Em março de 2007, estivemos na Flórida, o estado do peixe-boi nos EUA.
Foi minha primeira vez no estado – passar brevemente pelo aeroporto de Miami em conexão não conta no meu manual de viagens. A primeira intenção na Flórida era visitar um casal amigo nosso de tempos de Havaí, que havia se mudado para St. Petersburg, na costa do Golfo. Teresa, minha amiga, estava grávida e pelas suas contas quando a contactei, faltava ainda um mês para a bolsa d’água estourar. Nossa visita seria um agradável presente pré-parto (e soubemos na estrada a caminho para sua casa que o neném se antecipara e nascera poucos dias antes).
A intenção número 2 era mergulhar em Key Largo, fazer o Creature Feature oferecido pelo Captain Slate.
Já a intenção número 3 apareceu durante a passagem pelo Havaí semanas antes. Afinal, fomos incentivados pelo Mario a mergulhar no naufrágio Spiegel Grove, “o melhor mergulho da Flórida” na opinião dele. Adicionamos essa aventura na lista, é claro.
Mas foi a quarta intenção, aquela menos alardeada e menos pensada, a que se mostrou inesquecível em todos os sentidos. Estando em St. Petersburg, poderíamos ir até Crystal River passar o dia. Essa minúscula cidade tem um atrativo especial a biólogos e amantes da vida selvagem exatamente no período entre janeiro e março, inverno no hemisfério norte. Afinal, esta é a época em que os peixes-boi-americanos aparecem para se aquecer nas águas quentes das nascentes da região.
Peixes-boi não gostam de frio. No verão, os da espécie Trichechus manatus latirostris passeiam pela costa leste americana, e alguns já foram registrados até a altura do estado de Nova York. Mas no inverno, quando as águas do Golfo do México estão mais quentes que no Atlântico, eles se agrupam nas regiões estuarinas do lado oeste da Flórida, e ficam lá, aproveitando o quentinho. Como são animais quase exclusivamente aquáticos – e sabemos que na água perde-se calor muito mais facilmente – desenvolveram uma série de adaptações para não sofrerem com hipotermia: além da espessa camada de gordura abaixo da pele já grossa, fazem essa migração anual em busca do calor que sai das fontes naturais – ou artificiais, já que eles também podem ser avistados próximos à saída de água quente de usinas termoelétricas. Pelo sul dos EUA, onde tem água à temperatura média de 22˚C, lá estará o peixe-boi.
Assim como o peixe-boi, eu também não gosto de frio. A idéia de acordar às 4 da manhã no inverno, dirigir 1 hora pela rodovia Suncoast (com vários pedágios), depois 40 minutos pela US-19 até Crystal River, e cair na água (!!!) às 7 da matina, com uma temperatura ambiente de quase zero, não me apetecia em nada. Aquilo mais parecia convite à pneumonia, isso sim. Mas, apesar da minha relutância térmica, resolvemos arriscar a aventura.
Olha o frio neblinado que estava quando a gente chegou em Crystal River! A névoa sobre a água já era um sinal de que a temperatura da mesma estava maior que a atmosférica. Para minha sorte.
Mãe e filhote de peixes-boi respirando na superfície.
Quanto mais fria a temperatura ambiente, mais o peixe-boi se agrega. Portanto, a manhã gélida poderia ser entendida como bom presságio. Quando chegamos na cidade, fomos direto à operadora Bird’s Underwater, com quem já havíamos marcado pela internet um tour na manhã seguinte.
O nome Bird’s Underwater não tem nada a ver com passarinho. O apelido do ávido mergulhador e dono da loja é Bird. De tanto perguntarem: “Where’s Bird?” e os balconistas responderem: “Bird is underwater”, resolveram adotar o nome da loja dessa forma. Nós conhecemos o Bird, que não estava “underwater” no dia que lá estivemos.
Fim do parênteses.
Como estávamos em Crystal River um dia antes, decidimos “fazer o que dava” e aproveitar a manhã.
Conversando na loja, descobrimos que poderíamos alugar um barquinho a motor por 10 dólares a hora, o que era muito barato, dada a independência que teríamos de ir para onde quiséssemos na Kings Bay. Alugamos o barquinho. Um mocinho de uns 15 anos mostrou como manobrar o barco e entregou um mapa das áreas onde podíamos ir e que haveria peixes-boi. Fomos direto para a mais famosa: Three Sisters Spring.
