Que frio na Coréia do Sul!

por: Lucia Malla Ásia, Coréia do Sul, Cotidiano

Tem feito bastante frio na Coréia do Sul. Frio de lascar. Parece que o inverno chegou com força, sem mais se confundir com o outono que, insistente, ainda pede para ser lembrado nas últimas folhas vermelhas das árvores. De acordo com minha chefe, esse será o inverno mais frio na Coréia do Sul de todos os tempos – previsões do serviço meteorológico coreano. Prefiro nem pensar no que vem pela frente.

Eu e o frio

Não gosto de frio. Acho a neve lindíssima, tapete branco fofo homogêneo. Mas o que acompanha a neve me desagrada. Frio, lama de sal para estragar os sapatos, ruas escorregadias como pistas de patinação no gelo – perigo sério pros idosos -, dias curtos, desânimo.

Sinto mais frio que a maioria dos mortais – ou pelo menos sou menos resistente ao gelo. Então caminhar na rua requer adereços típicos de férias num acampamento-base no Himalaia: luvas grossas, calça dupla, sapato térmico, coleira, cobertor de orelha e chapéu de fleece. Muitas camadas de roupa. Visual colorido de pingüim urbano. (Aliás, merece o Nobel quem inventou o fleece, material leve que suaviza o sofrimento dos hipotérmicos!)

Passando frio na Coréia do Sul
Meu “empacotamento” pro inverno, ou como me finjo de pingüim azul na Coréia.

Mas, vinda da região tropical – onde cresci, inverno rigoroso era “vento sul” batendo e trazendo escandalosos +15C pro termômetro -, ainda me admiro com a vida no inverno das regiões temperadas ou túndricas. Ou com as adaptações para sobreviver ao frio. Admiração e curiosidade.

Crianças brincando na neve - Coréia do Sul
Alegria das crianças com a neve para fazer bonecos no condomínio.

Sobre o ondol

Aqui na Coréia, por exemplo, existe um sistema de aquecimento das casas peculiar, chamado ondol. Acredita-se que o ondol foi criado no ano de 37 A.C., ainda na época da dinastia Koguryo. O sistema consiste em tornar todo o chão da casa um imenso irradiador de calor, através do aquecimento embaixo (por lenha no passado; hoje por gás)… do próprio chão! Ao entrar numa casa coreana e tirar os sapatos, logo se percebe o quão quentinho é o chão. Sensação super-aconchegante! O que deve explicar, aliás, porque os coreanos adoram sentar no chão das casas. O ondol permite, portanto, que a casa toda seja aquecida uniforme e eficientemente. Afinal, o calor sobe naturalmente e o chão vira um mega-irradiador para todos os ambientes.


Leia mais: Visita a um ondol milenar perto de Seul.


Ah, como adoro o ondol… Dá vontade de ficar deitada no chão o tempo todo. Permite andar descalça pela casa, algo impensável com o aquecedor que eu tinha em Boston. Deitar no chão quentinho, aliás, é o que meu gato faz o dia inteiro, para sorte dele, que não precisa sair de casa para trabalhar ou comprar víveres.

Ondol - sistema de calefação coreano
Uma vista do ondol de uma residência tradicional coreana: repare embaixo da casa uma abertura para colocar a madeira que será queimada para o aquecimento. 

Loucos pelo frio?

O corpo humano certamente não é adaptado ao frio. Precisamos desses “acessórios” (roupas e afins) para manter a temperatura ideal, para não morrermos de hipotermia. O que me leva a refletir sobre o nível de loucura e risco dessa aventura: um sul-africano, puxando o limite do corpo em relação ao frio, quer bater o recorde de distância à nado na Antárctica – usando apenas roupas de banho. Nada de dry suit, ou roupa aquecida: é só sunga de praia mesmo. Temperatura da água = abaixo de zero, suficiente para fazer um humano normal parar de respirar em poucos minutos. O sul-africano já tem o recorde de nado mais ao Norte do planeta, numa região da Noruega próxima ao Ártico. Caso consiga nadar 1 km (!!!!) na Antárctica nesse verão, será a única pessoa a ter enfrentado a água fria nos dois pólos de corpo aberto. Haja coragem.

Ele é um sul-africano. O que me leva a pensar que o fato de você ter nascido nos trópicos nem sempre conta para adaptação (ou falta de) ao frio. Outro exemplo? Os brasileiros biólogos pesquisadores no Alasca, mesclam seus trabalhos a tempestades de gelo, icebergs e vento congelante. Adoram essa fria. Aliás, o Alasca deve ser um lugar incrível para se passear, um ecossistema único com uma população nativa interessante, os esquimós. Valeria a pena um dia visitar um iglu de verdade. Já pensou, uma Malla num iglu? Nem imagino tal aventura de alto risco. O que me lembra um conhecido de BH que fez intercâmbio em Fairbanks. Primeiro presente assim que chegou lá: um snowmobile. Exótico para um belorizontino, certamente.

Enquanto faz frio na Coréia do Sul

Gato na neve
O debut de Catupiry na neve nesse último domingo. Ele não curtiu muito a patinha gelada e já estava fugindo pra mureta. Repare que ainda tem folhas de outono pelo chão! O inverno chegou antes da hora…

E para terminar esse post abaixo de zero, deixo um link delicioso, que já mora na minha lista há algum tempo: o Antarctica Blog. Depois de um tempo viajando pelo mundo, eis que Luke está de volta ao extremo sul do planeta, e conta todos os problemas logísticos de uma expedição ao ponto mais inóspito do planeta. Vale a pena ver a foto desse post, tirada à meia-noite na Antárctica. Minha conclusão é a de sempre: esse mundo é mesmo uma maravilha de experiências diferentes, com recantos para todos os gostos e viagens…

(Agora deixa eu voltar rapidinho pra debaixo do cobertor…)

Tudo de bom sempre.

P.S.

  • Hoje é a estréia do Flávio Prada no condomínio Verbeat. Aliás, ele também entrou na mesma viagem gelada, e encheu o blog de fotos de neve na Itália. Para visitá-lo, aconselho portanto um casaco.


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