Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Numa demonstração clara de que a UNEP, o braço da ambiental da ONU que organiza as celebrações da data, está extremamente antenada com as necessidades atuais de conservação, o tema deste ano para celebrar a data é “Conectando pessoas à natureza”. E que melhor forma de conectar (ou reconectar) as pessoas de uma comunidade local à natureza então que o turismo sustentável?
Tenho um pé atrás com o termo “sustentável”. Porque as definições costumam ser beeeeem elásticas. Então a gente começa a notar pinceladas de “sustentabilidade” que na realidade são apenas o bom e velho greenwashing. Apesar disso, achei extremamente fortuita a conjunção destes dois temas para este ano. Porque sabemos que alguns dos desafios mais complexos do turismo passam pela conservação e proteção do meio ambiente. Portanto, contemplar esta realidade, fazer reflexões necessárias sobre esta conjunção, são passos positivos na solução dos problemas existentes.
Conservação e proteção da natureza vão muito além de criar parques nacionais ou fazer trilhas no meio do nada para ver um bicho/planta específica. Estas ações são muito importantes, partes de uma estratégia de conservação ambiental robusta e de real impacto no futuro do nosso ambiente. Mas estão longe de serem as únicas atitudes representativas de uma política de conservação atual.
Portanto, que fique claro: turismo sustentável não é só sinônimo de “ecoturismo” ou “turismo de natureza”. Precisamos desmantelar completamente esta ideia estreita e antiquada. Turismo sustentável também não é só turismo verde, de economizar água e reusar toalhas. É isso também e mais um pouco.
Turismo sustentável engloba turismo responsável, com ética e ecoconsciente. Que pensa no recurso natural e humano, na responsabilidade social, cultural, política e econômica, na saúde de cada peça que o faz mover, na saúde do destino e do planeta. Exatamente como o esqueminha acima demonstra.
Numa visão mais abrangente, proteger o ambiente passa obrigatoriamente pelas atitudes que tomamos todos os dias a todo momento. Porque nossas escolhas de vida ajudam (ou não) a proteger o meio ambiente. Estas escolhas de vida, entretanto, não se restringem à nossa casa e nossa rotina. Elas se estendem quando viajamos, quando saímos da rotina. Além disso, servem tanto na China quanto acampando em Ibitipoca.
São escolhas que diminuem a poluição, atmosférica, aquática, sonora ou visual, das nossas cidades. Que entendem os limites do patrimônio natural e/ou histórico. Que respeitam as pessoas locais, que estão ali dividindo sabedoria sobre a rotina dos lugares turísticos. Locais estes onde você, turista, está apenas de passagem. Escolhas que levam em conta a realidade das mudanças climáticas. Escolhas que trazem melhorias e impactos positivos para o turista e para a comunidade local. Seja esta comunidade local de pessoas, animais, plantas, ecossistemas…
Turismo sustentável é feito quando decidimos ir a Veneza ou a Nova Iorque. Quando escolhemos uma companhia aérea, um hotel ou um passeio. Ou quando alugamos um carro ou usamos um shuttle. Até quando desistimos de um destino, estamos fazendo uma escolha. Em absolutamente todos os aspectos de escolha de uma viagem, pode-se incorporar decisões de sustentabilidade que ajudem na proteção do ambiente, da saúde dos ecossistemas à qualidade de vida das pessoas.
A gente viaja para relaxar. Ou para fazer negócios. Para competir num esporte. Ou para visitar amigos e parentes. Também para experimentar sabores novos. Ou para realizar um sonho. Para se auto-conhecer mais. Ou ainda para andar a esmo, sem hora marcada pra nada.
A gente viaja. Ponto.
Mas, uma coisa é certa. Independente da razão que nos leva a viajar, a gente não viaja no vácuo.
A gente viaja para um lugar do planeta que tem uma política, economia, sociedade e cultura. Que está inserido num contexto local e global. Que tem um ambiente. A gente viaja e faz escolhas para este ambiente.
Parece óbvio. Mas entender as consequências desta inserção para o destino não são tão claras.
Um destino sustentável é multifacetado. O entendimento dos aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais aos quais está inserido, local e globalmente, pela ética e responsabilidade de cada um dos elos formam a corrente do turismo. Mais: sustentabilidade turística é temporal. Afinal, um local pode ser viável no momento e não mais no futuro. Por exemplo, Miami. Apesar de fadada a afundar com o aumento do nível do mar, a cidade continua construindo prédios e hotéis à beira-mar, inserida no boom atual do turismo.
Como regra geral, toda vez que viajamos geramos um impacto. Isto ocorre independente da razão de nossa viagem, A resposta de cada destino para minimizar este impacto ou torná-lo positivo determina portanto sua sustentabilidade.
