A Denise me deixou um link na caixa de comentários de um post passado que eu não conhecia: uma página agregadora de todos os ataques de tubarões de Recife que aconteceram nos últimos anos a seres humanos. Sem dúvida, um site interessantíssimo. À primeira vista constam apenas relatos de ataques, mas se você fuçar mais, verá explicações relevantes com uma análise ecológica e a razão dos ataques em Recife.

Ataques de tubarão a humanos se tornaram mais freqüentes em Recife, PE, consequência do desenvolvimento.

Mas mesmo assim, a página inicial dá essa impressão falsa de “el matador” ao tubarão sem dar um atalho fácil ao link com as devidas razões de por que ele vem se comportando assim especificamente naquela área de Recife – já que em outros lugares do mundo, como nas Bahamas, os tubarões-cabeça-chata não atacam pessoas tão frequentemente. E eis que essas razões estão também explicadas cientificamente num post recente do Divester – post, aliás, advindo de um programa do Discovery Channel sobre Recife, o que significa que em breve espero poder assistir e avaliar por mim mesma o conteúdo.

Tubarões sendo alimentados manualmente nas Bahamas.

Parênteses

A principal via googlística de chegada ao meu bloguinho são, sem dúvida alguma, as fotos de tubarões espalhadas por diferentes posts. De certa forma, gosto quando as pessoas que estão atrás de informações ou fotos de tubarões caem aqui – muitas procurando inclusive por “receita de sopa de barbatana”, para meu desespero interno. Se pelo menos uma dessas pessoas passar a entender a grande problemática ambiental que envolve esse assunto, já me darei por satisfeita.

(Independente disso, eu já estava também com comichão: muito tempo sem falar de tubarões, meu animal estimado e de hidrodinâmica tão perfeita. Sempre darei um jeito de comentar sobre ele, não tem jeito.)

Por que ocorrem tantos ataques de tubarões em Recife?

Naufrágio “Vapor de Baixo”, um ponto de mergulho recreacional em Olinda, mais distante do porto de Recife (~5 milhas).

Para entender os freqüentes ataques de tubarão que acontecem em Recife hoje em dia, é preciso voltar no tempo: uns 40 anos, mais ou menos. Nessa época, raros eram os ataques de tubarão por lá: eles habitavam mais ao sul, onde uma região costeira de manguezais fornecia o abrigo ideal para sua reprodução. Mais ou menos nessa época, começou a construção do porto de Suape, em Pernambuco, que iria trazer desenvolvimento e bons negócios ao estado. Pois bem, para tal construção, destruiu-se o manguezal onde os tubarões se reproduziam e de certa forma, se alimentavam. Com o hábitat destruído, os tubarões passaram a nadar mais ao norte, onde a água é mais quente e mais cheia de nutrientes. Onde fica Recife.

Visibilidade não ajuda

Entretanto, os tubarões não perturbariam os recifenses hoje se o fundo do mar e as condições do oceano local fossem diferentes. Nas Bahamas, onde a visibilidade embaixo d’água é fantástica, os tubarões raramente atacam humanos, porque eles, tubarões, os “enxergam” bem – enxergar aqui no sentido de perceber que não são seu alimento. Recife tem um mar de pouca visibilidade porque o rio Capibaribe despeja todo seu leito na região, comprometendo a clareza da água do mar de lá. Além disso, o fundo do mar em Recife é peculiar: um grande penhasco subaquático, que ainda próximo da costa leva a profundezas abissais, onde os tubarões gostam de buscar refúgio, vindo à superfície apenas para… se alimentar.

Num terreno próximo a regiões mais profundas, com água turva e intensa pesca (muitas vezes ainda de arrasto, desequilibrando a cadeia natural do ecossistema), os tubarões não conseguem identificar a presa com tanta clareza. Adicione a isso o fato de que a área onde eles buscavam seu alimento natural foi destruída, e o resultado desse caldeirão são tubarões com fome tentando sobreviver em áreas mais ao norte, próximo à boca de um rio, em baixa visibilidade: a receita perfeita para um “ataque”.

Desequilíbrio ecológico

Humanos não são parte da dieta de tubarões. Em geral, os ataques são reflexo de uma “petiscada” que o bicho dá em algo se movimentando na superfície da água que ele quer saber se é alimento. O problema é que quando um animal enorme com uma mandíbula tão poderosa faz uma “provinha” do alimento, essa mordida única já é suficiente para causar sérias hemorragias. Às vezes, até matar um humano, infelizmente. Curiosamente, a maior parte dos ataques são mordidas únicas. Ou seja, o tubarão, ao perceber que a carne é humana, larga a presa e não a devora por completo.

