil tem potencial para liderar a preservação das baleias e todas as questões pertinentes ao Atlântico Sul – no que concordo. Claro, não me satifiz apenas com esse âmbito da questão. Puxei a sardinha (pun intended) para a pesca indiscriminada e o problema dos tubarões.
Ele mostrou um certo desconhecimento sobre o tema, pois falou do aumento dos ataques em Recife (???) devido ao colapso dos peixes. Mas sabemos que o problema dos tubarões é o oposto, o overfishing, nem de longe restrito à Recife no Brasil e não tão simples assim. Enfim, pelo menos tentei. Ele, entretanto, frisou que convidou como sua assessora para questões de aquecimento uma das cientistas brasileiras do IPCC, ou seja, uma Nobel sobre mudanças climáticas. Um bom passo pode vir daí. Veremos.
Mas aí chegou a mocinha da produção e me interrompeu, dizendo que eu precisava ir me maquiar. E lá fui eu, levar quilos de pó na cara. Curti a trança que fizeram no meu cabelo, though. Ficou mais simpática na TV.
E da maquiagem, entramos no estúdio – que me lembrou minha visita ao Universal Studios em LA, cheia de cenários e afins. Já na minha cadeira de twittagem, liguei meu computador (destaque especial para a foto de tartaruga cobrindo o logo da Apple no meu computador e pro brontossauro no computador do Carlos), pus meu tubarão-martelo de estimação ao lado e entreguei minha lista de perguntas trazidas de casa sobre cerrado e tubarões para a Marta Salomon, jornalista especial da Folha e esposa do adorável Sergio Leo. Que não as utilizou, por falta de tempo.
A twittagem começou antes do programa ir ao ar. A Lillian Witte Fibe fez a chamada do pessoal (me senti na escola) e as discussões já estavam quentes porque o ministro simplesmente adora falar. Ele não parou de discutir nem durante os intervalos do programa. Antes do programa ir ao ar, a Lillian teve que pedir para ele dar um tempinho para ela poder… Começar o programa! De novo, parecia aquelas professoras fofas e educadas da 4a série pedindo pros alunos fazerem silêncio. E o Minc parecia um daqueles alunos de fundão de classe, que nunca ficam quietos. Só que ele estava no centro da Roda.
Depois daqueles acordes em versão power de “Roda Viva” do Chico Buarque e das introduções, começou a entrevista. Os assuntos que já imaginava dominaram: Amazônia, soja, Amazônia, mudança climática, Amazônia, biodiversidade, Amazônia, Rio, Amazônia, Mata Atlântica… É inacreditável perceber como a Amazônia domina a conversa. Ainda assim, repetem-se as mesmas falácias de “pulmão do mundo” (não é!). Me pergunto quantos ali já leram profundamente sobre o tema ou conversaram efetivamente com um ribeirinho para entender a realidade da vida na região… Ou viveram lá, pelo menos.
Além do mais, meio ambiente no Brasil não é só a Amazônia. Mas, dada uma das questões feita por uma internauta, parece que as pessoas entendem os ecossistemas brasileiros assim: Amazônia -> Mata Atlântica -> caatinga -> o resto (= cerrado). O mar nem conta nessa equação, para minha tristeza imensa.
Senti muita falta de alguém puxando a conversa pro lado da política pesqueira. Eu sei que existe um Ministro da Pesca, o Altemir Gregolim, que teoricamente é o mais responsável sobre esse tema. Mas a manutenção da biodiversidade marinha, a fiscalização em cima dos chineses que vêm fazer a limpa dos tubarões no nosso mar, muitas vezes disfarçados em bandeira brasileira, usando uma brecha legal para coletar mais e mais tubarões (o bycatch permitido de 5%)… esses temas estão muito relacionados à pasta do Meio Ambiente e precisam ser conversados em conjunto no governo federal. E não apenas passar a bola pros governos estaduais.
Enquanto o Minc escorregava mais que sabonete tentando responder às perguntas da Roda (e o jornalista americano Michael Astor com conhecimento de causa destacado imprensava o ministro), a conversa no twitter pegava fogo.
Na minha opinião pessoal, o objetivo de estar twittando não é narrar o que o entrevistado está falando. É exatamente acrescentar comentários, opiniões, discussões, trazer uma nova camada de informação ao programa da TV. E foi isso que tentei fazer twittando, comentando desde a pulseirinha hippie do Minc até o que o ministro entende por “recompor biodiversidade”. Usar a nova mídia que a Cultura tanto preza de uma forma mais antenada com a própria ferramenta e com o usuário do outro lado da tela. Se deu certo, não sei. Mas foi a forma que achei mais interessante de passar uma informação a mais.
A última frase do Minc no Roda Viva foi emblemática, e fiquei particularmente feliz pela propaganda espontânea de tabela (que ele nem sabe que fez). Minc disse: “Faça a sua parte“. Quando o programa terminou, apesar de inúmeros temas terem ficado de fora (é meio ambiente, é complexo e esquecer coisa já era esperado), estava sorridente e com dor nas costas de tanto ficar twittando e vibrando com as questões colocadas pelo pessoal no twitter.
Conclui que fiquei super-feliz de participar. Foi uma experiência maravilhosa ficar twittando ao vivo, e recomendo a todos que estiverem a fim. Basta escrever para a TV Cultura (novasmidias@tvcultura.com.br) dizendo seus temas de interesse que eles te chamam. Antes de desligar o computador, corri para tirar uma foto com a Lillian, que por sua vez corria para ir embora logo e descansar da tensão da estréia.
