Industrialmente Ulsan

por: Lucia Malla Ásia, Coréia do Sul, Praias

Em setembro do ano passado, nós fizemos uma viagem para gastar as milhas que tínhamos acumulado pela Korean Air. Podíamos escolher qualquer destino dentro da Coréia do Sul. Escolhemos portanto Gyeongju, uma pérola histórica. Entretanto, Gyeongju não tem aeroporto. Então tivemos que voar para Ulsan, que fica a 40 minutos de ônibus. Como Ulsan era parada obrigatória tanto na ida quanto na volta, decidimos conhecer um pouco essa cidade também. Montamos então um roteiro em Ulsan basicão para não desperdiçar a parada.

Ulsan industrial – mas nem tanto

“Ulsan é a cidade mais industrial da Coréia do Sul.”

Eu ouvi essa frase incontáveis vezes da boca de diferentes coreanos, inclusive nativos da cidade, e sempre com uma conotação negativa, de poluição e marasmo. Fiquei com um pé atrás, claro. Afinal, o que uma cidade que só tem fábricas poderia oferecer ao turista além de crises de asma? (Apesar disso, a seleção brasileira ficou hospedada em Ulsan na saudosa Copa de 2002.) Quando percebemos que não tínhamos muita escolha no roteiro, comecei a ler sobre Ulsan. Achei meia dúzia de atividades que pareciam interessantes e estava feito um roteiro “meia-boca”.

Vista aérea de Ulsan - Coréia do Sul
Vista aérea de Ulsan, com seus recortes costeiros.
Vista aérea do porto de Ulsan - Coréia do Sul
Um mar de fábricas ao redor do rio. Ulsan tem o porto mais movimentado da Coréia do Sul.

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Chegada em Ulsan

É realmente fantástico quando a gente se surpreende com um local – por isso que gosto mesmo é de ir ao lugar e elaborar a minha própria opinião, não apostar todas minhas fichas na opinião alheia. Não sei se foi como o avião pousou, dando a volta por todo o litoral da cidade, ou se foi o céu azul que brilhava na manhã da chegada, ou se foi o cenário plácido do rio Taehwa que corta a cidade. Mas fato é que achei Ulsan uma cidade muito simpática, industrial na medida certa, digamos assim. Lembrou-me (vista do céu) Vitória (ES) – talvez pela curvatura do litoral e do enorme porto da Hyundai (fala-se em coreano “riôndé”) lá instalado.

O aeroporto pequeno, mas simpático – internacional, para os grandes negócios que devem ser fechados ali, na sede da Hyundai Heavy Industries (que produz navios e afins). Mas, como já tínhamos planejado não nos atermos a Ulsan, fomos direto para Gyeongju, passar 2 dias. Deixamos Ulsan para depois.


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Roteiro em Ulsan

Na volta, decidimos vir mais cedo. Passamos entretanto parte do dia caminhando por Ulsan. No centro da cidade, uma visão engraçada: uma roda-gigante enorme em cima de um prédio de alguns andares. Era a Hyundai Department Store. Uma dessas bizarrices da engenharia civil, em minha modesta opinião leiga. Como se sustenta?

Roda gigante em cima do prédio - Ulsan
A roda-gigante em cima do prédio!

Depois de tirarmos fotos daquilo, fomos almoçar num fast-food, para não perdermos tempo. (Dica: vale a pena você ler sobre este fast-food coreano.)

Guindastes do porto da Hyundai - Ulsan - Coréia do Sul
Vista dos guindastes do porto da Hyundai.

Roteiro em Ulsan: visita ao Museu da Baleia

Do centro, pegamos um ônibus até a ponta da baía de Ulsan, em Jangsaengpo, onde fica o Museu da Baleia. Achei interessante a proposta do museu, que tem um prédio interessantizinho. No pátio do Museu, uma réplica de navio baleeiro antigo.

Dentro do museu, explicações biológicas e econômicas sobre o animal e toda a cultura que o envolve – na Ásia, lembremos bem, baleia ainda é comida, infelizmente. Várias fotos da atividade baleeira, daquele mar de sangue que viram os navios quando eles coletam um animal. Admirei um feto de baleia em formol, à exposição. Biologicamente muito interessante. Poucas tabuletas em inglês (melhor seria dizer “konglish”), do que se conclui que o museu é basicamente para os coreanos.

Museu da Baleia - Ulsan - Coréia do Sul
O prédio do Museu da Baleia.

Carne de baleia?