Visões da nascente de Three Sisters, na Flórida.
A sensação quando entramos no canal que leva a essa nascente era de estarmos numa “Veneza americana”. Pontes e várias ruelas aquáticas, que serviam de píer para inúmeras mansões.
Ficamos sabendo depois que há um clima tenso entre os moradores das mansões e as operadoras de turismo local.
Obviamente, um bando de mergulhadores todos os dias fazendo fila no quintal da casa de magnatas não é bem o conceito de privacidade sonhado por estes. Disse então o mocinho da operadora que os moradores inclusive colocaram câmeras voltadas para as principais nascentes, para registrar qualquer tipo de abuso de turista ao peixe-boi. Assim, teriam material para pedir na prefeitura que os tours deixassem de existir, por “abuso ao peixe-boi”.
Confusões à parte, o fato é que há uma série de regras para barcos e pessoas que frequentam a área do peixe-boi, além de patrulhas que ficam em caiaques vigiando de perto tudo que está acontecendo.
Barcos, por exemplo, não podem sair da marcha neutra e navegar em velocidade de no máximo 5 milhas/hora.
As pessoas não podem ir atrás do peixe-boi: é o animal quem vem atrás de você (e ele vem, porque é curioso e dócil). Se o bicho chega perto, você não pode encostar as duas mãos ao mesmo tempo nele, apenas uma.
Além disso, há algumas áreas delimitadas por bóias onde o peixe-boi fica. Nestas áreas é proibida a entrada de pessoas.
Há regras para ver o peixe-boi em Crystal River. Existe uma área delimitada por bóias, onde turistas não entram. Há patrulha de caiaque, vigiando e contendo abusos.
O peixe-boi , entretanto, não entende a regra da bóia e termina passeando fora da área marcada, como vemos na última foto. Para delírio da galera.
Chegamos em Three Sisters Spring e uma legião de barcos já estava por lá. A temperatura ambiente ainda era gélida. Mas quando vimos a quantidade enorme de peixes-boi agrupados… Não deu pra resistir, enfim. Eram uns 20 embaixo d’água. De cima do barco, pareciam certamente rochedos estacionados no fundo, que só se moviam lentamente à superfície para respirar de tempo em tempo. Amarramos o barco numa borda e pulamos na água. Que decerto estava incrivelmente morna, para minha salvação. Uma delícia.
A vista geral dos “rochedos” que são os peixes-boi embaixo d’água descansando quando chegamos na nascente.
Turistas interagem com um filhote – que parecia estar adorando aquela farra!
Tinha gente por lá, e vários peixes-bois faziam a graça de sair da área delimitada e brincar com os turistas – principalmente os filhotes, que são mais curiosos ainda. Eu fiquei um tempão com eles, brincando, passando a mão e sentindo o quanto aquele corpanzil todo era dócil. Sem dúvida, o animal selvagem mais tranquilo com que já interagi. Ele olha pra você como se pedisse o seu carinho, é simplesmente inacreditável.
Ao lado da área principal onde esse grande grupo se agregava, havia uma entradinha minúscula, como se fosse um córrego, que depois de uma nadadinha básica chega num lago. Lá dentro era a verdadeira nascente de Three Sisters, com uma borda verde mágica – e mansões, é claro. O lugar me lembrou muito Bonito (MS), dada a clareza da água e a paisagem subaquática. A visibilidade era bastante condizente com o nome Crystal River.
Foi difícil sair da água, mas depois de algumas horas com os peixes-boi, continuamos o passeio. Levamos o barco por um giro pela baía, circulando a ilha Buzzard e chegando perto da Banana Island. Muitos pelicanos nos muros das casas da região. Depois de rodarmos pela baía, finalmente voltamos ao píer onde devolvemos o barco. Voltamos então para St. Petersburg, mas a jornada não estava finda.