E aí, todos se encontraram na saída do estúdio com o Carlos Minc, que continuava falando… Ele não para de falar, e se a TV Cultura não tivesse que fechar, ele ia ficar ali até de madrugada falando sobre ambiente. Deu vontade de convidá-lo para uma cerveja ou café nutella da madrugada e continuar o papo maravilhoso e instigante, mas é claro que os assessores já estavam chamando para o mundo real, sem mallices.
Afinal, de #mallices, já basta o twitter. 😛
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
Ver Comentários
feliz em fazer parte deste twitter cultura
valeu!! e sucesso para vc .
abs do bailux
Estive passando mal ontem, e não assisti ao programa, mas, pelo post e comentários lá no grupo, deu para ter uma idéia de como foi. Lucia, este 'desconhecimento' do Minc, sobre problemas relacionados aos mares, pode ser um problema? Você sabe quem são seus assessores nesta questão?
Mallinha, orgulho-me de ser sua amig@ e aprender tanto com você!
Tudo de bom, sempre, hehe.
beijo, menina
Adorei o seu relato.
Não gosto muito desse novo ministro... parece alguém que fala muito e faz pouco, ao contrário da Marina.
De qualquer forma, acho natural o desconhecimento sobre o assunto dos tubarões... é um assunto bem pouco divulgado mesmo.
Muito legal, Lucia, estar assim no lugar onde coisas importantes sobre o meio ambiente acontecem. Apesar de ser "sabonete" como você disse, talvez ele vá investigar os problemas do mar que você discutiu com ele...
Parabéns!
Beijos.
Não vi o programa mas adorei o post, parabéns!
Beijos
Flavia
Lucia! Muito feliz em te ver no Roda Viva. Adorei esse lance do Twitter. Dá uma cara mais antenada para o programa e a Witte Fibe é 10 no comando da nave. Realmente, pra mim que assisti de casa, todos os assuntos foram "quase" abordados, naquela maneira carioca de ser. Saudades da Marina, na boa...
Lucia,
foi um prazer trocar essas poucas palavras contigo e com os outros 'twitteiros' de plantão. Um viva à TV Cultura pela iniciativa e a vocês pela 'cobertura alternativa'. :)
Preciso escrever um texto com mais calma sobre a atuação do MMA e das minhas expectativas em relação ao Carlos Minc. Simpatizo com ele, sem dúvida. A retórica é prima-irmã da Política, não é de se esperar outra coisa -- e, portanto, deixa o Ministro falar. Uma das minhas maiores professoras 'jogava nesse time', da retórica-full-time, e por conta disso, tivemos muitos êxitos em 'aventuras acadêmicas' por aí. ;)
A discussão sobre 'meio ambiente', se você está lembrada do Blog Action Day do ano passado, me anima e me exaspera -- em proporções muito próximas. É nesses momentos que me sinto o mais radical e o mais 'bicho grilo', tudo junto e ao mesmo tempo. Mesmo assim, vou escrever sobre.
Mais uma vez, parabéns pra você e aos outros 'twitteiros' pela participação. :)
Um beijo.
Obrigada, bailux e Flavia! :)
Denise, não sei quem é o assessor de questões marinhas. Na realidade, não dá pro Minc saber tudo sobre ambiente. O q ele realmente precisa são bons assessores em cada uma das questões. Ele citou a mocinha do IPCC, o q já é um bom começo pras mudanças climáticas.
Marcus, é o q disse à Denise: acho q ele rpecisa assessores bons sobre grandes temas. Não necessariamente precisa entender de tudo. Mas saber en passant...
Maria Augusta, fingers crossed! :)
Luz, acho q o tempo é uma restrição num programa de TV e também o tema nesse caso. Ambiente é muita coisa, muito complexo. Tem assunto para ter programa de 4 h. Mas aí o telespectador ficaria maluco, já pensou?
Thiago, eu vou te confessar: tenho uma certa dificuldade com a retórica política. Eu já havia percebido isso no discurso do Lula em Seul, e cada vez mais fica nítido que a forma direta com que os cientistas tratam muitas questões não é cultivada na política. Snao apenas jeitos diferentes, eu diria, e estou mais acostumada a seguir uma linha de raciocínio mais direta. O Minc tinha vários números e dados na cabeça, o q é um ponto positivo para ele - aliás, eu tbm simpatizo com ele. Mas a oratória realmente complica. Para mim, pelo menos.
E eu que fico feliz de ter discutido com vc, e com os outros do twitter!
Beijos a todos. :)
Ahhhh, eu assisti o programa sim. Mas o Minc, não curti muito não, como já tinha dito para vc. Nossa, fala demais e escapole muito. Aí, para ajudar, hoje escutando o rádio daqui da cidade, o deputado federal daqui de RO, Moreira Mendes (Looser total), disse que gostou muito do Minc. De duas,uma. Ou o Minc é tão sabonete que conseguiu enrolar até o enrolão, ou ele é complicado mesmo. Torço pela primeira alternativa.
Beijos
Xará
Realmente, o que é mais impressionante é a alegria que dá no fim do programa, quando a gente recolhe os efeitos-Twitter. Tá, muita gente não consegue acompanhar, este mar twitteiro não é de fácil navegação, etc etc etc. De toda forma, a nossa discussão foi maravilhosa.
bj