É claro, fica nítida a existência de um problema ecológico muito maior por trás de toda essa questão. A empresa que gerencia o porto de Suape, um dos maiores responsáveis pela destruição do habitat natural dos tubarões em Pernambuco, se desculpa fracamente jogando a culpa na pesca de arrasto e na falta de recursos governamentais para resolver os problemas dos depejos orgânicos no mar. (Para mim, essa desculpa não cola muito.) Enquanto esse jogo de empurra vai rolando, pessoas continuarão a ser atacadas em Recife. Principalmente aquelas que mais frequentam o mar, como os surfistas.

Há um intenso debate entre estudiosos de comportamento animal. Estes dizem que o surfista em cima da prancha esperando pela onda, quando visto por baixo, se parece com uma tartaruga ou outro animal qualquer que o tubarão efetivamente atacaria. Portanto, o tubarão estaria “se confundindo” ao morder o surfista. É verdade que o surfista lembra mesmo uma tartaruga quando olhamos pra cima, e essa pode ser uma boa explicação comportamental de porque eles são “alvos” mais freqüentes. Mas ainda acredito que o simples fato de eles estarem mais tempo na água não pode ser desprezado nessa análise. Afinal, maior probabilidade de encontro com o bicho.

O mar é do tubarão

Mas outra percepção que eu gostaria muito que as pessoas tivessem também: o mar é a “casa” do tubarão. Ao decidirmos entrar na água do mar, precisamos estar cientes de que aquele não é o nosso ambiente natural. Embora às vezes também pense que nasci pro mar, sei que é só uma viagem na maionese pessoal. Deveríamos entrar no mar sabendo que atitudes de respeito e informação são fundamentais para a boa convivência entre nós, humanos, e os demais “donos” daquela casa. Com uma postura assim, é portanto menor a probabilidade de acidentes acontecerem.

Tudo de bom sempre aos tubarões do mundo.

Não são lindos?

P.S.

  • Nenhum dos tubarões retratados aqui pertencem às espécies que mais atacam em Recife: o tubarão-tigre e o tubarão-cabeça-chata.

UPDATE: Ainda no tema tubarões, deparei-me hoje com essa notícia: cientistas australianos tentam desesperadamente salvar tubarões e produzem um útero artificial para os animais. O “desesperadamente” não é de minha autoria, como vocês podem perceber no link. 😉

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • FOI COMIDA POR UM TUBARÃO A MINHA AMIGA EU VI FOI TERIVEL MISINTO COPADO DE TUDO ISO AS VESES EU SONHO COMO FOI A MORTE DELA ACORDO TARDE DA NOITE ENÃO COPSIGO DORMI TINHA SAGUE PRA TODO LADO NOS ESTAVAMOS ACANPANDO NA PRAIA DE CABOA EU E MEUS COLEGAS VIRAM DEPOIS QUANDO ELA JÀ ESTAVA MORTA NOS SAIMOS DEPRESA E NÃO COMENTAMOS COM NINGUE SOBRE ESE TRAJICO ASIDENTE NOS ESTAMOS REUNINDOS AGORA ESCREVENDO TEMOS MEDO DE IR PRA OMAR NÃO SINTIMOS MAIS A ÁGUA SALGADA EM NOSA PELE NEM NOSA AMIGA

  • Não faz parte da natureza dos tubarões atacarem o ser humano. Algumas vezes isso acontece, pois eles olhando de baixo para cima vêem as pessoas flutuando na água, contra a luz, não identificam exatamente o que é e por causa dos movimentos da pessoa, acabam confundindo com lobos marinhos, leões marinhos, ou outra de suas presas naturais. O que vem intensificando isso é que a pesca intensiva acaba retirando do mar os peixes, diminuindo a disponibilidade de alimento aos tubarões, somado ao fato que as fábricas de peixe soltam no mar seu esgoto com sangue, o que faz com que os tubarões com fome se aproximem ainda mais da costa atraídos pelo "cheiro" do sangue.

