Festival-gincana em Ganggyeong

por: Lucia Malla Ásia, Coréia do Sul

Quando digo que topo qualquer tipo de viagem, não estou exagerando. Na noite de terça, recebemos um telefonema do representante da Associação Brasil-Coréia. De acordo com ele, havia duas vagas para um roteiro de fim-de-semana com tudo pago numa “excursão” entre funcionários (?) de embaixadas diversas aqui da Coréia do Sul. A excursão era para participar de um festival em Ganggyeong, sudoeste da Coréia do Sul. Festival de frutos do mar.

Não somos funcionários de embaixada, mas os demais brasileiros pareciam ocupados e não podiam participar. O pensamento imediato foi: boca-livre com lugar novo incluso é imperdível. Representando numa nanoescala o Brasil, mais legal ainda. VAMOS.

Bastou entretanto, uma noite de bom sono para que no dia seguinte nosso espírito cético começasse a atormentar. “Será que essa viagem não é uma grande roubada? E se for uma viagem religiosa? Ou ainda se for um encontro burocrático oficial? E se a gente não puder andar livremente na cidade para fotografar e curtir?” Sim, porque nós adoramos viajar, mas não somos muito fãs de excursões… Teríamos que seguir vários horários que pareciam bem apertados de atividades as mais diversas possíveis. Isso incomodava um pouco. Mas decidimos aceitar o desafio.

Viagem internacionalizada

Primeiro ponto “roubada”: chegar às 9 da manhã de sábado em Seul. Porque significa sair de casa às 7:30, ou seja acordar cedo, algo que detesto fazer nos fins de semana. Decidi abstrair esse detalhe. Entramos no metrô rumo a Seul, sorridentes e felizes.

O primeiro encontro com o pessoal foi positivo. Afinal era uma reunião de estrangeiros, e adoro essas situações multi-nacionais. Países representados no ônibus: Nepal, França, Áustria, Nigéria, Romênia, Geórgia, China, Filipinas, Vietnã, Japão, Myanmar e, é claro, Brasil. Além de uma meia dúzia de sul-coreanos. Logo na ida, começou a quebra do gelo: as pessoas pareciam se conhecer de outros eventos, e éramos as únicas caras novas do grupo. A maior parte das pessoas era mais velha. Quatro crianças, entretanto, alegravam o ambiente. Todos queriam saber da gente, e com isso, começamos a nos soltar. Um francês e uma romena pareciam ser os organizadores da excursão. Eram, aliás, os mais extrovertidos do pedaço, sempre fazendo piadas e elevando o astral da galera. Clima pra lá de descontraído.

No Festival de Frutos do Mar de Ganggyeong

Ganggyeong é uma cidadezinha microscópica, um desses lugares no meio do nada, com pouco a oferecer. Não consta no Lonely Planet Korea, e tive dificuldades em achar no mapa da Coréia do Sul. Como toda cidade minúscula, é onde você pode perceber a face mais antiga da rotina humana de um país.

Ao chegarmos lá, fomos direto pra área do Festival de Frutos do Mar, à beira de um rio.

Aprendendo a fazer kimchi

O festival começava com a competição internacional de… fazer kimchi! Isso mesmo, cada um teve que fazer um montão de kimchi, a comida mais típica da Coréia do Sul, auxiliados devidamente por uma ajumá. A regra era clara: estrangeiros fazem e provam o kimchi, que foi avaliado por uma comissão de “especialistas em kimchi” – foi assim que os jurados foram apresentados.

Quando vi a quantidade de acelga que eu ia ter que encarar, mais aquele saco enorme de pimenta – logo eu, que sou alérgica e detesto kimchi – já percebi que minhas chances de ganhar aqueles 200 dólares estavam reduzidas a zero. Expliquei então para uma japonesa que não posso comer pimenta. Ela repassou a informação em coreano fluente para a “minha” ajumá. Decidiu-se então que eu faria o “kimchi branco”, que não tem pimenta. Ufa.

Kimchi branco - Festival de Frutos do Mar em Ganggyeong - Coréia do Sul
O primeiro kimchi – e provavelmente o último – a gente não esquece… Kimchi branco, com meu nome e o país que representei, em coreano.

A competição então começou. 45 minutos depois de pincelar aquele molho de camarão salgadésimo a cada folha de acelga, os jurados passaram analisando e os prêmios máximos foram entregues pelo prefeito da cidade – que honra. Não venci, é óbvio. Mas o meu era o único kimchi branco da festa. Portanto todos quiseram experimentar. O prêmio para todos era levar seu kimchi pra casa. 5 kg(!!!), que estão nesse momento na área de serviço aqui de casa, fermentando ainda mais e mais. Haja kimchi.

Pimenta vermelha na preparação do kimchi - Festival de Frutos do Mar - Ganggyeong - Coréia do Sul
A bagunça da pimenta vermelha.

Gincana em Ganggyeong

As atividades em Ganggyeong continuaram em ritmo incessante, as mais bizarras possíveis, bem no ritmo de gincana. Todos eram incentivados a participar. Houve o campeonato de “Destreza com palitinhos”. A tarefa era transferir grãos de soja com hashis de um prato pra um copo, um a um. Quem ganhou foi um vietnamita, povo que também se utiliza de hashis para comer. Assim não vale, concorrência desleal!

Houve o campeonato de “Cuspe à distância” – um coreano cuspiu 8 metros, que absurdo!

