Hoje é o Dia do Biólogo. Para celebrar, vou contar minha última aventura nesta profissão querida que abracei. Estive em meados de agosto viajando pela Europa e o motivo principal desta viagem foi a participação no Selenium 2017, em Estocolmo. Não era o Nobel em Estocolmo, mas era um congresso bem importante para mim também, celebrando o químico Berzelius. Este congresso ocorre de 4 em 4 anos (como a Copa do Mundo!). E é 100% dedicado ao selênio, um micronutriente tão complexo e necessário para nossa saúde. Que por conseguinte também é o foco principal da minha pesquisa biomédica há quase 2 décadas.

No congresso, tive enfim a oportunidade de apresentar um poster e um seminário de 15 minutos sobre meu trabalho.
Para saber mais especificamente sobre meu envolvimento com o selênio, leia estes posts.
A Estocolmo de Berzelius

Um dos highlights deste congresso foi a comemoração dos 200 anos da descoberta do selênio pelo químico sueco Jacob Berzelius. Por isso, a escolha do local do congresso foi indiscutível.
Berzelius trabalhou no Karolinska Institutet em Estocolmo, onde nosso congresso de selênio aconteceu. Além disso, ele também descobriu outros elementos químicos, como o tório. Principalmente, é celebrado como um dos maiores químicos que já passaram por este planeta.

E, é claro, por conta deste currículo invejável, é uma das figuras mais celebradas da história da Suécia. No centro de Estocolmo, por esemplo, visitei o Berzelii Park, cuja atração central é a estátua em homenagem a Berzelius.
No Karolinska Instituet

As palestras mais importantes do congresso foram realizadas no Aula Medica. Este é o prédio onde todos os anos são proferidas as palestras científicas de quem recebe o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. Você pode assistir a todas elas no site do Nobel.
Além da emoção de estar em uma sala tão importante para a ciência mundial, também me encantei com o prédio do Aula Medica. Gert Wingård desenhou esta obra arquitetonicamente espetacular. Enfim, não cansei de fotografar o prédio, por dentro e por fora. De cada ângulo, uma novidade. (E me lembrou um pouco as bandeirinhas do Volpi, que amo, aliás. <3 )


A casa onde o selênio começou
Durante o Congresso, nós selenólogos (como chamamos amigavelmente quem pesquisa selênio) fizemos uma excursão até Gripsholm, na região de Solna, nos arredores de Estocolmo. É neste local onde se encontra o prédio específico em que Berzelius descobriu o selênio em 1817. Que é praticamente um galpão, onde antigamente funcionava uma fábrica de produção de ácido acético para formação de álcool. O álcool era usado para fazer aquavita, a bebida predileta dos vikings escandinavos.

Foi divertido presenciar o momento em que um bando de selenólogos se deparou frente a frente com o galpão do Berzelius, fazendo uma farra sem fim. Afinal, parecíamos um bando de crianças na Disney, tirando milhares de selfies e com sorrisos maiores que o universo químico.

Parênteses
Gripsholm também é famosa pelo Castelo Real de Gripsholm, uma construção lindinha que fica à beira do lago Mälaren. Este castelo ainda fica à disposição do rei sueco para uso a seu belprazer. Mesmo havendo um museu ali dentro aberto aos plebeus. Do lado de fora do castelo, ficam duas pedras rúnicas. Estes registros arqueológicos dos antigos vikings eram, afinal, sua forma cultural de celebrar alguém que morreu.

Banquete no Golden Room do prêmio Nobel em Estocolmo
O banquete do congresso foi outro highlight destes dias na Suécia. Oferecido pela Prefeitura de Estocolmo, aconteceu no Golden Room do prédio da Prefeitura. Este é, aliás, o mesmo salão onde os agraciados com o Prêmio Nobel em Estocolmo passam a noite dançando após o banquete oficial do Prêmio todo dezembro. Ou seja, é o salão da festa.



A sensação de estar ali naquela sala por onde passaram tantas sumidades e mentes brilhantes que admirei ou admiro em momentos descontraídos foi de inenarrável felicidade. Muita gratidão mesmo por tamanha honraria. Além disso, a comida sueca foi de primeiríssima qualidade. Um buffet enorme de beterrabas, queijos e conservas temperadas com endro, que adoro, aliás.
Minha arte no congresso

Para este congresso, apresentei um poster e um seminário. Ambos foram bem recebidos, com perguntas pertinentes e sugestões certamente interessantes. Apesar de um pouco nervosa na apresentação oral (foi a primeira da manhã, e quase cheguei atrasada porque não ouvi o alarme), saí de ambas as apresentações com ótimas ideias para os próximos passos. Este é, aliás, um dos objetivos de um congresso científico. Te abrir os horizontes com ideias novas de colegas gabaritados para discutir o assunto, afinal.
Também sou destas pessoas que para se concentrar em ciência precisam principalmente de alguma conexão com a arte. Então decidi da maneira mais malla possível que neste congresso meu “tema de fundo” seria Mondrian, artista que amo tanto e de linhas tão simplificadas. Dado que meu trabalho tem um tanto de abstrato e requer que chegue num bottom line ultra-simplificado, achei portanto que as linhas claras de Mondrian representavam bem os desafios da minha pesquisa. (Momento viagem #NaMaionese)
Tanto meu poster quanto meu seminário tiveram designs inspirados na obra do pintor holandês. Fui então elogiada por esta escolha pelos pesquisadores europeus. Um deles falou: todo mundo precisa de arte a todo momento. Verdade. E é bom, portanto, sermos lembrados disso durante um congresso. (Esse pesquisador era definitivamente do meu time…)
Uma pitada de avant-garde em Estocolmo
Mas não foi só esta arte que rolou. Na noite de abertura do congresso, um grupo de neurocientistas do Karolinska Institutet montaram uma apresentação de avant-garde chamada “Probing the mind of Berzelius”. A apresentação basicamente lia o texto do artigo original de 1817 do Berzelius via ondas de EEG do cérebro de um dos músicos, o francês Samon Takahashi. (Mais detalhes deste experimento musical aqui.)
A maioria do pessoal do congresso não entendeu/ não curtiu. Entretanto, eu particularmente adorei. Mas sou suspeita. Porque afinal curto música experimental à beça. Além disso, avant-garde é um estilo para “incomodar” os limites estabelecidos mesmo.

O congresso aconteceu por 5 dias, todos de muita discussão e diversão em Estocolmo. Afinal, um congresso científico nunca é apenas para falar de ciência. Engloba primordialmente network, conhecer novos pesquisadores e suas ideias inovadoras. Além disso, rever os amigos cientistas de outros cantos do mundo que falam nossa mesma língua científica. Aquela meia dúzia de gente que entende os jargões e os percalços que passamos. É criar enfim um senso de (micro)comunidade em cima de um assunto tãotãotão especializado.
E que venha então o próximo congresso de selênio daqui a 4 anos – no Havaí. 😉
Tudo de bom Sempre.
P.S.
- Estando em Estocolmo, certamente aproveitei para curtir o Ice Bar da cidade.
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