O dia seguinte era o dia “oficial” do passeio que já havíamos planejado fazer. Dessa vez, fomos ao mesmo Three Sisters Spring como parte de um tour. No dia anterior, com o barquinho “nosso”, chegamos na hora que os tours estavam indo embora, e no final, pudemos curtir os peixes-boi praticamente sozinhos. Com o tour, chegamos bem mais cedo na nascente, que já estava lotada de grupos de turistas, e o frio ambiente era maior – mas a água dava a sensação de mais quente ainda. Tomei umas xícaras de café e, depois de muita ponderação, caí na água novamente.
Dessa vez, como já havia brincado à beça com os peixes-boi no dia anterior, me dediquei a observá-los mais – e constatei que há um certo exagero por parte das operadoras com relação ao melhor horário para ver o peixe-boi, já que mesmo mais tarde, nós havíamos interagido com vários sem problema algum. A quantidade de gente ao redor dos animais dificultava entretanto qualquer observação. Estávamos no momento-auge do tour, afinal. Ficamos quase 1 hora na água, e eu fui uma das primeiras a voltar pro barco, em busca de café quente. Mas mesmo assim, a experiência foi mais uma vez mágica.
O passeio terminou na metade da manhã.
Rodamos um pouco por Crystal River, constatando que a cidade vive do turismo do peixe-boi e visitamos o Florida Homosassa Springs Park (que merece um post à parte). Dirigimos até Gainesville para visitar uma amiga minha de faculdade e chegamos à noitinha de volta a St. Petersburg e ao Lucas, o bebê de dias da minha amiga Teresa.
No final das contas, dos 2 dias, preferi muito mais a independência do primeiro, em que alugamos o barquinho. Além de mais barato, pudemos curtir mais tempo com o peixe-boi. Fica então a dica a quem um dia passar por lá. E um pedido: mande um beijo ao peixe-boi por mim. 🙂
Tudo de bom sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
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Ver Comentários
Olá, Lúcia Malla!
Tô chegando aqui através do blog da Emília e logo me deparei com essa matéria fantástica sobre o peixe-boi! Lindo mesmo!
Assim que der, preciso "fuçar" mais por aqui porque o conteúdo é muito bom! Parabéns.
Abraços,
Carla
Oi Carla! Obrigada pelos elogios. Eu simplesmente pirei com esses peixe-bois. Eles são MUITO dóceis, e não dá vontade de sair de perto. É uma experiência que eu aconselho a todos. :)
Eu já estive no Condado de Manatee na Florida. Que engraçado ler isso agora. E deve ser verdade, o único peixe boi que vi lá foi num tanque :) Só o nome deve ter ficado mesmo...
Lucia, eu ainda estou mais embasbacada do que quando eu li o seu post sobre a matéria na Mergulho. Eu pre-ci-so ir para Crystal River! Antes que proíbam o mergulho com o peixe-boi...
Acho que está na hora de visitar uns amigos que moram na Florida, hehe...
Gira, acho até q sei onde vc viu esse peixe-boi no tanque... no Homosassa Springs Park, não foi?
Emilia, não deixe de ir mesmo, se tiver oportunidade. É nessa época agora q os peixes-boi estão se agregando nas fontes quentes. Depois de março, eles começam a se dispersar pelo litoral americano, e só voltam a ficar juntos em dezembro. Ou seja, o frio é fundamental. :)
Beijos aos 2.
Que lindo, Lucia! Fiquei com vergonha do meu postzinho correlato :-)
Riq, pelamordedarwin, sem essa de vergonha. Seu post é mais informativo e menos "firulado". E fala da Paraíba, esse mistério aos olhos brasileiros. Muito bom tbm. ;)
Lucia,
Confesso que estou entrando no seu blog pela 1a vez. Que fotos fantásticas do peixe boi, e todas as outras !!!
Eu vi o peixe-boi no Rio Tatuamunha, eles são muito dóceis mesmo. Mas, o funcionário do Ibama pede que não passarmos a mão nele, para que ele não se acostume, pois a idéia é transferí-lo depois para seu habitat, o mar.
Beijos e parabéns, depois volto para ler mais, já vi que tem material a bessa ;)
Olha Lucia queria muito estar no seu lugar meu sonho e conhecre um peixe-boi de perto e vc teve essa oportunidade.Mesmo temdo so 14 anos me entereso muito por esse animal.Quando poder entar no meu msn pra gente conversar.bjuss matheus
Lucia, gosto muito de seu blog, essa visao "turistica-cientifica" :) e tudo de bom.