Mas aí a gente sai do museu, e o que vemos ao atravessar a rua em frente a entrada? Vários restaurantes especializados em… Carne de baleia! Achei aquilo altamente contraditório.

A Coréia do Sul, desde a década de 80, é um dos países que declararam moratória na caça a baleias, por pressões ambientais. Mas eis que descobrimos em Ulsan que aqueles restaurantes ali na frente do museu são os únicos que existem no país. Afinal, é uma “tradição” local (mais uma vez…) comer carne de baleia. Devo esclarecer que não ficou claro para mim de onde essa carne oficialmente vem.

Fato é que muitos nostálgicos do país vão a Ulsan apenas para comer a tal carne. Por causa dessa nostalgia, a Coréia do Sul já há algum tempo pressiona para voltar a pescar baleias para alimentação. Ainda mais: por causa dessa possibilidade, a reunião da Comissão Internacional de Baleias em 2005 foi em Ulsan, na tentativa de trazer ao debate de novo a importância da preservação “sustentada”. E a Coréia do Sul, aliás, apresentou a proposta mais estapafúrdia possível para isso.

Restaurante de carne de baleia - Ulsan - Coréia do Sul
Um dos inúmeros restaurantes que vendem carne de baleia em frente ao Museu da Baleia.
Lulas secando para consumo - Ulsan - Coréia do Sul
Uma cena típica coreana: um varal de lulas, secando para futuro consumo.

De qualquer forma, andar por aquela rua me deu enfim uma enorme tristeza.

Roteiro em Ulsan: Praia de Ilsan

Decidimos ir então passear na praia de Ilsan, que fica do outro lado da baía. Passamos pela fábrica de carros da Hyundai, um mundo, enorme. Tinha um navio parado de pelo menos 15 andares lotado de carros. Que maluquice.

A praia de Ilsan é simpática. Curvatura bonita, algumas lojinhas, um mini-calçadão. Muito “lixo de deriva” na areia – uma praia de drift, talvez? Aquele lixo parecia ser trazido pelas correntes marítimas.

Praia de Ilsan - Roteiro em Ulsan - Coréia do Sul
A praia de Ilsan.

Roteiro em Ulsan: o litoral no Parque Daewangam Sognim

No final da praia, tem uma escadaria que leva a um vilarejo e ao parque Daewangam Songnim (“floresta de pinheiros”) no topo de um morrinho. No vilarejo de ruas estreitas, muitas barraquinhas com comidas típicas coreanas, inclusive os besouros tostados. Que as crianças, aliás, adoram e comem feito pipoca.

Passado o vilarejo, chegamos então na floresta de pinheiros. A trilha leva ao farol branco-mediterrâneo de Ulgi.

Farol de Ulgi - Roteiro em Ulsan - Coréia do Sul
O farol de Ulgi, com uma brancura Omo de dar gosto.

Andando um pouco mais, uma paisagem simplesmente maravilhosa desponta. O mar e um céu azulzíssimos, com as rochas recortadas claras chamadas de Daewangam abaixo. Muito vento, e meu cabelo não parava no lugar nem amarrado. Estava frio no dia, mas as pessoas não se desanimavam a andar até a ponta do parque, onde uma pontezinha ligava o continente a essa ilhota de rochas estranhas.

Fomos até lá. Um local pacífico, afinal, ótimo para reflexões. Diz a lenda que a ilhota é na verdade a rainha Munmu da dinastia Silla, que ao morrer se transformou em dragão e foi morar embaixo d’água, virando finalmente uma rocha protetora da entrada de Ulsan. Estórias à parte, a paisagem é nota 10, apesar da multidão – era domingo.

Litoral de Ilsan - Roteiro em Ulsan - Coréia do Sul
Uma das rochas do litoral de Ilsan ligada pela ponte. Não é uma paisagem linda?
Banco de gatinhos
Adorei esse banco com os gatinhos segurando o assento! Estava na ilhota do parque e era feito de pedra.

Volta para casa

Depois de subirmos e descermos em rochas, hora enfim de voltar para casa. Como não sabíamos como chegar no aeroporto, entramos no primeiro ônibus e por sorte chegamos a um ponto final onde os motoristas conseguiram entender que queríamos ir pro aeroporto, e nos indicaram o ônibus certo. Tranquilíssimo trajeto de ônibus, vendo “as modas” coreanas. Pegamos o vôo para Gimpo (Seul) e a viagem terminou com a certeza de que as milhas da Korean foram muito bem aproveitadas.

Litoral de Ilsan - Roteiro em Ulsan - Coréia do Sul

Tudo de bom sempre.

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