  • Tem que exterminar todos !!!
    Apesar do homem ser o causador , o turismo não pode ficar a mercê de um animal que remete extremo desconforto para uma camada de pessoas que depende do turismo. As pessoas querem ser muito políticas, eu vou direto ao ponto!!!

    • Claudinei ignorância pura sua! O oceano é deles não nosso..Se informe direito antes de falar uma barbaridade dessas

      E quais são os riscos para a saúde dos oceanos e os impactos ambientais que a redução nas populações de tubarões pode causar?
      Szpilman: São dois principais: desequilíbrio na saúde dos oceanos e descontrole populacional de outras espécies. O tubarão alimenta-se muito de carniça, come os alimentos já em decomposição. Sem estes animais, as microbactérias se proliferam e pode haver problemas de oxigenação em todo o planeta. O tubarão também está no topo da cadeia alimentar. Quando elimina-se este animal, aquele que está logo abaixo aumenta muito, pois não tem mais predadores. Foi o que aconteceu, por exemplo, em uma baía australiana, na década de 80. Lá, acabaram os tubarões e a população de polvo multiplicou, causando sérios problemas para a lagosta, alimento deste último. A afirmativa vale também, por exemplo, para os ursos polares. Por ano, o governo canadense permite a matança de 300 mil focas (multiplicadas em virtude da queda no número de ursos polares) porque ela come muito bacalhau e o mercado deste bicho é enorme.
      http://www.oeco.org.br/es/reportagens/24456-mergulhando-com-os-tubaroes

      Portanto, meus amigos, não há tubarão que agüente essa falta de alimento e a oportunidade de abocanhar um turista, principalmente nos locais onde esses problemas são mais graves. Sadowski (se estivesse vivo) e Otto Bismark que o digam. Redes de proteção têm sido usadas nos Estados Unidos e na África do Sul, onde os ataques de tubarões são constantes. Mas parecem não ter resolvido o problema devido às dificuldades de manutenção e rompimento das redes, além das mortes desnecessárias de tubarões em busca de alimento.

      Capturar tubarão vivo ou morto (de preferência morto) para resolver o conflito é a política adotada pelas autoridades do Recife. Isso é tapar o sol com rede de pesca. É o mesmo que mandar matar todos os marginais pra não ter que resolver os conflitos sociais e as desigualdades da teia alimentar urbana. Não vai proteger banhistas contra ataques de tubarão trombadinha, perdido e faminto. Sociologia e ecologia têm muita coisa em comum. O melhor é investir pra reverter o processo de degradação do ambiente costeiro tomando medidas como (i) fazer valer as leis de regularização da pesca, acabando com o uso de bombas, produtos químicos, com a pesca de arrasto em áreas proibidas e com a captura de peixes ornamentais e rochas vivas para atender o comércio clandestino de aquários (ver coluna anterior); (ii) lançar no mar apenas o esgoto tratado e canalizado através de um emissário submarino para desaguar e dispersar na região oceânica; (iii) proibir obras marinhas que degradam os habitats naturais costeiros e, finalmente, (iv) educar e alertar a população para os perigos da degradação ambiental e da pesca predatória na zona costeira. Só assim estaremos protegidos das mordidas de tubarão. E eles das nossas.
      http://www.oeco.org.br/frederico-brandini/17101-oeco_19541

  • todos eles tem q morre nao sei pra q eles atacam essas pessoa hoe em dia o mar nao ta mais pra ser entrar e tomar banho pq ja tem diabos naqueles lugares q sao tubaroes

  • "Uma breve avaliação da possível influência da poluição orgânica do Rio Jaboatão, particularmente de dejetos lançados por Matadouros e do Chorume do Aterro da Muribeca, no problema dos ataques de tubarão verificados no Recife, a partir de 1992." .......ecossistema alterado

  • As pessoas tem que respeitar o habitat dos animais. Não são os tubarões que estão fora do sitio, nós é que estamos. Se começarmos a matar tudo o que nos incomoda acabamos por nos matar uns aos outros. Os tubarões são lindos e estão no sitio certo a água do mar! Aliás as pessoas que reclamam deles deviam ser presas pois o que não falta são placas a avisar do perigo. Só entra na água quem quer. A falta de responsabilidade é que é a causa de tantos ataques.Deixem de ser hipócritas..

  • eu curto tubarao mas tenho medo deles gostaria de um dia passar a mao em algun deles mas quem eu gostaria de conhecer mesmo é o tubarao baleia e o tubarao branco.

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Lucia Malla

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