Mergulho com o tubarão-tigre nas Bahamas

por: Lucia Malla América Latina, Bahamas, Mergulho, Tubarões

Muito antes do distanciamento físico se tornar um protocolo básico de sobrevivência, a maioria das pessoas já se distanciavam naturalmente dos tubarões. Mas, como meus amigos já sabem, eu hoje pratico fielmente distanciamento físico de outros humanos – mas não de tubarões. E, em julho de 2019 (pré-pandemia…), finalmente realizei um dos grandes sonhos da minha vida: fiz o mergulho com o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) nas Bahamas.

Mergulho com o tubarão-tigre nas Bahamas
Tubarão-tigre, Galeocerdo cuvier.

O tubarão-tigre

Esta espécie de tubarão é considerada das mais perigosas aos humanos, responsável por boa parte dos ataques letais que vemos no noticiário. Junto com o tubarão-touro (com o qual já mergulhei em Fiji) e o tubarão-branco (que vi na Cidade do Cabo), estas três espécies são responsáveis por quase 70% dos ataques que ocorrem no planeta. É isso: das mais de 500 espécies de tubarões existentes, apenas três são mais preocupantes para quem nada no mar.

E o tubarão-tigre é uma destas espécies. O perigo dele vem de sua característica generalista, ou seja, sua dieta tem quase nenhuma restrição. Efetivamente, um tubarão bom de boca, que pode se interessar e comer qualquer coisa que se mova e apareça em sua frente. (Já ouvi relatos de acharem vários objetos dentro do estômago deles.) Este generalismo é a causa dele atacar em muitos casos. Afinal, ele faz uma “provinha” daquilo que vê se movimentando na água.

O problema é que o tubarão-tigre é enorme, com uma boca avantajada. Portanto, quando ele faz uma provinha, isto costuma significar a perda de um membro ou um pedaço da presa. Por exemplo, se a presa for uma pessoa, pode levar a uma hemorragia que em muitos casos, infelizmente, é a causa mortis.

Sabendo deste perigo, a ideia de fazer um mergulho com o tubarão-tigre acelerava ainda mais meu coração. Adrenalina alta, poucas chances para erros. Portanto, todo cuidado seria pouco. E foi assim que encarei esta aventura nas férias de 2019.

Por que nas Bahamas?

Para a maioria das pessoas, as Bahamas são sinônimo de férias perfeitas, com suas ilhas paradisíacas, opções convidativas e variadas de praias de areias clarinhas. Descansar à beira-mar, tomando drinks coloridos. Afinal, é um país ilhéu no oceano Atlântico, ainda na zona tropical, pertíssimo da costa da Flórida, nos EUA. Perfeito pra relaxar.

Mas, dentre aqueles que curtem mergulhar, as Bahamas são conhecidas também como a “capital mundial do mergulho com tubarões”. Isto porque o país conta com ~40 espécies de tubarões que frequentam suas águas. Incluindo os chamados “big five“: tubarão-martelo, tubarão-tigre, tubarão de recife, tubarão galha-branca oceânico e o tubarão sedoso (silky shark). As Bahamas são tão incríveis para ver tubarão que vocês podem reparar: não tem uma Shark Week sequer em que não apareça uma cena no país.

E o “ameaçador” tubarão-tigre é uma destas espécies que chama as Bahamas de “casa”.

Tubarões nas Bahamas

Onde está o tubarão-tigre nas Bahamas?

Para o mergulho com o tubarão-tigre, o ponto chamado Tiger Beach, que fica ao norte do West End da ilha de Grand Bahama, é o local mais conhecido e certeiro. Apesar do nome, Tiger Beach não é uma praia. É um banco de areia a cerca de 10 metros de profundidade, invisível portanto a quem olha da superfície do mar. Só é possível chegar a Tiger Beach de barco, porque o ponto fica relativamente afastado da costa, como você podem ver no mapa.

Mapa de Tiger Beach - Bahamas
Mapa da ilha de Grand Bahama, com a bandeira marcando Tiger Beach, onde a gente faz o mergulho com o tubarão-tigre. Repare o quão perto da Flórida (EUA, à esquerda) este ponto está.

A operação de mergulho

Para mergulhar com o tubarão-tigre, nós decidimos fazer um liveaboard com a Scuba Adventures, do Jim Abernethy, conhecido fotógrafo subaquático e ativista da conservação dos tubarões, e com mais de 20 anos de experiência com esta operação no planeta. A operadora fica em West Palm Beach, na Flórida. Antes da pandemia e do distanciamento social, o barco de liveaboard deles, chamado Shear Water, tinha lugar para 8 passageiros e 4 tripulantes. Quando fomos em julho de 2019 para a operação de fim de semana, éramos 7 mergulhadores, um grupo muito bacana que incluía um fotógrafo de moda em Milão, um veterano militar, um professor de escola primária na Califórnia e um casal animado de sweethearts do Texas.