Só que o turismo cresceu muito nos últimos 10 anos. Foram inúmeros pontos inacessíveis do globo que se tornaram agora visitáveis por razões políticas, econômicas, sociais ou culturais. Então este impacto é cada vez mais difícil de ser gerenciado de maneira apropriada – quiçá positiva. Fica cada vez mais claro que nossas escolhas turísticas muitas vezes comprometem a sustentabilidade do destino. Que necessitam de limites. Achar o meio-termo entre turistar e limitar é uma tarefa difícil. Destinos famosos como Veneza, Amsterdam e Barcelona vêm se desdobrando para enfrentar este meio-termo de maneira urgente, dada a situação que já beira o caos, com clara insatisfação da comunidade local.
Mas estas cidades não estão sozinhas. Aliás, é muito fácil perceber este fenômeno. Multiplicam-se listas, artigos, filmes e reportagens de lugares que não querem mais receber turistas. Destinos exaustos, onde o turismo passou de benesse a maldição. Onde a comunidade local, afinal, mais se estressa que se beneficia. É difícil achar uma solução para o excesso de turismo (“overtourism” em inglês). Por um lado, viajar expande horizontes e traz benefícios concretos individuais e coletivos às pessoas e ao modo de agir delas. Mas por outro, regras para colocar limites a esta atividade costumam soar elitistas e arrogantes. O que é, aliás, uma concepção errada, mas infelizmente uma percepção ainda real.
Há o caso de destinos cuja economia é extremamente dependente do turismo, como o Camboja (16% do PIB, de acordo com dados de 2006). Mas cuja administração ainda é capenga, principalmente no nível de governo. Além disso, seus benefícios não são compartilhados equitativamente com a comunidade local. Portanto, há o turismo mas ele está longe de ser sustentável.
Ou ainda o caso controverso do AirBnb. Muita gente não o considera um problema de sustentabilidade, quando indiretamente é. Afinal, menos opções de moradia disponível para a comunidade local e menos imposto de turismo arrecadado pode gerar dificuldade em implementar iniciativas ecoconscientes para todos da comunidade. Iniciativas estas que beneficiarão por fim o ambiente geral e a qualidade de vida. Falta responsabilidade social e accountability com a comunidade, também insustentável.
Eis aí um outro lado da moeda. Por que o lugar tem problemas de sustentabilidade… Vamos então deixar de ir? Para algumas pessoas, esta pode ser uma solução. Acho radical demais, entretanto. Repito: muitas vezes, a comunidade local não tem outra alternativa econômica. Depende do lucro do turismo para seu desenvolvimento em áreas diversas, como saúde e educação. Portanto, sua decisão de não ir prejudicará muito mais que ajudará.
Alguns destinos impõem seu limite. Eles mesmos se fecham à visitação para evitar a degradação completa. Ou enquanto uma estratégia de turismo sustentável ainda está em discussão. É o caso de Koh Tachai, na Tailândia. Outros ainda limitam o número de visitantes por dia, como Hanauma Bay no Havaí. Com isso, tanto o ecossistema respira quanto às pessoas ainda o visitam de forma controlada.
Acho que a solução para melhorar a sustentabilidade dos destinos passa por este caminho do meio. O que requer muita conversa e negociação entre diversos membros do setor e a comunidade local. Passa também por uma análise profunda dos governos de cada destino no contexto político, econômico, social e cultural. Para que se providencie soluções sem espantar de vez o turista com a assinatura da comunidade local. Mas, enquanto os governos não agem…
Ao visitar um lugar super-saturado e/ou mal-administrado, o turista pode, por exemplo, se esforçar para fazer escolhas de passeios o mais ecoconscientes possíveis. Afinal, com estas escolhas, pode ajudar a dar o exemplo, numa espiral pra cima.
Por outro lado, se a comunidade local, apoiada ou não pelo governo, passa a oferecer opções ecoconscientes que ela escolheu, o turista é positivamente educado a perceber o que é a sustentabilidade naquele local. É o que, aliás, já vem acontecendo por aí.
O turismo sustentável, a meu ver, precisa ter esse objetivo maior comum a turistas, moradores locais, governo e membros do trade. É o final de uma estrada. Enquanto vamos dirigindo por esta rodovia, passamos por obstáculos e paisagens novas. A gente nem percebe, mas aos poucos, nessa estrada, vamos conectando as pessoas, turistas e comunidade local, ao seu ambiente.
Tudo de turismo sustentável sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…
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Lu, que texto maravilhoso, útil, necessário e oportuno!
Minha tristeza é perceber que os seres humanos só se preocupam com seus próprios umbigos. Lucro para uns e prazer e conforto para outros parece ser mais importante que a preservação dos locais turísticos.
Tomara que mais pessoas se conscientizem de que as mudanças são necessárias.
beijo, menina
Mudanças são mais que necessárias nesse momento do planeta, né? Tempos de 409ppm de CO2... não é pra brincar mesmo. Tem muita coisa em jogo. :/
Bjs, Dê!