Campeonato de comer com palitinhos - Festival de Frutos do Mar
Ocampeonato de comer com palitinhos – ou seriam palitões? Destreza pouca é bobagem.

Em determinado momento, não entendi bem o propósito, todos sentaram numas mesas em frente a sua bandeirinha. Então, os coreanos da cidade passavam coletando as assinaturas de cada estrangeiro em um “certificado de festa”. Uma tarde de autógrafos de Homo sapiens internacionalis que representavam seus países de origem ali, naquele momento. Uma viagem ao provincianismo nostálgico. Não me lembro de colecionar esse tipo de coisa, mas também não me recordo de quando criança ir a nenhuma feira com vários estrangeiros, embora morasse numa cidade bem pequena.

Autógrafos internacionais para crianças - Festival de Frutos do Mar
Hora de dar autógrafos internacionais às crianças coreanas.

Bulgoggi pro jantar

O dia acabou em um jantar bem coreano de bulgoggi (carne ensopada cozida na mesa), com karaokê – haja ouvido e paciência com o próximo… Mas já estávamos completamente entrosados, e só demos risadas dos micos de todos.

Em nossa mesa, as duas japonesas (uma delas de Hiroshima) contaram sobre suas experiências próprias com a bomba atômica. Nunca tinha conversado com ninguém que me desse uma narrativa tão próxima de todo aquele horror radioativo, e de repente senti que a viagem já tinha valido a pena só por aquele papo, que dirá pelo resto do grupo. Fomos então para o hotel. No quarto, ao invés de bebidas e afins no frigobar, tinha uma máquina de venda dos produtos: um vending machine. Ao lado de um computador. Sem dúvida, prático. Mas eu estava muito cansada das brincadeiras do dia, e fui ler deitada meu livro do Göran Kropp. Aliás, terminei a leitura, e recomendo aos aficionados por montanhismo.

Vending machine dentro do quarto do hotel
A máquina refrigerada de vender guloseimas dentro do quarto do hotel.

Segundo dia com futebol

Foi difícil acordar no dia seguinte às 6 da manhã (!!) – desconfiei seriamente da sanidade mental de alguém que marca um futebol amistoso de várzea às 7 da matina de domingo. Mas fomos, afinal tudo é festa. Time de estrangeiros contra locais, e a temperatura devia estar em torno de 3 graus. Isso mesmo, uma geladeira. Me deu pena de todos os jogadores. Eu congelei. A pelada terminou em 4X4, e vários jogadores mais conversavam e fofocavam em campo que jogavam. Uma diversão, sem dúvida. Até então, não tínhamos tomado café, e fomos agraciados com um legítimo “café da manhã coreano”: sopa apimentada de carne com kimchi. Eu passo.

Time de futebol - Pelada Internacional - Ganggyeong - Coréia do Sul
Os times de futebol na foto chavão de confraternização (típica de várzea de Jogos Perdidos…).
Nepalês no futebol - Coréia do Sul
O nepalês mostrando toda a sua “ginga” (e frio!) em campo.

Visita ao Museu da Guerra de Baekgjae em Ganggyeong

Museu de Guerra de Baekjae - Ganggyeong
O Museu de Guerra de Baekjae.

Próxima parada: visita ao Museu da Guerra de Baekjae, que conta um pouco da história dessa dinastia que reinou de 600 AC até 18 BC. A exposição era interativa, e permitiu que vestíssemos a roupa do cavaleiro coreano. Me senti num filme de época. E que roupa pesada!

Com roupa de guerreira da dinastia Baekjae - Festival em Ganggyeong - Coréia do Sul
Semi-vestida de guerreira da dinastia Baekjae com arco sem flecha na mão!

Almoço com Confúcio

Do museu para o Festival de Frutos do Mar, onde almoçamos trajados com outra roupa tradicional da Coréia do Sul, todos os excursionistas fantasiados de Confúcio. Uma farra usar aquele chapeuzinho, que em tempos antigos era feito com fios de cabelo do rabo do cavalo, e hoje é feito com nylon. Durante o almoço, conversamos com os nepaleses. É claro que eu tinha que puxar um papo Everest “básico”, mas eles eram de outra casta (brahmas). Ou seja, não-sherpas, não-montanhistas.

Traje tradicional de Confúcio - Ganggyeong
O almoço coreano tradicional à caráter. Esses chapéus estilo Confúcio são muito estranhos.

Show de calouros

Já era de tarde, e ia começar o show de calouros em Ganggyeong. Claro, gincana que se preze tem que ter um show de calouros. E lá fomos nós… Não apresentei nada (não sou chegada a um palco, gosto mesmo é de bastidores). Mas uma peruana fez a dança do ventre, e um srilankês cantou uma música que levantou a platéia. Um quinteto coreano de dança/música/performance arrasou no techno-street, e duas crianças filipinas fofas cantaram e encantaram.

Crianças filipinas em show de calouros
As fofíssimas crianças filipinas que encantaram no show de calouros de Ganggyeong.
Isso é Myanmar! O representante do país em traje típico em outro momento da calourada.

Depois dessa tarde, tudo pronto para enfrentar o engarrafamento da volta para Seul. Jantamos na estrada. Ao chegar em Seul, aquela troca chavão de emails. E a sensação de que o Festival de Frutos do Mar não foi nada roubada. Foi sim um privilégio compartilhar desses momentos únicos de “pagação de mico” num pequeno festival de cidade de interior da Coréia do Sul onde reinou o universal desejo humano de amizade entre os povos.

Tudo de bom sempre.

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