Barco Shearwater - Jim Abernethy
Barco de liveaboard Shear Water.

O barco cruza o Atlântico da Flórida para Grand Bahama durante a noite. De manhã, já nas Bahamas, paramos primeiro na imigração, na marina de West End. Enquanto os trâmites legais são desembaraçados, dá tempo pra gente esticar as pernas na praia abaixo – que já é clichê de “Bahamas”.

Praia de West End - Bahamas
Praia em West End, Bahamas.

Uma vez que passamos a imigração, o barco segue para Tiger Beach, onde a aventura começa.

Mergulho avançado

O mergulho com o tubarão-tigre não é para principiantes.

Em primeiro lugar, porque o animal é realmente perigoso. Portanto, é essencial que os mergulhadores sejam mais experientes, que consigam se sentir confortáveis com o equipamento de mergulho e manterem a calma em momentos de perigo real. Só muita experiência embaixo d’água permite isto.

Em segundo lugar, porque no esquema que o Jim Abernethy aperfeiçoou com precisão, o mergulho é individual. Ou seja, você é responsável por si mesmo, inclusive pelo seu tanque de ar. Os dive masters estão na água, e podem te ajudar em uma situação de emergência. Mas você não pode a priori contar com eles, que estarão ocupados lidando com o tubarão-tigre. Ou tubarões-tigres, no plural, dependendo da sua sorte. Portanto, só com experiência avançada de mergulho você consegue encarar este mergulho com uma mentalidade mais individual. Quando o ar está terminando, por exemplo, você sobe sozinho de volta ao barco para trocar o tanque.

Protocolos de segurança

Acima de tudo, este é um mergulho com protocolos de segurança muito distintos da maioria dos mergulhos que você fará no planeta.

O primeiro protocolo tem a ver com a roupa que você mergulha. Apesar de estar nas Bahamas das águas quentinhas, não é permitido que apareça nenhuma parte da sua pele. Afinal, qualquer “branquinho” de pele o tubarão-tigre pode entender como peixe pequeno e tentar morder. Então, apesar do calor, o traje de neoprene é completo: bota, meia, wet suit de manga longa, touca e luvas.

O segundo protocolo é a cor da roupa: tudo preto. No máximo, azul escuro. Máscara, pé de pato e colete precisam ser escuros. Viramos ninjas para encarar o perigo. Qualquer peça de roupa ou equipamento que seja em outra cor ou que chame a atenção é devidamente proibida, para evitar confundir o tubarão-tigre.

O terceiro protocolo é que, se você não vai fotografar a cena (portanto, tem uma máquina subaquática relativamente grande em mãos), você ganha um bastão de PVC, com o qual pode tentar afastar o tubarão-tigre caso ele comece a te incomodar “demais”. (O conceito de incomodar demais é individual, é o quão confortável você se sentirá com ele.) O bastão de PVC tem que estar na sua mão por todo o mergulho.

Tubarão-limão e mergulhadora - Tiger Beach - Bahamas
Uma Malla em Tiger Beach. E com meu bastão em mãos, claro. Vendo um tubarão-de-recife (Carcharhinus perezi).

O quarto protocolo de segurança, e talvez o mais importante, é que você nunca tira os olhos do tubarão-tigre embaixo d’água. Assim que ele aparece, os mergulhadores do grupo, incluindo dive masters, que o percebem são obrigados a apontar para a direção do animal, informando portanto ao resto do grupo que o tubarão chegou. Se aparecerem mais de um tubarão, você aponta para o mais próximo de você. Isto para que ninguém seja pego de surpresa, com um tubarão faminto de 5 metros do seu lado.

Mergulho com o tubarão-tigre - Bahamas
Tubarão com um pedaço de peixe na boca.

Como é o mergulho com o tubarão-tigre

Apesar de todo o protocolo, o mergulho em si é fácil. Afinal, não passa nunca de 11 metros de profundidade máxima em Tiger Beach. A água é morninha, muito confortável. A corrente é praticamente inexistente, muito fraca. E cair na água é facílimo. Afinal, você estará super-pesado, com chumbo suficiente para literalmente te afundar. Por exemplo, eu que uso em geral 4 kg de chumbo para mergulhar em área tropical, fui com 15 kg. Porque o objetivo é que, com tanto chumbo, você se fixe no fundo. Além de fazer você se afundar rápido mesmo.

Depois de afundar na água, você precisa andar pelo banco de areia a 11 m de profundidade até a “arena”, onde então você pode ajoelhar-se e esperar o bicho aparecer. Como a água é quentinha e o mergulho é raso (e parado), o consumo de ar é baixo – mas você está por conta própria, responsável por checar seu ar e subir sozinho caso o ar chegue no limite.

Arena para o mergulho com o tubarão-tigre - Bahamas
A formação da “arena”, por onde os tubarões passam no fundo arenoso, e o barco logo acima.

A “arena” é uma formação em “V” que os mergulhadores fazem. O dive master gera uma trilha sensorial com sangue de peixe na tentativa de atrair o tubarão-tigre. Mas, claro, esta trilha não é específica para o tubarão-tigre, e outros tubarões costumam vir também. Em certos momentos, a cena é bem caótica, com tubarão vindo de tudo quanto é lado.

Tubarões nas Bahamas - Tiger Beach

Quando o tubarão-tigre aparece, todos os olhos humanos se voltam para ele. O que gera uma situação inusitada, em que seu foco está tão afunilado naquele gigante de 5 metros, que você nem percebe os outros tubarões esbarrando em você. Foram incontáveis vezes em que um tubarão-limão ficou do meu ladinho como se estivesse me usando como proteção. Uma festa total.

De volta ao barco

Você fica lá no fundo quanto tempo quiser. Como você é totalmente responsável pelo seu tempo de fundo e pelo seu ar, quanto este estiver acabando, você sobe de volta pro barco, que está ancorado ali. A subida é mais complicada, porque o peso do chumbo dificulta o impulso inicial para pegar a corda que leva ao barco. Mas, uma vez que você se agarra à corda, a subida facilita. E você é unicamente responsável também pela parada de segurança da subida, que é obrigado a fazer como parte do protocolo de segurança da operação.

(Quer dizer, isto se não tem um tubarão-tigre por perto, né… Em dado momento, por exemplo, eu precisava subir porque meu ar estava acabando, mas o tubarão-tigre não saía de perto. Então tive que me mover de maneira beeeem delicada até a corda de subida, para não levantar nenhuma “suspeita” do tubarão-tigre de que eu também poderia ser comida. Adrenalina a mil, mas com calma e um pouquinho de coragem, tudo correu bem.

Barco de operação de mergulho - Tiger Beach - Bahamas
Estou na popa do barco. Dá pra ver a plataforma de metal em que a gente precisa “encalhar” na volta do mergulho com o tubarão-tigre. E com outros tubarões ao redor, claro.

Uma vez na superfície, você precisa esperar uma ondinha passar pra você literalmente “encalhar” feito uma baleia pesada na plataforma de metal que fica na parte de trás do barco. De volta ao barco, você pode reencher seu tanque com ar, comer uma fruta, beber uma água e… Voltar pra água pra ver tubarão. Que é o que todo mundo faz, o dia todo, nesta operação super-focada.

Emma

No fim de semana em que nos aventuramos em Tiger Beach, apareceram dois tubarões-tigres. Um deles era a Emma, uma fêmea de 5 metros que é “residente” da área e comumente aparece durante este mergulho. Ela é tão conhecida desta operação que tem seu lugar cativo no site do Jim como “membra” da equipe de mergulho. 😀

Tubarão-tigre Emma - Tiger Beach - Bahamas
Emma entre a gente.

A emoção de ver um gigante

Esta foi a primeira vez em que estive na água com o tubarão-tigre. Esperava que teria muito mais medo ou muito mais reticência. Mas, além da rigidez dos protocolos de segurança da operação, também percebi que, como qualquer outro animal selvagem, o respeito ao espaço dele é fundamental. Uma vez que este respeito é mantido, a experiência se torna inesquecível.

Foi tudo tão emocionante, tão cheio de adrenalina – e tão fácil de mergulhar com ele – que saí das Bahamas empolgada já para voltar um dia e repetir a experiência. Dentre os inúmeros mergulhos com tubarão que fiz na vida, este é sem dúvida um dos mais marcantes. Altamente recomendado.

Um viva às Bahamas, residência oficial de tantos tubarões do mundo.

Tudo de tubarões sempre.

P.S.

  • Hoje começa a Shark Week 2020. Todo ano, aproveito esta semana comercial para comentar mais sobre tubarões. Este ano, tentarei contar algumas outras aventuras tubaronísticas do ano passado, vividas num mundo pré-pandemia mas já com distanciamento físico – do tubarão, é claro.


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